domingo, 4 de março de 2012

Krugman e a guerra de percepções que deixou atrás de si

“Então não escreve nada no Burro sobre aquilo que disse o Krugman quanto a termos que baixar salários em Portugal?” A pergunta foi-me colocada por várias pessoas. Está bem, vamos a isso.


Ao longo de toda a semana que ontem terminou, o tema inflamou uma esquerda onde pude constatar, não sei por quê, uma certa sensação de traição. E Krugman não é de esquerda. À direita, as reacções dividiram-se entre a cautela e a euforia triunfal: “estão a ver como tínhamos razão?”. As palavras de Krugman tiveram o mérito de deixar à vista um lado da direita que se limita ao papel de claque do clube laranja. Talvez nem direita sejam.


Quanto ao que disse, em primeiro lugar, convirá circunscrever a baixa de salários ao objectivo do equilíbrio das contas externas. Foi desta forma e neste âmbito que Krugman disse o que disse. Aritmeticamente, está absolutamente correcto: as contas externas tanto podem equilibrar-se aumentando as exportações como reduzindo as importações. Por sua vez, esta última pode fazer-se reduzindo o poder aquisitivo de quem compra. E aqui entra o que também disse, que foi convenientemente desvalorizado, quanto à austeridade que desaconselha para Portugal. É que à evidência aritmética sobrepõe-se uma outra, a de que uma redução do poder aquisitivo de quem compra não provocaria apenas uma redução das importações, reduziria também o consumo de produções nacionais. E escrevi “reduziria” quando, em bom rigor, deveria ter escrito “reduziria ainda mais”, porque é o que está realmente a acontecer, com os efeitos sobejamente conhecidos de todos sobre, entre outros, a redução do produto, sobre o nível de actividade na economia e sobre o desemprego galopante que semeia fome e miséria por todo o país. A política que vem sendo seguida em Portugal, aliás, em toda a Europa, sobretudo nestes últimos anos, tem sido conduzida pelos trilhos da redução salarial.


Há alternativas? Claro que há. Há sempre. Umas ainda mais à direita, outras verdadeiramente à esquerda. Por exemplo, pôr em prática um projecto Malthusiano, fixar o salário de toda a gente no limiar da sobrevivência e negligenciar todos os efeitos perversos que tal escolha, sem dúvidas, teria sobre a economia e, mais grave ainda, sobre a nossa civilização. Para lá caminhamos, mas não é para constatá-lo e muito menos para defendê-lo que a aponto.


Faço-o para provocar um “isso não pode ser”. Não queria deixar de fora destas linhas um aspecto que considero essencial em toda esta questão: o condicionamento, mais ou menos inconsciente, que sempre se viu presente, e também à esquerda, em quase todas as reacções que se tornaram visíveis ao longo destes dias que se seguiram às declarações de Krugman. O debate decorreu quase sempre nas margens das inevitabilidades que objectivamente condicionam de forma muito marcada a percepção geral do que “pode ser” e do que “não pode ser”.


Regressando à questão do equilíbrio das contas externas, é reparar como ela se coloca apesar do que se diz sobre um mundo globalizado a que pertencemos todos nós, bafejados pela lisonja da elevação à condição de cidadãos do mundo, e onde deve produzir-se sem outros constrangimentos que não o das vantagens que cada região oferece a quem aí decida investir: a ser assim, apenas faria sentido ter contas externas com outros planetas. Ou então não será, como não é, indiferente produzir aqui ou ali e os nossos governantes, nacionais e europeus, andam a conduzir políticas que favorecem produções ali e não aqui. Reparar também que as nossas contas externas poderiam também equilibrar-se protegendo as nossas produções com uma pauta aduaneira que penalizasse produções obtidas a um custo mais baixo através do desrespeito de direitos humanos e das regras ambientais mais básicas. Ou através da subsidiação de produções que pudessem viabilizar-se no futuro em economias mais atrasadas como a nossa. Ou através de uma valorização dos salários em países da UE que, porque os seus salários também se desvalorizaram, deixaram de importar as nossas exportações. Há que reequilibrar a repartição do rendimento, devolver o peso que os salários tinham quando a economia crescia e as políticas se desenvolviam com o objectivo de proporcionar uma melhoria de vida às pessoas. Economia não é o contrário de pessoas, como o comprovam esses tempos de felicidade.


Mas há um espartilho condicionador a produzir um “não pode ser” no cérebro de cada um que afasta colocar sequer a questão. Há sempre um "isso seria um regresso ao passado", "isso são ideias demasiado radicais", "isso é utópico", "isso é ser irrealista/irresponsável", um "não pode ser" para cada proposta que tente romper o espartilho. E pode ser, ou melhor, pode voltar a ser. Antes, porém, para que “possa ser”, primeiro, há que querê-lo, depois, há que exigi-lo e, finalmente, há que saber usar os instrumentos que a democracia coloca à disposição dos cidadãos e, sem medo, escolher o melhor caminho. Afastando o espartilho, há que perceber que o melhor caminho para os cidadãos não coincide com o caminho que mais convém ao sector financeiro, a mercados antropomorfizados e a outros enriquecimentos obtidos à sua (nossa) custa e que (n)os têm reféns. Eles é que dizem que “não pode ser”. Estão no seu papel. Os cidadãos não estão no seu. E o poder dos primeiros depende da vontade dos segundos. Ainda depende…

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito. É pena é não dar para partilhar no facebook....

Filipe Tourais disse...

Obrigado. Não sei o que se passa. Há pouco não dava, é verdade, mas agora já dá.

Filipe Tourais disse...

Obrigado. Não sei o que se passa. Há pouco não dava, é verdade, mas agora já dá.