terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

É Carnaval na Islândia



Numa Terça-feira Gorda com serviços públicos abertos para as poucas moscas que ousam nascer nesta época do ano ainda marcada pelo frio, o Carnaval decidiu pregar uma valente partida aos seus detractores, adeptos da via do descalabro austeritário. Quase quatro anos depois da Islândia ter entrado em bancarrota, o país recuperou o estatuto de grau de investimento para a Fitch. A agência, a única que atribuiu nota de default à Islândia, melhorou hoje a classificação da dívida islandesa de BB+ para BBB-, deixando de avaliar o país num nível considerado lixo e admitindo mesmo a hipótese de rever em alta a sua notação num futuro próximo.


"A restauração do ‘rating' da Islândia para grau de investimento reflecte os progressos que foram feitos na restauração da estabilidade macroeconómica através do avanço de reformas estruturais e na reconstrução da qualidade de crédito desde a crise bancária e cambial de 2008", referiu o director da Fitch, Paul Rawkins. O responsável da Fitch referiu ainda que "está em curso uma recuperação económica promissora, a reestruturação do sector financeiro está bem adiantada, enquanto a dívida pública sobre o PIB está próxima de atingir o pico graças a um programa de consolidação orçamental robusto".


A Islândia era já um exemplo de que existe outro caminho que não o da cedência incondicional às imposições de credores externos com outros interesses que não propriamente a recuperação económica dos países intervencionados, entre elas a implementação de uma reconfiguração social e a salvaguarda dos interesses do seu sector financeiro. Torna-se agora também um caso de sucesso comprovado de relançamento de uma economia que, mercê da ganância de banqueiros delinquentes, colapsou em 2008, que contrasta com os autênticos descalabros provocados pelos planos de austeridade implementados em países como Grécia, Portugal, Irlanda, Hungria ou Roménia. Os islandeses arriscaram pela solução que lhes pareceu ser a mais justa e a melhor para eles. Estão agora a colher os frutos. Portugal vê-se a afundar mais e mais a cada dia que passa. Nós contentamo-nos com os elogios daqueles que colhem os frutos dos nossos sacrifícios. E nada mais natural do que elogiarem-nos a obediência. Estamos a trabalhar para eles.



Em capítulos anteriores:


1. Talvez não tenha havido país onde a crise financeira se tenha feito sentir de forma tão dramática como na Islândia. Com certeza todos se lembrarão da bancarrota que sucedeu à catadupa de bancos que faliram. Pois bem. Depois disso, não houve lá cantigas que falam de responsabilidade, sentido de Estado ou medo dos mercados que surtisse o efeito desejado por quem costuma usar esse expediente para se fazer eleger. Os islandeses souberam fazer uma autêntica revolução, absolutamente democrática, e tiveram a coragem de querer mudar de vida. Neste processo, os islandeses correram com a direita que então detinha o poder, esvaziaram a esquerda prostituída ao liberalismo que se propunha adoptar as mesmas soluções que os primeiros e fizeram das eleições a oportunidade para mudar de vida, pondo aos comandos do destino do país uma coligação de esquerda formada por social-democratas, feministas, ex-comunistas e Verdes. Em referendo, com aproximadamente 93 por cento dos votos, recusaram que fosse a sua sociedade a pagar o buraco financeiro gigantesco aberto pela ganância de banqueiros delinquentes. Prenderam quantos destes ladrões puderam. Asseguraram o controlo da sociedade sobre o sistema financeiro nacionalizando os três maiores bancos. Mandaram os credores externos esperar. E elegeram uma assembleia constituinte em 27 de Novembro de 2010 incumbida da redacção de uma nova Constituição capaz de limitar os excessos de um capitalismo que lhes provocou um sabor tão amargo e de catapultar de novo a Islândia para uma trajectória de progresso e de justiça social. (ler mais e ver filme)


2. O tal país que mandou o FMI às malvas, prendeu os banqueiros delinquentes, promoveu a reforma antecipada da parcela da sua classe política que se dispunha a vender o seu povo à agenda neoliberal e colocou os credores à espera. A Islândia, lembram-se? De acordo com estimativas do próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), a Islândia vai fechar 2011 com um crescimento do PIB de 2,5%, prevendo-se novo crescimento de 2,5% para 2012 – números que representam quase o triplo do crescimento económico de todos os Estados-membros da União Europeia – que em 2011 ficarão pelos 1,6% e que descerão para os 1,1% em 2012. A taxa de desemprego no país vai ainda descer para os 6%, contra os actuais 9,9% da zona euro, que vai coleccionando novas vítimas da agenda de retrocesso civilizacional à medida que o tempo passa e uma solução é retardada o mais possível para que o neoliberalismo tenha tempo para impor as suas leis. (ler mais aqui)

8 comentários:

Anónimo disse...

