quarta-feira, 7 de março de 2012

A pedagogia do roubo

Governo abre excepção para a TAP e autoriza a empresa a manter salários”, lê-se um pouco por toda a imprensa. Um título muito estranho. Manter salários era, até há bem pouco tempo, uma questão da mais elementar Justiça. Assim manda a Constituição da República Portuguesa e respeitá-la é – continua a ser – obrigação de qualquer Governo, ainda que o Presidente da República ande entretido com outros afazeres que não o de respeitar escrupulosamente o juramento que fez de zelar pelo seu cumprimento. É na CRP que vêm definidos os poderes dos Governos, quaisquer que eles sejam, e entre esses poderes não está a liberdade de respeitar a Constituição apenas quando querem e bem lhes apetece. O título acima é uma flagrante evidência da colaboração que a imprensa tem prestado ao Estado de ilegalidade e à usurpação de poderes a que assistimos todos os dias. Em bom rigor, a notícia seria “Governo respeita os direitos salariais dos trabalhadores da TAP” ou “Governo decide respeitar a CRP a título excepcional”, porque foi isto que realmente aconteceu à luz da nossa Lei Fundamental.


Da mesma forma, o que deveria ler-se era “Em vez de um roubo entre 3,5 e 10%, como aconteceu no assalto aos trabalhadores da Administração Pública e das empresas do Estado desde 2011, a companhia de aviação roubou os vencimentos de Janeiro e Fevereiro entre 1,75 e 5%.” E não o que se lê: “Em vez de um emagrecimento entre 3,5 e 10%, como foi imposto à função pública e às empresas do Estado desde 2011, a companhia de aviação cortou os vencimentos de Janeiro e Fevereiro entre 1,75 e 5%.”.


Há ainda quem escreva sobre a obrigatoriedade de uma “poupança equivalente” ao roubo excepcionado e noticie a intransigência do Governo na manutenção de outro roubo, o dos subsídios de férias e de Natal, a título de prémio de consolação para os adeptos mais ferrenhos da roubalheira, que ficaram com os cabelos em pé ao saberem que o assalto não foi geral: “ou roubam toda a gente ou não roubam ninguém”.


Estranha cidadania, esta. Passar os olhos pelas caixas de comentários das notícias linckadas acima provoca uma náusea constante. Destaco esta pérola: “O Governo abre excepções para os que mais ganham?!!!... Então prepare-se para abrir mais excepções, agora com esse dever: a professores, juizes, médicos, etc., etc... É inacreditável o sentido de justiça e a pedagogia dos actuais políticos!...” Pois, pois. A pedagogia do roubo mandaria que fossem ainda mais ladrões.

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