terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O artista

Depois da noite dos Óscares, foi com a mesma surpresa, nenhuma, e com o mesmo vencedor, o artista, que decorreu esta manhã o anúncio de que Portugal “passou” na avaliação da implementação da agenda política e do programa de austeridade da troika. Falou o artista. E para que não restem dúvidas de que o é mesmo, grande artista de corpo e alma, assumiu, primeiro, que, no melhor dos cenários, o produto irá contrair-se 3,3 por cento este ano e que o desemprego médio chegará aos 14,5 por cento, o que é o mesmo que dizer que apenas irá crescer 1 por cento durante 2012, até aos 15 por cento, para depois dizer, ou melhor, “garantir”, que não há evidências de uma espiral recessiva na economia portuguesa. Já seria uma profundíssima espiral recessiva se as previsões do artista não pecarem por defeito. Mas pecam.


Com efeito, não há motivos fora da fundamentação da elevada nota artística desta intervenção de Vítor Gaspar para acreditar que o desemprego, que em apenas nove meses de governação PSD-CDS aumentou dos 11,4 que se verificavam em Maio de 2011 para os mais de 14 por cento que se registam actualmente, ou seja, quase 2 por cento, irão aumentar menos do que 1 por cento nos mais do que nove meses que faltam para terminar o ano. O desemprego jovem era de 27 por cento no final do primeiro trimestre de 2011 e já passou os 35,4. Os dados mais recentes do INE mostram que há 405 mil desempregados que o estão há mais de um ano. Mostram que cresce assustadoramente, a uma cadência de 15.500 ao mês, o número de desempregados que vão deixando de ter direito a subsídio de desemprego: em Dezembro, eram já 59 por cento do total, cerca de 350 mil pessoas.


E, perante esta calamidade, o artista “garante” que não há espiral recessiva e, na vez das medidas que seriam obrigação de qualquer governante que sinta vergonha de ver a fome e a miséria a alastrarem entre o seu povo, limita-se a justificar que administra a austeridade que é necessária para evitar uma austeridade mais descontrolada e selvagem. O artista assume-se como um selvagem ainda moderado. O artista sabe que o descalabro ainda maior que hoje nega fará de si um selvagem bastante mais radical. O artista sabe que será a História e o povo a julgá-lo. Sê-lo-á, mais cedo do que tarde. Antes, porém, há que ganhar tempo. Está nisso. Há que ajustar contas com o 25 de Abril. Há que acabar de vez com as conquistas no plano laboral. E há que mostrar serviço aos abutres que se acotovelam na disputa dos saldos das privatizações. Os artistas sabem que os abutres sempre recompensam. Um lugar ao sol para cada artista. «Está a correr bem», «reformas estruturais "necessárias"», «Portugal não é a Grécia»: os abutres ajudam. Já se vê o fundo do poço. Falta pouco para que não reste nada. Deixem-nos trabalhar, deixem.

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