quinta-feira, 22 de março de 2012

Abaixo a inconsequência

Vivemos tempos em que, todos os dias, as notícias fazem-nos sentir empurrados para trás numa viagem em sentido contrário ao das conquistas sociais que engrandeceram a dimensão humana da nossa sociedade e poderiam ter-nos tornado a todos cidadãos conscientes do nosso papel nessa construção social. Vivemos tempos em que periodicamente protestamos através de greves e de outras manifestações com impactos com um alcance demasiadamente curto sobre a mudança que queremos e sobre o trajecto de evolução social que exigimos seja retomado para que nos seja devolvida a sociedade que já tivemos e nos vemos a perder a cada dia que passa. Que me lembre, desde que tenho um emprego, sempre fiz greve.
Hoje, porém, constato que, nem apesar de tudo o que já nos levaram e do muito mais que se preparam para nos levar, muitos daqueles que protestam e, como eu, não falham uma greve, continuam a ter orgulho em pertencer a uma maioria com hábitos de traição ao ideal da mudança que sempre repetem quando a democracia nos dá a oportunidade de elegermos quem de confiança poderia operá-la. Nos dias em que tudo poderia realmente mudar,invariavelmente, aconteça o que acontecer, voltam a cara à luta. A mudança não pode contar com eles. 
Ora, por mais voltas que se dêem à questão, de nada servem mil greves e outros tantos protestos se no dia das eleições a greve também for geral. Sê-lo-ia novamente se houvesse eleições no próximo fim-de-semana. Nada mudaria para melhor. O pder manter-se-ia nas mesmas mãos. Seria outra oportunidade perdida. E, na semana a seguir, mais chinfrineira. Sedativos para governantes cujo poder depende de votos e não de décibeis, logo, para os quais quem não vota não conta, ainda que faça muito barulho. 
Por tudo isto, porque me recuso a  contribuir para a mesmança, porque protestar apenas faz sentido enquanto contributo para a mudança, hoje, não faço greve. Protesto. Abaixo o folclore e a inconsequência.

6 comentários:

alexandra disse...

A meu ver, greve ou não, o problema é a roda do moinho, que tudo esmaga e essa pesada roda não devería seguir no seu accionamento, cada vez mais viciado e desvergonhado no que a sensibilidade social se refere. Tenho as minhas reticências respeito à greve, como as tenho respeito à própria dinâmica sindical, tão quente ou tão fria, tão próxima ou tão alheia...mas não discordo do fazer uso da greve em manifestação do mal-estar, que penso devía ultrapassar-se do dia em si (e aqui digo também "abaixo o folclore e a inconsequência").
Aqui vai um trabalho interessante, uma curta-metragem sobre trabalhador@s que se dedicam a deixar na estacada a outr@s trabalhador@s:

http://info.nodo50.org/Pecera-un-cortometraje-sobre-la.html

Anónimo disse...

Mas há que afirmar a greve. É absolutamente preciso afirmar a greve, é a única arma. Ataques tao brutais a direitos acadados tras miles de mortes e persecuiçaos é o mínimo preciso para tao sequer pensar em coisa outra qualquer. Há luta todos os dias, e tambêm alguns dias greve geral. Se nao lutam a diário, nem vao à greve, pois abandoem-se à molìcie, entao. E se fazem unha, façam outra, pá

Bernardo Bombaim disse...

Como já disseram a greve é a única arma e o problema é que este governo está empenhado em desmobilizar todos recorrendo ao medo e à intimidação policial assutando os portugueses com telejornais abertos com cenas lamentáveis! Mas os portugueses não se podem calar! NUNCA!

João Silva disse...

Bom dia Filipe Tourais. Há muito tempo que sigo este blogue e costumo estar de acordo com a maior parte do que nele é apresentado. Nunca tive nele qualquer intervenção porque, precisamente, dou o meu acordo a quase tudo o que é dito. Não resisto, por isso, a colocar um comentário a este post que me parece de desistência e motivado por algum cansaço. Fico, por isso, muito triste com este post.
Cumprimentos,
João Silva

Filipe Tourais disse...

De cansaço, admito que sim, de desistência, não. As greves teriam muito mais impacto se quem as faz também exprimisse o seu protesto nas sondagens eleitorais e no próprio dia das eleições. Este post foi um protesto contra uma alergia à política que se passeia por aí com uma vaidade desmedida. Cansa-me ver que não se cansam e não vêem que um poder que se adquire com votos não muda a sua forma de actuar com gritos. Seria óptimo que aumentasse a intolerância à inconsequência de quem diz querer a mudança mas que não faz tudo o que está ao seu alcance para fazê-la acontecer. Também me entristece, não pense que não.

Anónimo disse...

se, se, se... uma vez entrado no blog, acrescento; anonimamente acrescento. Desejo disfrutedes coa cópia:
ONGI ETORRI

Manifiesto personal ante un día de huelga
Apuesto decididamente por esta huelga, el ambiente social es propicio, el malestar existe y tiene ganas de expresarse.
Celebro la coincidencia, por fin, de una convocatoria en fecha única, aunque las diferencias de planteamientos sigan existiendo.


Echo en falta un calendario de movilizaciones posteriores. Si la huelga tiene por objetivo revertir una situación, la movilización debe continuar hasta conseguirlo. Estoy decepcionado de convocatorias anteriores que quedaron en actuaciones aisladas, en foto de un día, más propias de la defensa de los respectivos espacios sindicales que de un afrontamiento serio de la situación.

Con todo, insisto en que debemos apostar con fuerza por esta huelga, porque la búsqueda de continuidad requiere un inicio.

Entiendo que la Reforma Laboral, con ser gravísima, no puede quedar como objetivo único de esta huelga, cuando padecemos unas políticas nefastas, sometidas a un capitalismo especulativo dispuesto a arrasar con toda garantía social y condición de vida. El problema es la desigualdad creciente, la acumulación de riqueza y la consiguiente acumulación de miseria, que matan la dignidad y hacen imposible una vida mínimamente satisfactoria.

Creo que vivimos una situación negra. Tal y como van las cosas, la sociedad futura y la vida de nuestros hijos y nietas, será mucho peor que la actual. Lo único que puede aportar alguna solución es avanzar hacia un mejor reparto, que cubra primero las necesidades básicas de todas y todos. Esta huelga general tiene que ser un grito por la exigencia del reparto desde nuestra voluntad de repartir.

Por ello, quiero una huelga general laboral y social, en la que puedan aflorar todos los malestares y participar todos los sectores de la sociedad.

Por último, grito: “¡O les paramos o nos asfixian!” y animo a hacer la huelga y a salir a la calle. No se trata solo de secundar una convocatoria, necesitamos protagonizar nuestra propia movilización de la que esta huelga puede, y debe, ser el inicio.

Si suscribieras este manifiesto y buscaras cómo defenderlo, para el día 29 de marzo existe una iniciativa plural y anónima en la que te podrás participar cómodamente. A las 7h, en la Plaza del Castillo, será el inicio de una larga y combativa jornada, ¿nos vemos?.

Colectivo Malatextos, 23-03-12