terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Gostei de ler: "Cobardia como modo de vida"

«Há sempre, em todos os regimes, cidadãos que se adaptam ao poder vigente, aceitando as regras, por mais injustas que sejam. De cabeça baixa e tentando não dar nas vistas, apenas se rebelam quando todos já o fizeram. Há sempre, em todas as escolas, um aluno pouco talentoso que se esfalfa para agradar ao professor, por mais medíocre que ele seja. O "graxista", assim é chamado pelos colegas, espera as migalhas que a vaidade alheia lhe resolva oferecer. Há, em todas as empresas, quem lamba as botas ao patrão, na esperança de conquistar pela subserviência o que com a competência nunca conseguiria. E há Estados iguais a esta gente sem espinha. Que procuram viver na sombra dos poderosos. Neutrais quando de qualquer refrega ainda não se saiba o resultado, insensíveis a qualquer sentido de justiça, sem orgulho, sem qualquer desígnio e capazes de suportar, em silêncio, todas as humilhações.


Se olharmos para o Estado português, nos últimos anos, o que vemos é uma Nação oportunista. No Mundo, apoiou, em troca de negócios, a ditadura líbia até ao último segundo. Abandonou Kadhafi na 25ª hora, descobrindo nesse momento a importância da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. Apoia, em troca de tostões, a ditadura angolana. Apoiou a injustificável guerra do Iraque, servindo de mordomo na cimeira da vergonha. Apoiou, aliás, todas as guerras, sempre do lado do mais forte. Na Europa, esteve sempre ao lado de quem manda, incluindo em decisões que prejudicavam os países periféricos. E agora, para não variar, é ao lado do poder do momento que quer estar, não hesitando defender o oposto aos seus legítimos interesses. Sejam Estados ou pessoas, os cobardes conseguem, muitas vezes, sair-se bem na vida (Portugal nem por isso). Mas não merecem o respeito de ninguém. Nem daqueles a quem servem de espinha curvada.


(…)


Quando a correlação de forças mudar na Europa - e inevitavelmente acabará por mudar -, estou seguro que faremos o que temos feito sempre: estaremos, à última da hora e com a mesma ausência de sentido crítico de sempre, no novo comboio. Esperando que todos se esqueçam do triste papel que tivemos numa crise que nos dizia respeito. Pode ser que resulte. Pode ser que não. Mas a marca do que somos, como Nação, fica para sempre. Se os outros não se lembrarem, lembrar-nos-emos nós. Não é por acaso que somos um povo com tão baixa autoestima. Há tanto tempo que, como País, não fazemos nada de que nos possamos orgulhar. É que para contar têm de se correr riscos. E o medo tem sido a base de quase todos os consensos.» - Daniel Oliveira, (artigo completo) no Arrastão.

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