terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Custe(-lhes) o que (nos) custar


“Já não aguentamos mais”. Foi a frase que se ouviu nas ruas há um par de meses durante a aceitação do último pacote de austeridade em que se materializou a implementação da agenda política que serviu de contrapartida ao último empréstimo externo à Grécia. “Já não aguentamos mais”, ouve-se novamente hoje da boca de um povo prestes a sofrer nova dose da mesma brutalidade que tem piorado sucessivamente a situação do país, e que, desta feita, inclui absurdos como um corte de 20 por cento no salário mínimo de uma economia com a procura interna em mínimos e o despedimento de 15 mil funcionários públicos numa Grécia com o desemprego em máximos. Já não há falsos patriotismos nem doses de demagogia que convençam os gregos: mais austeridade significará mais austeridade daqui a um par de meses. Mais austeridade significa piorar ainda mais a situação da Grécia. A austeridade é o problema, não a solução.


Por cá, é constatável o cuidado com que a notícia das manifestações de hoje na Grécia está a ser servida às próximas vítimas desta receita que enriquece uma minoria empobrecendo a maioria: em vez das centenas de milhar de manifestantes em Atenas da maior manifestação de sempre desde o início da ocupação externa que ouvimos à repórter do Video junto, lemos “8 mil manifestantes” e “20 mil manifestantes nas ruas de Atenas e de Salónica” e em vez dos estrondos dos cocktails-molotov e de violentos confrontos com a polícia lemos que “a polícia grega disparou granadas de gás lacrimogéneo contra os manifestantes que tentavam romper um cordão de segurança na Praça Syntagma” ou que “a BBC mostrou imagens de um momento de alguma tensão entre a polícia e os manifestantes”.


E, para quem queira concentrar-se no que realmente interessa, são servidos sangue, frio, a tolerância de ponto concedida por Alberto João Jardim na Terça-feira de Carnaval (“ou é para todos ou não é para ninguém”) e o fim do segredo que Passos Coelho, a bem da Nação, quis manter em relação às despesas dos gabinetes ministeriais (“aquele Sócrates é que era o bandido”). Está tudo bem, Portanto. Até porque estamos fartos de saber que Portugal não é a Grécia. Eles é que não aguentam mais.

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