sábado, 31 de março de 2012

Eles falam de uma tal "responsabilidade social"

A Associação Portuguesa de Deficientes acusa o Governo de “condenar milhares de cidadãos” a não poderem ter uma vida activa e produtiva, ao ter cortado em mais de 30% (quase quatro milhões de euros) o valor do financiamento em 2012 para ajudas técnicas. Para o presidente da APD, esta redução no valor atribuído para a concessão de ajudas técnicas “é intolerável do ponto de vista social”. “Significa condenar milhares de cidadãos a não poderem deslocar-se, ouvir, ler, em resumo, ter uma vida activa e produtiva, porque não vão ter acesso, por exemplo, a cadeiras de rodas, próteses auditivas ou software de leitura”, diz a APD.
Para quem não saiba, um software de leitura, que verbaliza o que aparece no ecrã de um computador e, dessa forma, o torna acessível a deficientes visuais, custa entre 750 e 2000 euros, os aparelhos auditivos chegam a custar 4 e 5 mil euros e uma cadeira de rodas eléctrica tem um intervalo de preço que vai dos 1500 até aos 6000 euros. Não estão ao alcance de qualquer bolsa.
 Os Governos Sócrates reduziram drasticamente os benefícios fiscais que são concedidos aos portadores de deficiências como forma de minimizar despesas do dia a dia decorrentes de cada incapacidade, que a maioria dos cidadãos não tem que suportar (por exemplo, acabei de dar-me conta que uma prótese auditiva consome 1 euro em pilhas diariamente). O Governo Passos Coelho, para além de reduzir drasticamente o financiamento das ajudas técnicas que são imprescindíveis para minimizar as dificuldades diárias que enfrentam estas populações, fez o mesmo ao ensino especial, que o seu antecessor já havia reduzido. Ambos apontam aos deficientes portugueses o cantinho mais escondido da casa, onde devem permanecer para não incomodar. Era assim há 100 anos, quando as sociedades não se envergonhavam de não lhes assegurar o direito à integração social e profissional.
A integração dos cidadãos portadores de deficiências não é uma questão que passe pela compaixão que os ofende na sua dignidade. É uma questão que tem que ser vista como um direito dos mais elementares. Depois do empurrão dado por Sócrates, vem agora Passos Coelho empurrá-los para os braços das almas caridosas que se promovem à custa da sua exposição à humilhação de terem que pedir, angariando os financiamentos que são um dever do Estado. É para isto que servem os impostos, não para pagar BPNs ou permitir a oferta do correspondente ao financiamento destas ajudas técnicas durante mais de 50 anos em dividendos à empresa que não era dona da EDP em 2011 e vai recebê-los como se fosse.

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