domingo, 25 de março de 2012

Lições gregas

Os gregos ensinaram-nos como se faz um buraco. Estão no fundo do seu, cerca de um ano mais profundo do que o nosso, numa situação a que, apesar da violência dos seus protestos,  se deixaram chegar e em que já não têm quase nada a perder. Todos deram o seu contributo, quer votando, quer abstendo-se, para aquilo que, apesar de toda a instabilidade que apenas é possível gerar com um desequilíbrio de forças da mesma dimensão, a troika, partidos “do arco” grego e imprensa chamam “de equilíbrio” e “estabilidade”. Depois dos islandeses, os gregos, e logo os gregos, o povo europeu que mais desconfia da sua classe política, parecem agora apostados em mostrar-nos como sair do buraco. E fazem-no precisamente através de um reequilíbrio de forças a seu favor, que está a deixar aterrorizados aqueles que beneficiaram do anterior, actual, desequilíbrio para, com toda a liberdade, gerirem a instabilidade mais conveniente para os interesses por si representados.
Assim, o PASOK, o PS grego, que venceu as eleições de 2009 com 40 por cento dos votos e esteve no Governo em 20 dos últimos 30 anos, está em adiantado processo de desintegração e aparece, quando muito, com pouco mais de 10% das intenções de voto e a afundar em todas as sondagens. Ainda à direita, também a descer, embora não tão abruptamente, a Nova Democracia, uma espécie de PSD grego, surge com 30 % das intenções de voto. Para obterem a ambicionada maioria parlamentar, com o seus cerca de 40%, os dois principais responsáveis pelo desastre que resultou da submissão grega à intervenção externa terão que aliar-se à extrema-direita, para onde estarão a fugir votos, quer para o LAOS, quer mesmo para os ultra-radicais do Chryssi Avghi, com possibilidades de entrar pela primeira vez no Parlamento.
Mas é à esquerda que os gregos estão a procurar aquela luzinha ao fundo do túnel capaz de reequilibrar o rumo dos acontecimentos a seu favor. O movimento Esquerda Democrática, criado em 2009 por Fotis Kouvelis, conta com vários "desertores" do PASOK nas suas fileiras e identifica-se como um partido de esquerda que é também pró-europeu. Nas sondagens, tem aparecido sistematicamente à frente do PASOK, aproximando-se dos 20% dos votos. Mais à esquerda, a coligação Syriza, uma espécie Bloco de esquerda grego, tem vindo a conquistar cada vez mais espaço com a sua forte contestação ao acordo feito com a troika e consegue, em quase igualdade com o histórico Partido Comunista, mais de 10% dos votos. Tal como acontece à direita, os cerca de 40 por cento de votos obtidos conjuntamente por estas três forças partidárias alter austeridade necessitam de um aliado para somarem uma maioria. Será ele o Pacto Social, outro partido novo nascido de dissidências do PASOK, que parece bem lançado para obter uma votação que lhe garanta representação parlamentar.

2 comentários:

Maquiavel disse...

O "Pacto Social" ainda nem aparece nas sondagens, meu caro:
http://en.wikipedia.org/wiki/Next_Greek_legislative_election
A näo ser que estejam metidos nos "Outros" (5%).

Quem aparece säo os Verdes Ecologistas!!!

A extrema-direita (LAOS e XA) andam ela por ela nos 3-4%. Se tudo correr bem ficam as duas de fora do Parlamento... ou entäo teremos lá neofascistas e neonazis!!!

Filipe Tourais disse...

Pois, mas também não lê em lado nenhum que aparecem nas sondagens.