segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gostei de ler: "À esquerda do acordo ortográfico"

«Um dia gostaria de perceber este singelo enigma: porque é que as pessoas de esquerda se sentem desproporcionadamente obrigadas a abraçar o acordo ortográfico, ora recebendo-o entusiasticamente, ora calando reservas? Suponho que em determinada cosmovisão, onde me é interdito algum lugar, tudo se passe como se a harmonia e irmandade entre os povos estivesse atravancada por umas consoantes. Como se os apoiantes do acordo representassem os libertários desempoeirados e os outros, inevitavelmente, conservadores nacionalistas. Tudo se passa como se os opositores do acordo ortográfico desconhecessem a natureza mutável das línguas, como se fossem incapazes de fazer da afeição estética uma política — a menos que inspirados por ideários ultramontanos, como se ignorassem a riquíssima literatura em português do Brasil, como se a resistência à transformação da língua fosse sintoma de elitismo, de um pavor mais amplo à transformação social. Não terei nenhum problema em escrever segundo o Acordo Ortográfico, irrita-me que seja suposto calar um relativo sentimento de perda. Espero que o fim do capitalismo ainda seja celebrado em crónicas na "antiga ortografia".» - Bruno Sena Martins

4 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Se o fim do capitalismo ainda me encontrar viva, será celebrado com a antiga ortografia! :)

Filipe Tourais disse...

Espero que Murganheira ainda se escreva assim.

Vítor Fernandes disse...

O Bruno Sena Martins pode ter razão neste estigma que se está a criar entre a esquerda e o AO. Mas a verdade é que são os mais conservadores e os mais reacionários que começam a defendê-lo com unhas e dentes. Há pouco tempo recebi no FB uma solicitação para um petição onde se invocava a "não colonização pelos brasileiros". A xenofobia não é uma bandeira da esquerda pois não? Ainda não ouvi nenhum detrator do AO reivindicar a escrita antiga, á moda de 1945 (consumada em 1973, quando a anterior reforma entrou em vigor). E na generalidade isso não é feito porque o acordo de 1945 não foi feito com os países de língua portuguesa, esses sim que colonizamos.

Filipe Tourais disse...

É precisamente esse tipo de colagens ideológicas que me surpreendem nesta questão. Independentemente das leituras políticas que possam fazer-se, e, creio eu, isto nada tem de político, o que é um facto incontornável é que até aqui chegámos. A língua, ou, se quiser, as línguas, evoluíram e agora querem operar uma padronização através de um aborto que nada tem de evolutivo, uma criação de meia dúzia de iluminados.