A recuperacao da Islandia e de facto assombrosa, mas o blog que o amigo deixa aqui e um pouco tendencioso, deixe que lhe diga.
A Islandia realmente mandou os credores e o FMI esperar, soube colocar na prisao alguns que realmente mereceram, mas porque fez a Islandia isto e nao os outros que aponta na sua cronica e eu ainda adicionaria a Italia e a Espanha?
A ISlandia e um pais rico em recursos naturais, que dao um lucro facil se trabalhados, como a geotermia, as pescas ou a Madeira e Florestas. Analisando por comparacao Portugal, tambem tem alguns recursos e porventura mais, mas a grande diferenca e que a Islandia tem apenas 350,000 habitantes num pais que e dois tercos da area portuguesa, portanto Portugal tem cerca de 30x mais habitantes por km2, e esses recursos tem de ser trabalhados, portanto com o preco das materias primas a subir nos mercados internacionais, ha que explorar os recursos naturais e isso faz com que mais pessoas trabalhem e o desemprego desca e o PIB suba.

Para aplicar a analogia que o meu caro amigo aponta, era necessario que Portugal tivesse 30x mais recursos naturais que a Islandia que nao os tem, nem perto, portanto a solucao islandesa pode ser olhada, analisada e tentar importar alguns elementos, mas nem de perto nem de longe se pode aplicar a mesma formula pois ela nao vai funcionar.

Em relacao aos emigrantes e cada vez haver mais emigrantes, pode ser vista como uma solucao de recurso ou escolha de vida. Para mim foi a segunda. Sai de Portugal ha 6 anos e nao tenciono voltar tao brevemente, nao por ser menos Portugues que algum outro natural de Portugal, mas apenas porque nunca irei atingir o meu potencial em Portugal, devido ao formato economico e necessidades da economia. Na minha area necessito de estar numa economia avancada para tentar atingir o meu potencial. E tudo uma questao de ponto de vista. Mas discordo quando diz que os jovens estao a emigrar por necessidade, pois eu acho que nao, os jovens de hoje querem aprender e evoluir, e eu sinceramente nao acredito que tal possa ser feito em Portugal.... A geracao mais jovem 24-35 anos esta a fazer algo por Portugal, pois ao sair muitos de nos para posicoes de destaque nos paises de acolhimento, estamos pela primeira vez como Portugueses a verdadeiramente a integrar-nos no mundo exterior e a aprender com as suas culturas e diferentes pontos de vista. Os que decidirem um dia voltar, voltarao com uma experiencia que nao seria possivel atingir em Portugal.

Dou-lhe uma sugestao. Arrisque por dois anos emigrar para um pais diferente, la afaste-se da comunidade portuguesa local e tente integrar-se na comunidade local, aprenda com eles e entao diga-me se tenho razao ou nao...

Filipe Tourais disse...

O que diz não é nada tendencioso, mesmo nada. Usa o argumento da dimensão. Portugal é grande demais para fazer como a Islândia e pequeno demais quando é para exigir onde deve fazê-lo, em vez de aceitar tudo sem um ai, nas instâncias europeias. Não sei para onde emigrou, também não é importante, só espero que seja um país que respeite o seu povo e a sua soberania de forma a que possa verificar que não é vergando que se negoceia ou se consegue o que quer que seja.
Quanto aos conselhos, faça o favor de guardá-los para quem lhos peça.

Anónimo disse...

Filipe Tourais disse...

O que diz não é nada tendencioso, mesmo nada.
Não uso o Argumento de a Islândia com 350 mil, produzir 180 mil toneladas de alumínio, fazer mais trefilagem de alumínio (para cabos de alta tensão) do que Portugal e a Andaluzia juntos.
E pescar 800 mil toneladas de bacalhau (e bacalhau ralated fish, como tive o cuidado de lhe explicar.
O anónimo nº2 tem um dicurso mal construído, porque o ensino de português e as técnicas de argumentação são pobres.
Isto é uma constatação, o anónimo nº3 não dá, nem vende conselhos.

