sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Na sombra, ao sol da crise

«A troika voltou a Portugal para um terceiro exame ao programa de ajustamento. Veio avaliar, uma vez mais, o comportamento do seu “bom aluno”. O curioso desta didáctica é que para as notas serem boas os resultados alcançados têm de ser péssimos, ou seja, quanto pior a economia, mais delapidadas as famílias e maior o desemprego, melhor é a classificação. É a pedagogia da tecnocracia, que para ser aplicada precisa sempre de um elemento essencial: tecnocratas. Em Portugal essa elite técnica está reunida na ESAME, a Estrutura de Acompanhamento de Memorandos, montada em Julho de 2011 para servir a troikana aplicação da austeridade. Esta estrutura foi apresentada ao FMI, BCE e CE mas não foi apresentada ao país que se dispõe a destruir, por isso vale a pena conhecer algum dos seus membros:


No comando da ESAME está Carlos Moedas, o Secretario de Estado Adjunto de Passos Coelho. Depois de formar parelha com Eduardo Catroga nas negociações do acordo da troika em nome do PSD este ex-funcionário do Grupo Suez (grupo privatizador das águas) e do Goldman Sachs abandonou a sua parceria com o Grupo Carlyle – passando a sociedade Crimson Investment para o nome da esposa – para poder se dedicar por inteiro à causa pública. Moedas tem, no entanto, algumas pedras no sapato, como por exemplo a propriedade de acções da empresa WIN World, o que o faz sócio directo de um membro do Conselho de Administração da Tranquilidade Seguros (BES). O que não lhe cria problemas de consciência no supervisionamento do processo de privatização dos Seguros da Caixa Geral de Depósitos, sector que é liderado pelo banco público.


Segue-se António Vicente, chefe de gabinete de Carlos Moedas. Vicente foi adjunto de Santana Lopes e ainda figura como quadro da Fundação Luso-Americana. Para além de ter integrado a Câmara de Comércio Luso-Britânica tem sido um dos mais acérrimos defensores da participação de Portugal na NATO. Ao seu lado na ESAME está Miguel Artiaga Barbosa, este ex-colega de Moedas no Goldman Sachs (onde foi director executivo de 2000 a 2005) trabalhou também para o Credit Suisse, onde se dedicava aos investimentos de gestão de risco e… ao mercado das dívidas soberanas. Artiaga Barbosa trocou a banca pelo Estado Português mas o campo de batalha permaneceu o mesmo: o terminal da Blomberg.


Encontramos ainda Pedro Ginjeira do Nascimento, ex-assessor de Teixeira dos Santos e Mário Lino, responsável pelo concurso internacional da PPP para a construção da linha de alta velocidade Lisboa-Madrid. Ginjeira do Nascimento supervisiona agora o desmantelamento dos transportes públicos a partir da supressão das linhas e do aumento do preço dos bilhetes e dos passes. Elsa Martins é a mulher que se segue na equipa, esta consultora foi requisitada à PricewaterhouseCoopers, empresa de assessoria e gestão nas áreas da Saúde, Banca e Seguros. Basta uma rápida consulta à página da Pricewaterhouse para receber preciosos conselhos sobre como “aumentar a receita no ramo da saúde” ou para ficar a conhecer pormenorizadamente as “medidas previstas no acordo da troika para o sector da saúde”. Qualquer coincidência com as políticas de cortes na saúde é mera realidade.


Mas a lista não acaba aqui. Margarida Rosado da Fonseca é advogada e foi requisitada à sociedade Morais Leitão, Galvão Teles, S. da Silva & Associados, cabendo-lhe a pasta da “regulação e competição”. E não se pode dizer que esta jovem especialista tenha falhado na função, uma vez que a sua ex-entidade patronal foi a escolhida para representar o Estado no processo de privatização da EDP, o que não admira, uma vez que a mesma sociedade já prestava serviços à mesma EDP, nomeadamente aquando da venda de 6% da eléctrica à IBERDROLA de Pina Moura. Na assessoria jurídica encontra-se ainda Inês Ramalho, requisitada por Moedas à sociedade Uría Menéndez Proença de Carvalho. A ex-casa de Inês Ramalho não perdeu tempo e já veio assegurar “que do ponto de vista do mercado da advocacia, a aceleração das privatizações coloca novos desafios e apresenta um leque de oportunidades, na assessoria ao Estado, à Parpública e às empresas a privatizar, aos potenciais investidores e assessores. Implicará uma capacidade de resposta singular por parte das sociedades de advogados.”» – Adriano Campos, no esquerda.net.

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