domingo, 12 de fevereiro de 2012

No tempo do "selou" (Orelhas de Burro)


Hoje, já não é assim. Há menos dinheiro, sai-se menos. E, há muito, sai-se diferente. Foi deixando de haver hábitos de conversa. A maioria foi perdendo o costume de reunião nos cafés a seguir ao jantar, às Sextas e aos Sábados à noite. Mas, naquela altura, tocava a reunir por volta das dez. No Verão, na esplanada; no Inverno, lá dentro. Para quem gostava, a cerveja ia jorrando lado a lado com as novas da semana. Ainda não havia esse sucedâneo de cerveja e substituto de conversas a que hoje se chama “shot”. Fumava-se onde calhasse. O tabaco ainda só fazia mal aos doentes. Outro tempo, outro formato.


No daquele, depois dos copos e da conversa, ia-se para a discoteca. Os que queriam ir, por volta da meia-noite. Os que acabavam por querer, por volta das duas, depois do café fechar. Os primeiros a chegar escolhiam onde sentar-se nas mesas que ainda houvesse livres num ambiente à meia-luz e ao meio-som, geralmente com uma cassette em fundo. Conversava-se. Prestava-se atenção a quem chegava. Acendia-se um e outro cigarro. Cumprimentava-se este e aquela. Pedia-se um vodka laranja, um gin com pisang ambon, uma batida de coco, uma cuba livre, uma Coca-Cola, uma cerveja. E esperava-se.


Finalmente, “abria” a pista. Mandava o figurino que fosse Quase sempre uma mistura de qualquer coisa a lembrar o espacial, uns acordes de Art of Noise, luzes ao ritmo de disparos laser de filme de ficção científica, umas guitarradas dos Led Zeppelin e uns arrojos, por exemplo, da 5ª do Beethoven ou, por influência de Stanley Kubrick, do “Assim falava Zarathustra”, do Richard Strauss.


A seguir, segundo um formato que vigorou durante algum tempo, havia um “antes” e um “depois”. No “antes”, mais comercial e mais funky, que era quando o pessoal ia “pápista”, ouviam-se nomes como Kool & the Gang, Ray Parker Jr., Chaka Khan, Baltimora, Billy Ocean, Kajagoogoo, P Lion ou Daryl Hall & John Oates. O “depois” era mais Rock e mais “Som da frente”, com U2, The Smiths, The Clash, Iggy Pop, The The, The Jesus and the Mary Chain, Echo and the Bunnymen, The Cure, Propaganda.


E, entre este “antes” e este “depois”, naturalmente que havia um “no meio”. Para muitos e muitas, era a motivação maior para sair de casa e o combustível que os fazia saltaricar “no antes”, posicionando-se estrategicamente para o soleníssimo convite cuja rapidez era imperativa para quem não quisesse ver o seu par a dançar com outro ou outra ou, pior ainda, aos beijos: os “slows” (“selous” em português), Que deixaram de ser momento obrigatório no final dos anos 80.


Lembrei-me disto a propósito da voz que hoje se calou. Whitney Houston, rainha dos prémios, Rainha do romantismo pinga-amor para parte da minha geração e um terror da pirosice dos “selous” para a restante. Que descanse em silêncio.

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