sexta-feira, 9 de março de 2012

Portugal não é a Espanha

Se não apreciava o anterior Governo espanhol em quase nada, menos ainda aprecio o actual, pertencente a uma direita que se distingue da esquerda prostituída a que pertencia o antecessor, tanto na praxis política, bastante mais trauliteira, como ainda pelas fortes ligações que inegavelmente mantém com figuras gratas do franquismo, por sua vez ligadas ao narcotráfico e outras actividades mafiosas. Porém, sem esquecer a preciosa ajuda que lhes prestaram os espanhóis que se manifestaram nas ruas com o arreganho que o momento exigia, tenho que reconhecer-lhes o gesto de não terem perdido - ou, se quiserem, terem recuperado - o sentido crítico em relação ao que é mais conveniente para Espanha. O Governo espanhol bateu o pé a Bruxelas e ao bicéfalo Merkosi assim que viu encurtada a margem política para ceder ao que se lhes exigia, que faria de Espanha mais um exemplo de colónia franco-alemã a elogiar por se ter deixado conduzir obedientemente até à beira do abismo, ao beco sem saída onde deixa de haver qualquer poder negocial. Patriotismo não é rastejar, como apregoam aos sete ventos do lado de cá da fronteira Governo e imprensa encartada. E Portugal não é a Espanha, é verdade. É pena. Juntando-nos a Espanha, Grécia e Irlanda na exigência do que melhor nos serve dar-nos-ia outro poder negocial que sozinhos não temos.


O texto abaixo é uma tradução da parte final de um artigo do El País que chegou até mim através do Nuno Miranda, pelo Facebook. É também um exemplo de imprensa que rareia do lado mais obediente da Ibéria.


«(…) O actual Governo português pretende ser um bom aluno da senhora Merkel e mantém excelentes relações com a troika, com a sua política de austeridade a todo o custo, está a impor cortes assassinos que afectam uma parte muito considerável da sua população. O mal-estar social, o descontentamento profundo, a criminalidade e a economia paralela são o que temos visto crescer mais nos últimos meses.


Mariano Rajoy, calado na última semana, não falou de forma crítica durante a Cimeira de Bruxelas. Porém, no dia seguinte, anunciou inesperadamente que Espanha irá aumentar o seu déficit orçamental de 4,4 para 5,8 por cento, para não provocar mais perigosas manifestações de descontentamento popular. Bruxelas e a Chanceler Merkel ficaram furiosos, afirmando que tal medida, contrária aos desejos de Bruxelas, representava um grande descrédito para Espanha.


O líder da oposição espanhola, Alfredo Pérez Rubalcaba, com lucidez e bom senso, pelo contrário, disse que Espanha vai no bom caminho. É o que também me parece. As opções políticas de austeridade, por si só, são contraproducentes, como demonstra a evolução dos últimos meses, tanto na Grécia como em Portugal, quer ainda em outros países como Itália e França. Fazem aumentar a recessão, que o desemprego cresça até extremos inaceitáveis, que se desenvolva a economia paralela e que se crie um profundo mal-estar no tecido social. Por outras palavras, por si sós não resolvem nada, como o demonstram os exemplos dos países que as aplicam, que vão de mal a pior.


Os governantes e a oposição, que assim pensam, tanto em Espanha como em Portugal, devem juntar-se e levantar a voz contra este estado de coisas. Seria um grande serviço ao Ocidente, antes que a União se veja empurrada para o abismo, como já advertiram Helmut Kohl e Helmut Schmidt.» – “Solidariedade Ibérica”, no EL país (tradução da casa).

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