sábado, 24 de março de 2012

Uma contra-revolução muito tranquila

Ontem à noite, no discurso de abertura do 34º Congresso do PSD, que decorre em Lisboa até domingo, Pedro Passos Coelho disse que o Governo está a fazer “uma revolução tranquila” com as reformas que tem concretizado. Concordemos. Trata-se, de facto, de uma contra-revolução, do há tanto sonhado  ajuste de contas com o 25 de Abril. E tranquila, extraordinariamente tranquila. É que, apesar dos cortes cegos nos salários e direitos de quem trabalha, apesar da depauperação e venda ao desbarato de empresas e serviços públicos a desmantelar, apesar das fortunas que se constroem à vista de todos à custa do empobrecimento geral, apesar de ser evidente que o país se está a despedaçar em cacos, as sondagens mostram um PSD a subir nas intenções de voto.
Por estes dias, lembro-me muitas vezes daquela anedota do cromo que se pendurou numa árvore com uma corda atada à cintura, a quem alguém pergunta o que está ali a fazer. O homem responde: “a suicidar-me, não vês?”. Surpreendido, o outro retorque: “mas se queres suicidar-te, ata a corda ao pescoço, homem!” E o primeiro riposta: “ah, não, isso nem pensar! É que se a ato ao pescoço, morro!”.
Quase todos os dias tropeço em anedotas em tudo semelhantes a esta. Indignam-se, protestam, gritam por mudança, mas, quando chega a hora de votar, nada. É que, se votassem, mudávamos mesmo. E antes a morte que tal sorte. Antes sentir o cinto cada vez mais apertado, antes ver as conquistas sociais a serem roubadas uma por uma  e antes deixar o futuro pendurar-se na falta de coragem para dar força à mudança. “Ao menos, estes já conhecemos.” A contra-revolução, ou, como queiram,o suicídio, prossegue, tranquilamente. Como uma anedota de muito mau gosto.

3 comentários:

Anónimo disse...

Uma anedota velhinha, com mais de 40 anos e repetida como se fosse nova... umas vezes com PS, outras com PSD e outras com combinações destes com o CDS. Infelizmente é assim mesmo. excelente texto.

Anónimo disse...

Não gosto da imagem do burro. Fico triste com esta tendência generalizada para bestializar o povo - que não é nova, mas que se vem reciclando, mesmo em meios mais progressistas. O que as pessoas esquecem - sobretudo quem nunca viveu grandes dificuldades, e o meio intelectual público, mesmo de esquerda, continua a ser, com raras excepções, de 'bom berço' (é um fenómeno sociológico, não se limita a Portugal)- é que o povo português experimentou, nos últimos 30 anos melhorias reais na sua vida.Fazendo parte da primeira geração da minha família que teve acesso generalizado ao ensino superior, a casa própria, carro, etc., sei do que estou a falar. O povo não é burro, viu a sua vida melhorar e não quer perder isso. Daí que o poder construa a sua retórica à volta de temas como o sacrifício, que as pessoas que já viveram dificuldades - mas não as outras - compreendem muito bem. O problema continua a ser a falta de politização - problema antigo, eu sei - que afecta quase toda a gente (incluindo os intelectuais, mas esse, por outras razões).

Filipe Tourais disse...

É exactamente por já termos tido que me faz tanta impressão que agora o demos de mão beijada. Se há medo de perder, perder aos bocadinhos, como estamos e vamos continuar a perder, definitivaente que não é a forma mais esclarecida de evitar o retrocesso. Quem quer mudar, quem quer parar este processo, tem que arriscar-se ganhar para não continuar a perder. Ou vai continuar a perder, não tenhamos dúvidas.