quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

São tão bonzinhos

Em tempo de "emergência social" criada por um programa de empobrecimento assinado pelos três maiores partidos portugueses, dois dos quais no Governo, os apoios do Estado às cantinas sociais vão aumentar. A ideia, tal como é oficialmente apresentada, é que as pessoas em situação de pobreza, que querem manter o anonimato e hesitam em frequentar a tradicional "sopa dos pobres", possam levar para casa refeições já confeccionadas, gratuitas. Para tal, o Governo prevê transferir 50 milhões de euros por ano para 950 instituições, em todo o país. Quem nos governa baixa e rouba salários, flexibiliza despedimentos e cria desemprego, reduz a protecção social no desemprego e persegue os mais pobres entre os pobres com cobranças e retirando-lhes o RSI. Depois disponibiliza 50 milhões em esmolas para acudir à miséria por si criada. São tão bonzinhos. Sem dúvida alguma que foi uma excelente medida para acalmar uma revolta que se sente a crescer em todo o país. Será percepcionada pela maioria como uma medida de combate à pobreza. A verdade é que não há melhor do que a esmola para perpetuar a miséria. Quem não se submeta, não come. Quem conteste, fica ameaçado de fome. Quem se destaque na humilhação, ganha direito a uma sobremesa extra ou mais dois ou três pãezinhos. Tão simples. É como se estivéssemos envolvidos em alguma guerra depois de bombardeados pelo inimigo ou tivéssemos sido vítimas de algum cataclismo natural. Felizmente, não é o caso. A calamidade são eles.

6 comentários:

MG disse...

Adoro as suas crónicas, que não me farto de ler, sou infelizmente politicamente analfabeta (por descrença e opção própria). Concordando plenamente com a opinião de Brecht, pois o nosso envolvimento social e politico é essencial, levo a mão ao peito e digo: "mea culpa", pois por muito que o Povo / ou Plebe, como lhe quiserem chamar (ao qual eu pertenço) fale, ralhe, resmungue , cririque ... isso não passa de um susurro aos olhos dos que nos Governam (que esses não passam de marionetas accionadas por lobbies sobejamente poderosos ao ponto de os deixar cair no ridiculo da contradição constante...). Tenho dito ... e vou continuar as minhas leituras.... Um bem haja !

alexandra disse...

Bem explicado. É uma grande chatice!

Filipe Tourais disse...

Dá-me a impressão que a falta de interesse sobre o que aconteceu neste país ao longo dos últimos 30 anos deixou muita gente sem ferramentas para perceber o que nos está agora a acontecer. É, simultaneamente, a factura de tanto desleixo e uma lição de que a política não é um assunto desinteressante. Será tão desinteressante quão desinteressantes quisermos fazer as nossas vidas, e confiando o futuro ao acaso. Muito obrigado pelo elogio, o que faço ou tento fazer é transmitir uma visão que é tão-sómente a minha. Todos aprendemos com todos e é do debate de ideias diferentes que nasce a consciência colectiva necessária para voltarmos a ter o direito a ambicionar uma vida melhor. Cá nos lemos.

Lembrei-me disto disse...

O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar "verdade", que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que... Não interessa.
Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os "remediados" só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia "mais tenrinho" para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse "a fénico". Não, não era a "alimentação mediterrânica", nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.
Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de "longa" duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos "balões" ("Olha, hoje houve um ' balão' na Cuf, coitados!"). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver "como é que elas iam vestidas".
Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a "obra das Mães" e fazia-se anualmente "o berço" nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).

(continuação) disse...

Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos ("Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho"). As pessoas iam à "Caixa", que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma "boa zurrapa".
E todos por todo o lado pediam "um jeitinho", "um empenhozinho", "um padrinho", "depois dou-lhe qualquer coisinha", "olhe que no Natal não me esqueço de si" e procuravam "conhecer lá alguém".
Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.
Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e... supremo desígnio - Madame.
Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por "mangas-de-alpaca" porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal. - Isabel do Carmo (Público, 28 de Novembro de 2011)

MG disse...

Em jeito de resposta,
Estudei Direito, não há muitos anos numa faculdade fora deste Pais, conheci outras gentes, outros costumes,... E lá me ensinaram que a Lei era fundamentalmente a retranscrição para o Papel dos usos e costumes de uma terra, de um país.

Não me parece que os nossos "desgovernates" estejam atentos a qualquer forma de "Usos ou Costumes", aliás isso para eles era uma dor de cabeça (Pois de Norte a Sul o nosso pequeno país é um sem fim de usos costumes, tradições) ...
Assim, contentam-se em mudar leis a seu belo prazer - dar, tirar, repor, tirar mais ainda... (o povo "cobaya" é pacato, deixa-se andar...), pois assim sempre ajudam uns quantos amigos dentro ou fora dos partidos, fazendo vénias a "lobbies tentaculares e seculares" ... O povo que se dane!
Há muito que o povo deixou de ter voz... quiçá efeito da mondialização?