quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Desemprego: os génios matam o monstro

Para não dizerem para aí que não andam a fazer nada, o Governo diz que vai aumentar as colocações de desempregados pelos centros de emprego a um ritmo que fixam, saberão eles com base em quê, em três mil pessoas por mês até 2013. Como?



Nada mais simples. Para além do número que caiu do céu, através de uma reestruturação da rede de centros de emprego, da sua fusão com a rede de centros de formação profissional, da redução de 150 cargos dirigentes, que passarão a desempenhar tarefas técnicas de apoio, e da criação da figura do gestor de carreira, uma espécie de médico de família com terapêuticas milagrosas para acabar com o desemprego, ao dispor de cada desempregado.


Como pode constatar-se, o problema não está na economia não criar e destruir emprego. Está, isso sim, nos centros de emprego funcionarem mal, nos técnicos trabalharem ainda pior e nos desempregados andarem completamente desorientados, à boa vida, na sua zona de conforto.


Pergunta lógica: então e se, como se prevê, as empresas, em vez de procurarem gente para recrutar, continuarem a encher os centros de emprego com mil novos desempregados por dia? Simples: aparecem novamente na comunicação social com outro número bonito – que tal 50 mil por mês? – E nova reestruturação, quem sabe com uma redução no salário daqueles incompetentes que são pagos para fabricar empregos e se recusam a fazê-lo. Isto se o Governo português não imitar o Governo grego: se o fizer, alguns destes técnicos serão abrangidos por uma mobilidade que os mudará para o outro lado do balcão, para aprenderem o que é bom para a tosse.


Vagamente relacionado: as empresas e o Estado pagaram, em 2011, 25 265 milhões de euros em salários. Este montante representa um corte de 716 milhões de euros face ao ano anterior. 2011 Foi o primeiro ano desde, pelo menos, 1999 em que se registou uma quebra no pagamento de remunerações de trabalho.


Ainda mais vagamente: o Tribunal de Vila do Conde está a julgar um homem e uma mulher por alegado furto de 56 "packs" de leite achocolatado de um hipermercado, com um valor unitário de 1.99 euros, no montante global de 111.44 euros.


Actualização (confirmação): O Governo vai pagar a agências privadas de emprego que arranjem trabalho a desempregados não subsidiados, substituindo uma tarefa que agora está nas mãos dos centros de emprego. A medida deverá passar para o terreno até ao final do ano e faz parte do Programa de Relançamento do Serviço Público de Emprego, aprovado ontem em Conselho de Ministros.

1 comentário:

Anónimo disse...

Segundo os dados divulgados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), o número de inscritos a cargo de cada funcionário dos centros de emprego aumentou 46 por cento desde 2008. Há quatro anos atrás, o IEFP dispunha de 4170 técnicos de emprego, ao passo que, no final de 2011, esse número era de 4099.

O número de pessoas inscritas nos centros de empregos tem vindo, por sua vez, a registar a tendência oposta. De acordo com o IEFP, no final de 2011, estavam inscritos nos centros de emprego de Portugal 605.134 indivíduos, contra os 416.005, registados em 2008.


Em janeiro de 2012, esse número aumentou 14,4 por cento relativamente ao mês homólogo de 2011, e 5,4 por cento face ao mês anterior. De acordo com os últimos dados divulgados pelo IEFP, em janeiro estavam inscritas nos centros de emprego em Portugal 637.662 pessoas.

O crescimento exponencial do número de desempregados e o número insuficiente de funcionários dos centros de emprego, a par da inexistência de uma verdadeira política de acompanhamento e de proximidade, estão a traduzir-se na sobrecarga dos serviços, que se regista especificamente nos serviços do continente.

Os desempregados esperam horas à porta de muitos centros de emprego, chegando mesmo a pernoitar neste espaço, sem terem sequer a certeza de que chegarão a ser atendidos. Tal acontece, nomeadamente, no Centro de Emprego de Portimão, onde se encontram inscritos os desempregados dos concelhos de Portimão, Silves, Monchique e Lagoa, e que se insere na região com a maior taxa de desemprego registada no quarto trimestre de 2011 – 17,5% - e com a segunda maior taxa de desemprego jovem – 41,1%.

No Centro de Emprego da Amadora, a fila começa a adensar-se cerca das cinco da manhã, sendo que várias pessoas que se dirigem diariamente a estes serviços acabam, muitas vezes, por não ser atendidas.

Em declarações à agência Lusa, o coordenador da Comissão de Trabalhadores do IEFP, Godinho Soares, reconheceu a necessidade de “mais técnicos preparados para lidar com as consequências da crise na área do emprego e da formação profissional” e admitiu duvidar que “a anunciada reconversão de cerca de 150 atuais dirigentes e chefias em gestores de carreira tenha peso suficiente para responder às necessidades”.

Godinho Soares defendeu a urgência de “alargar o recrutamento à restante Administração Pública” e lamentou o atraso “da adoção de iniciativas concretas e expeditas nesse sentido, por parte dos responsáveis” e do Governo.