quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Privatizações: como enriquecer sem criar riqueza

“Distribuição segmentada”. O termo tem aquele toque refinado das criações de uma escola de gestão que se especializou em, não criando qualquer valor, não se compadecendo com custos sociais ou com o sacrifício da competitividade da nossa economia, maximizar os resultados da exploração de um serviço público através da deterioração da qualidade do serviço prestado. Acertou em cheio quem leu “distribuição segmentada” e apostou nesta tipologia de gestão: os CTT estão a atrasar de propósito a distribuição de correspondência depois da sua administração ter decidido “segmentar a correspondência”.


Mas, afinal, o que é a distribuição segmentada? Um carteiro tem determinada área e essa área, segundo este modelo, passou a ser dividida ao meio. Ou seja, num dia, o carteiro leva todo o correio (normal e prioritário) só à primeira parte da área e na outra metade entrega apenas o correio prioritário. No dia seguinte, na primeira metade entrega apenas a correspondência prioritária e, na segunda, todo o tipo de correio. E assim sucessivamente.


Ou seja, o que podia ser entregue num só dia, acaba por chegar ao destinatário dois ou três dias depois, na melhor das hipóteses. Ou seja, a medida acarreta milhares e milhares de dias de atraso na chegada de facturas e, dessa forma, as empresas vêem o seu prazo médio de cobrança, já sobejamente esticado, dilatado em vários dias. Ou seja, os beneficiários de pensões de reforma ou de rendimento social de inserção que os recebam por vale-postal vão ter que mandar o estômago esperar. Ou seja, e tudo isto para que os CTT possam despedir – mandar para a “zona de conforto” – 4000 dos seus 11500 carteiros.


Ou seja, cá estamos nós outra vez perante uma privatização de um monopólio natural com as mesmas características dos anteriores: perdemos todos para que ganhe uma minoria que adquire uma renda para toda a vida. Na electricidade, nas telecomunicações, nas auto-estradas e nos combustíveis temos dos preços mais altos de toda a Europa. Será agora a vez dos correios, dos transportes e ainda da água. Não vale a pena preocuparem-se com as evidentes perdas de competitividade da economia portuguesa que todo este processo de privatizações acarreta: o povo não esboça protestos que se vejam pelo que paga a mais por serviços, na melhor das hipóteses, com a mesma qualidade e, “pela pátria”, parece continuar disposto a aceitar que sejam os seus salários a compensar o aumento dos custos de contexto respectivos. Eles privatizam, pois privatizam. Eles enriquecem, pois enriquecem. E a nós reservam-nos a virtude da frugalidade do empobrecimento a que nos deixemos condenar.

Sem comentários: