quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um recado para a Grécia, outro para uns papagaios

Ao mesmo tempo que, por cá, uma matilha de comentadores e jornalistas amestrados vai embalando a opinião pública repetindo a versão oficial do “Portugal não é a Grécia” e “isto está a correr bem”, citando incansavelmente os elogios mais do que naturais de um poder franco-alemão que se regozija ao ver um povo inteiro subjugado a trabalhar para os seus interesses e a vergar diante das suas exigências, num artigo publicado no The New York Times, Landon Thomas, correspondente deste órgão de comunicação na área dos assuntos financeiros, defende que a Grécia deveria estar atenta ao exemplo do nosso país que, apesar de ter feito tudo o que a troika exigiu, está a “afundar-se cada vez mais no buraco”. Segundo o artigo, tal não acontece “necessariamente porque a dívida de Portugal está a crescer, mas porque a sua economia está a encolher”. “Sem crescimento, a redução da dívida torna-se quase impossível”, defende Landon Thomas, citando ainda David Bencek, analista do Instituto Kiel para a Economia Mundial, que alerta para o facto de a economia real portuguesa não ter “a estrutura para crescer no futuro”, não sendo, portanto, o país “capaz de pagar a sua dívida a longo prazo". Perante os mais recentes protestos organizados em Portugal, entre os quais a manifestação de 11 de Fevereiro, uma das maiores de sempre e, ainda assim, com um destaque mediático reduzidíssimo, Landon Thomas alerta que os portugueses estão a perder a paciência. A propaganda trabalha para transmitir a ideia do contrário. O artigo pode ser lido aqui.

3 comentários:

Anónimo disse...

Nós não temos uma situação parecida com a da Grécia», assegura Passos Coelho. O importante é evitar os «efeitos de contágio nefastos», adverte Luís Montenegro. «Portugal não é a Grécia», sentencia Paulo Portas, sacudindo a peçonha. «Ninguém faz comparações entre Portugal e a Grécia», diz Miguel Relvas, em meio tom de intimação.

E enquanto as preces são cerzidas umas às outras, para que em uníssono formem uma oração mais poderosa, alguém tenta sondar mais de perto as divindades, para que, caso o exorcismo falhe (não vá o diabo tecê-las), se garanta alguma ajuda lá do alto. A ladaínha, seja como for, não deve parar: «Portugal não é a Grécia, Portugal não é a Grécia, Portugal não é a Grécia».

É no meio deste pânico, em que se crê poder esconjurar o naufrágio renegando o passageiro mais exposto, que alguém com a decência e a lucidez que se impõem lembra o facto de, apesar das diferenças, todos se encontrarem no mesmo barco. De passagem por Lisboa, a ministra irlandesa dos Assuntos Europeus, Lucinda Creighton, sublinha que «seria errado tentarmos demarcar-nos da Grécia ou de outro país que esteja a atravessar dificuldades», invocando assim um dever de solidariedade que decorre, desde logo, da circunstância de os três países estarem nas melhores condições para demonstrar uma «grande compreensão em relação às dificuldades que enfrentam».

E quanto à possibilidade de saída da Grécia da Zona Euro, Creighton é lapidar: «não podemos tolerar essa eventualidade. (...) Temos de ser solidários com a Grécia e mantê-la no euro. Não há alternativa.» À dignidade e sensatez de uma ministra «cautelosamente confiante» contrapõe-se pois o fanatismo medroso dos que se orgulham, irresponsavelmente, de desbravar os mares que ficam «para além da troika». (Ladrões de Bicicletas)

Anónimo disse...

(...) O que agora nos vão dizer
À medida que estimativas repetidamente revistas vão sendo repetidamente desmentidas pela realidade ou pela própria instituição que as formulou, torna-se necessário formular explicações para erros tão imensos e persistentes. E o MI tem essas explicações. Elas são de três tipos: as falsas, as exógenas e as absurdas.
(...) Assim se processa o único milagre a que estamos verdadeiramente a assistir: o milagre do avanço de uma política permanentemente desmentida pelos factos, só possível com doses massivas de desinformação e com a criação de todo o tipo de distrações, como as que procuram virar a indignação contra a democracia ou contra grupos sociais específicos. Vamos ver mais disso nos próximos tempos. Uma política sempre em pé. Resistente a todos os embates?
E, no entanto, ela resulta
Há no fundo uma razão para que a austeridade continue a ser o grande consenso nacional. Na realidade, a austeridade resulta. Não obviamente nos objetivos que os seus proponentes invocam, mas naquilo que a política da austeridade efetivamente visa atingir.
E assim, os erros do FMI não são erros, a recessão económica não é um falhanço, o aumento do desemprego não é uma deceção. Recessão, precarização, desemprego são instrumentos de política económica que visam alcançar um objetivo fundamental: uma transformação social profunda, que reconfigure completamente o quadro das relações laborais e o lugar do trabalho na nossa sociedade. E que consiga desarticular e destruir os serviços públicos económicos e sociais, construindo uma
razão de força maior (“simplesmente, não os podemos pagar”, frase mil vezes repetida) contra o apoio popular massivo de que esses serviços continuam a gozar, apesar de todas as campanhas.
Para evitar esta reconfiguração, a esquerda terá de mobilizar a luta e a alternativa. Elas vão crescendo e alimentando-se mutuamente. Está a acontecer na Grécia, tem de acontecer em Portugal. Não é tarefa fácil, porque obriga a desmontar o maior consenso de opinião alguma vez produzido na democracia portuguesa. Mas é possível porque se apoia na evidência do descalabro económico e social que a austeridade gerou. Os números podem ser escondidos. Mas a realidade que eles representam está à vista de todos. (Jozé Gusmão)

Anónimo disse...

Acho que o senhor Landon Thomas, apesar de ser conhecedor da economia portuguesa, não tem o conhecimento da carga cultural e genética portuguesa. Acredita que os portugueses estão a perder a paciência porque ainda não sabe que o português médio é um corno manso. Os portugueses em geral já se submeteram a muito pior sem mijarem fora do penico, salvo raras e dignas excepções.