quarta-feira, 21 de março de 2012

Tentaram roubar-nos outra vez

O BIC Portugal anunciou que aceita utilizar a linha de crédito da CGD, de 300 milhões de euros avalizada pelo Estado no âmbito da privatização do BPN nas condições exigidas pela Direcção-Geral da Concorrência (DGC) da União Europeia. Ou seja, pagar um spread de 3 por cento. Afinal, não foi uma decisão tão difícil assim e o negócio não perdeu interesse. Mas há conclusões a retirar, como tinha escrito aqui. Há um spread de 3 por cento que quem se sentou à mesa das negociações em representação do interesse público, o Governo, não quis cobrar ao grupo do ex-ministro de Cavaco Mira Amaral, do mais rico de Portugal Américo Amorim e da filha do cleptocrata e ditador angolano José Eduardo dos Santos. Será agora importante perceber o porquê do favor e a troco de quê o Governo ofereceu de bandeja tantos milhões ao BIC Portugal. Objectiva e inequivocamente, tentaram roubar-nos outra vez.  Exigem-se explicações.

  • Vagamente relacionado: a Comissão Europeia questiona a operação de reprivatização do BPN e admite que a venda ao BIC pode sair mais cara do que a liquidação. Numa investigação preliminar, Bruxelas garante que «é incontestável» que a venda é feita a um valor negativo «e que terá havido» um auxílio do próprio BIC e «os custos de venda, incluindo a recapitalização actualmente estimada em 535 milhões de euros, excedem em muito o preço de venda de 40 milhões». Quer isto dizer que Bruxelas deverá avaliar «se o Estado teria de suportar despesas mais elevadas em caso de liquidação». Ou se deixar «cair» o banco poderia sair mais barato. A Comissão diz mesmo que «tem sérias dúvidas relativamente a vários aspectos da comparação quantitativa entre os dois cenários» e interroga-se sobre o facto de «o auxílio se ter limitado ao mínimo, na medida em que, num cenário de liquidação ordenada do banco, o Estado português poderia ter injectado menos recursos públicos», lê-se no texto, publicado no Jornal Oficial da União Europeia.

1 comentário:

Ana Sá Lopes no I disse...

Quando o primeiro-ministro impôs ao país o desígnio moral para o biénio 2011-2013 – o famoso “vamos empobrecer!” –, contou com a histórica placidez dos portugueses. É verdade que, num primeiro momento, avisou o povo sobre a possibilidade de alguns “tumultos”. Mas os “tumultos” não chegaram: afinal, um povo que nem há uma geração tinha começado a sair da pobreza terceiro-mundista e correspondente nível de analfabetismo estava razoavelmente habituado.

Talvez seja esta uma das explicações para aquilo a que o regime chama “o extraordinário consenso e harmonia social” (António Borges dixit) com que estão a ser recebidos os cortes de salários, o desemprego galopante e a falência diária de empresas.

Quando foi lançado, o mantra “vamos empobrecer” apareceu, assim, como uma espécie de oração colectiva, um cântico que nos juntaria a todos nós, portugueses, na expiação dos nossos pecados nacionais (os gastos dos anteriores governos, a utilização popular de cartões de crédito e o recurso a empréstimos bancários, etc.). Afinal, o culto da pobreza como virtude não foi um exclusivo do catolicismo fundador – também existe na ética republicana, espraiou-se no regime salazarista e chegou aos nossos dias através do prof. Cavaco, que adorava ser conhecido “como o filho do senhor Teodoro da bomba de gasolina”, embora neste caso a história tenha sido revista alguns anos depois.

No momento da sua ascensão ao poder, a juventude de Pedro Passos Coelho contou com um aliado substancial e, de certa forma, inesperado. Era Eduardo Catroga, ex-ministro dos governos Cavaco, que gozava merecidamente do epíteto “cavaquista” – uma coisa que, na época, dava jeito a um futuro primeiro-ministro inexperiente. Foi o tempo em que “os cabelos brancos” de Catroga surgiam, em si, como um valor inestimável. Catroga, de repente, aparecia como pau para toda a obra: lá iam os “cabelos brancos” de Catroga negociar o Orçamento, lá voavam os “cabelos brancos” de Catroga para discutir com a troika, lá cruzavam a sede do PSD para fazer o programa do governo, etc., etc... Catroga era omnipresente, omnipotente e à prova de fogo e de linguagem popularucha.

Catroga não quis ser ministro das Finanças – o lugar de chairman da EDP era, de longe, mais apetecível. Aí ninguém iria empobrecer nem ter grandes aborrecimentos. Quando Catroga vem agora defender a EDP contra a medida da troika (que negociou) e do programa do governo (que ele próprio fez), vem mostrar de que massa informe se faz o poder em Portugal. Esta reforma a troika não pediu e, aparentemente, o governo também não a deseja.