terça-feira, 27 de março de 2012

Um roubo certificado

Depois de sustentarem que uma liquidação seria, ainda assim, mais viável do que uma venda a preços de saldo e depois de terem obrigado o BIC a pagar os largos milhões que o Governo queria evitar que pagassem, a comissão Europeia acabou por autorizar a venda do BPN ao BIC por considerar que as alterações à operação negociadas com o Governo português para evitar distorções de concorrência permitirão criar uma nova entidade viável. A preocupação da Comissão resumiu-se, afinal, a convencer cada contribuinte português sobre a viabilidade do negócio. Como se todos nós, inviáveis, não soubéssemos há muito que qualquer roubo consentido tem sempre a sua viabilidade garantida. Somos nós que a garantimos. Com os serviços públicos que vemos a encarecer e a decrescer em quantidade e qualidade, com a carga fiscal que pesa sobre todos nós, com os cortes salariais que são impostos a alguns de nós e, imagine-se, com os votos de quem quer o poder nas mãos de ladrões e com a abstenção de quem não se importa de lhes fazer a vontade. Nestas condições, a consumação de mais este roubo confirma a regra: até voto em contrário, os ladrões têm sempre razão. Usaram-na para nos levarem mais 5.703.000.000,00 euros. Não se esqueçam de agradecer.

1 comentário:

Anónimo disse...

Vivemos no interior do medo. O medo deixou de ser um sentimento comum à condição para se transformar numa ideologia e numa arma política. A Inquisição e Salazar deixaram discípulos. Não conseguimos libertar-nos desta fatalidade histórica porque há quem limite as nossas forças e liquide as nossas esperanças. Por outro lado, aceitamos este fardo como um anátema. Reagimos escassamente mas não continuamos as acções contra a afronta. Ver os noticiários das televisões, ler a Imprensa tornou-se um exercício penoso, que conduz à depressão. Parece que o mundo desabou sobre os pobres portugueses. Tudo se enleia para favorecer o nosso infortúnio. Em nada acreditamos: a falsidade, a omissão, a desvergonha atingiram níveis desusados, e ninguém descortina onde está a mentira, e onde se oculta a verdade do que nos dizem.

As informações são um caudal contraditório; e há declarações tão surpreendentes quanto imponderáveis. Mohamed El-Erian, um desses senhores do mundo, que poucos saberiam quem é, assevera que Portugal vai pedir mais dinheiro e segue, cabisbaixo, o caminho da Grécia. Erian, leio no Diário de Notícias, é o presidente do maior fundo de investimento mundial e não costuma utilizar a metáfora nem o epigrama para falar das coisas. Papandreu, grego, socialista, primeiro-ministro até há bem pouco tempo, também não faz reserva em dizer que está aberta a vereda para seguirmos a passada do seu país.

O papão, o medo viscoso, ondulante, assustador é a Grécia. A Grécia, tal Asmodeu, rei dos demónios, é o crepúsculo como alegoria de todas as tragédias. Afastamo-nos, repugnados e receosos do contágio. Temos tudo a ver com a Grécia, mas nada queremos ter a ver com a Grécia. Os gregos são a doença infecciosa, larvar, perigosíssima. Passos Coelho, quando regressa de viagens, proclama logo, pensativo, austero e formal: com a Grécia, nem tomar café. Julgando, talvez, que esta frase corresponde a um optimismo criador.

Vivemos num confuso e absurdo almofariz de dubiedades. Agora, para rematar estes clássicos do assombro, surge Vítor Gaspar, campeão do humorismo involuntário, e assegura, arfante: "No dia 23 de Setembro de 2013 regressaremos aos mercados." Vinha dos Estados Unidos. E tudo indicava que lhe tinham segredado a extraordinária novidade. Ninguém sabe, nem Gaspar esclarece o mistério de tão prodigioso milagre.

O português comum, que sobrevive asfixiado entre o desemprego, o fisco, a multa, a humilhação, o vexame, a fome, a doença, a miséria, os impostos, as taxas moderadoras, a demolição do amor, o divórcio, a emigração, e outra vez a fome, a doença, a miséria, os impostos, esse português desorientado, desgraçado e triste sem remissão - que pode fazer ele?, que pode? Em cada um de nós reside a resposta sobre o compromisso com a honra e a recusa da servidão e da indignidade.