E soberania da pobreza? disse...

A electricidade agrícola na Islândia (para aquecer estufas e tirar leite às vaquinhas e aquecer as ovelhinhas antes de serem abatidas e congeladas, é 90% inferior à portuguesa.
Akureyri a capital do norte, tem electricidade de graça até 120 kilowatts/dia
e subsidia as explorações em gasóleo (60% do agrícola português)
e em 50% do consumo Primaveril
2 anos (23 meses) em austur-hérað...e dois meses em 98 quando ainda não havia unidade das 5 comunidades

Meta isto junto aos conselhos disse...

António Nunes Coelho, de 49 anos, ainda esteve vivo “entre 15 minutos a uma hora” depois de ter sido despejado numa ruela deserta de Bruxelas pelo patrão e dois colegas da obra onde estava a trabalhar ilegalmente. Depois de ter caído de um andaime, vítima de um ataque cardíaco, em vez de ser socorrido foi transportado de camião e abandonado num local deserto. As autoridades belgas investigaram o caso e a autópsia concluiu que o português foi abandonado ainda com vida, noticiou ontem o jornal belga La Dernière Heure. O português, desempregado, na Bélgica há 12 anos, iria receber 500 euros por um biscate que aceitara fazer durante 3 dias. Exige-se uma posição pública do Governo português que não apenas a apresentação de condolências à família.

Filipe Tourais disse...

Pois, anónimo, sei disso tudo. E, que mal pergunte, o que é que aconteceria se essas riquezas estivessem no nosso país? Davam-nas à exploração por 80 ou 90 anos, como fazem com a nossa energia, ao combustível que não produzimos, às redes de telecomunicações e auto-estradas que pagámos com o nosso dinheiro e como querem fazer até com a água. Tudo isto para pagar os juros que os islandeses não quiseram pagar. Eu acho que deveria aprender com o seu país, que há muito para aprender aqui. Só depois pode aprender com a Islândia, pequeno país como nós, mais pequeno do que nós, que nem por isso deixa de bater o pé a quem quer explorá-los como nos exploram a nós e que põem as riquezas do país a enriquecê-los a todos e não apenas a meia dúzia de famílias, seus lacaios no poder político e em associação com ladrões angolanos, chineses ou os que forem. Seríamos outro país mesmo sem as riquezas naturais da Islândia. Bastaria ter a maturidade democrática deles.

Anónimo disse...

A mina do pintor e o couto mineiro de Jales, fecharam em 92-93 por falta de entendimento entre a CGTP e o patronato, dois ex-mineiros morreram na África do Sul em 2005, depois de estarem 3 anos desempregados em Portugal.
A nossa água foi durante anos do Sousa Cintra e amigos, com venda de parte dos caudais às autarquias onde se realizava a exploração.
Algumas águas públicas são desperdiçadas, contaminadas e distribuídas com lucros enormes, apesar dos prejuízos das autarquias.
Os islandeses que estão cá como professores nas universidades, não têm 3 telemóveis ou mais como os seus colegas, nem compravam computadores da macintosh que jogavam fora quando vinha o modelo novo.
Nem nenhuma fundação da facul de ciências lhes pagava cachimbos de raiz de nogueira de 40 contos.
(Também é verdade que são todas mulheres)

Quanto ao anónimo 2 é nitidamente agressivo por compulsão
provavelmente está em situação precária (apesar disso continua com net..o que é sintomático da maneira de ser lusa
(gasta-se tudo em carros "bons" e jantaradas de alto "colesterol"
Logo concordo com a última frase

Filipe Tourais disse...

O anónimo parece-me um pouco confundido. Se a água dá lucro e as autarquias prejuízo é bom que a água fique na autarquia para que o prejuízo não seja maior ainda. Não vejo vantagem em pôr a água a enriquecer privados.
Confunde-se também no diz que disse dos mac, que as pessoas compram com o dinheiro delas e não com o seu.
A situação a que Portugal chegou deve-se a quase 40 anos de pilhagens, não aos sindicatos nem a partidos que nunca foram Governo.
E faz juízos de valor sobre reacções de quem se sente aviltado com a sua pesporrência. Eu dou por terminada esta conversa consigo.