quinta-feira, 29 de março de 2012

Matar a Escola Pública para salvar o polvo?

Cerca de 500 pessoas, das quais quase metade são arquitectos, subscreveram um manifesto, enviado quarta-feira à Assembleia da República, em defesa da continuidade do programa de renovação das escolas do ensino secundário. Entre os signatários estão nove dos 16 arquitectos com mais contratos adjudicados pela Parque Escolar, pelo que é com naturalidade que a tese defendida recuse que o aumento do custo das obras realizadas nas escolas tenha sido consequência de um "descontrolo orçamental ou de pretensos devaneios de ostentação e luxo" e procure defender que "o aumento do custo deveu-se ao acréscimo de área e a uma maior complexidade técnica da construção, unicamente resultantes de novas disposições legais e regulamentares".
Ora, é na guerra entre oportunistas a que nos leva o radicalismo deste “unicamente” que reside o cerne desta questão: é verdade que há acréscimos de custos associados a imposições e a novos requisitos legais que surgiram já com o projecto em curso, mas também o é que há outros requisitos legais, mais concretamente, respeitantes a contratações, aquisições e adjudicações, cujo desrespeito desviou o caudal de milhões de um projecto que, pela sua reconhecida utilidade, não deve ser abandonado, para outro projecto, a cheirar a máfia, que há que parar imediatamente.
E há que separar bem as águas, não volte o diabo a fazer das suas. Neste momento, está a aproveitar a situação para trabalhar para que a culpa morra outra vez solteira, para que ninguém seja responsabilizado pelos milhões que deu a ganhar à margem da lei, para que ninguém devolva as fortunas que recebeu à margem da lei e para parar o projecto. Ficará tudo na mesma se esta história terminar com a simples interrupção do projecto inicial de devolução de dignidade a escolas muito degradadas e da sua transformação em espaços com condições para ensinar e aprender. Tudo na mesma, mal, em escolas a pedir melhores dias. E tudo na mesma, uma maravilha, nos cada vez melhores dias destes enriquecimentos acima das nossas possibilidades. Assassinar o ensino público de qualidade não nos livra de continuar a ver o polvo a passear por aí, mesmo depois do funeral da escola pública que andam a preparar.

1 comentário:

Anónimo disse...

Matar a Escola Pública, matar o SNS para salvar o polvo, realmente, é óptimo para o polvo mas é péssimo negócio para todos nós. Anda para aí muita gente a deixar-se convencer que se matarmos os serviços públicos matamos o polvo na mesma cajadada. A EDP, a Galp, a PT e tantos outros exemplos mostram que não.