segunda-feira, 19 de março de 2012

Todos juntos, unidos podemos enganar os mercados: o apelo do especialista

Não sei se pela coincidência de estar agendada para esta semana uma greve geral, nesta Segunda-feira, Portugal acordou ao som de um apelo de união na rádio pública. Parece que, juntos, caladinhos, podemos enganar os mercados e que quem não se cale fica com a responsabilidade de estar a empurrar o país para o lugar onde não deve estar, perto da Grécia.
Em reacção à notícia de que o responsável máximo do maior fundo de especulação do mundo – o senhor chama-lhe “fundo de investimento” –, que tem uma credibilidade e merece um respeitinho medidos pela quantia que movimenta anualmente, equivalente a dez vezes o PIB português, ter dito que Portugal é a nova Grécia e que vai mesmo necessitar de um segundo resgate, ouviu-se isto:
“É importante dizer que estas críticas vem do exterior, são observações, são análises que têm que ser tidas em conta, são credíveis, fazem sentido, mas vêm do exterior. O que já não faz muito sentido é a insistência nacional em colocar este assunto em cima da mesa (a possibilidade de Portugal pedir um novo resgate, ou seja, a possibilidade de Portugal não regressar aos mercados no tempo que está previsto). Isso já se sabe, digamos que é algo assumido, algo interiorizado desde o início deste plano de «ajuda» [na altura, dizia o contrário]. Uma das principais críticas que foi feita logo na altura era exactamente esta: o prazo é demasiado curto, Portugal não vai regressar ao mercado no momento ou na meta fixada. Portanto, digamos que isto é uma coisa que já se sabe, já se sabia logo desde início, agora, aparentemente, confirma-se, e, salvo se houver alterações importantes na conjuntura internacional, Portugal, de facto, não vai regressar ao mercado no momento em que estava previsto, no meio do próximo ano, por volta de Setembro do próximo ano. Isto já se sabe. Não vale a pena que os analistas portugueses, os partidos políticos em Portugal, etc., coloquem permanentemente esta questão em cima da mesa. Por quê? Porque há questões que não devem ser colocadas desta forma: se Portugal estiver insistentemente, ou algumas forças políticas, alguns analistas, comentadores em Portugal, permanentemente a dizer que Portugal vai precisar de um novo pacote de ajuda, estamos a empurrar Portugal para o lugar onde não deve estar, que é perto da Grécia. (continua)”
Em bom rigor, isto de economia não tem absolutamente nada. É missa. Ficamos apenas a saber como se chega a editor de economia naquela rádio que expulsa bons jornalistas apenas por exporem verdades incómodas mas mantém estes especialistas da domesticação e da angariação de apoios junto desse recurso abundante do país chamado ignorância. Serviço público, logo, serviço mau, logo, serviço a privatizar. Se apenas servisse para proporcionar boas vidas a estes Faustos Coutinhos, também eu seria a favor da privatização da televisão e da rádio pública. Mas pode servir para difundir conhecimento, Cultura, para combater a ignorância. E há por aí – na RTP também – tanta gente com imensa qualidade que pode ser chamada e não o é por razões estritamente políticas. E por haver Faustos Coutinhos a ocuparem-lhes o lugar.