sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Cultura portuguesa e o patriotismo de ocasião

“Rafa”, de João Salaviza, ganhou a competição de curtas do Festival de Berlim. Miguel Gomes ganhou dois prémios com “Tabu”. E, através da dedicatória de ambos, o Governo português ganhou o prémio da vergonha pela situação de abandono em que deixou a nossa Cultura, em particular o Cinema português. A evidência do fomento de um patriotismo de ocasião daqueles que preferem regozijar-se com o “ser português” do prémio conquistado "lá fora", sem que o desprezo com que este Governo olha para a Cultura lhes cause qualquer incómodo, resulta-me óbvia na dificuldade que tive em encontrar as declarações dos galardoados na imprensa online. Acabei por encontrá-las, depois de tropeçar em vários "Portugal não é a Grécia" pertencentes ao mesmo patrioteirismo, embora bastante abreviadas e apenas as de João Salaviza. Desisti de procurar as de Miguel Gomes, que ouvi na rádio. As que encontrei estavam totalmente filtradas.


«João Salaviza começou por dizer que estava «muito surpreendido e que teria preparado um discurso bonito se soubesse que ia ganhar». No seu agradecimento, perante 1600 espetadores, disse ainda que dedicaria o prémio ao governo português. «Mas só na condição de nos ajudarem nos próximos anos, porque não sabemos o que vai acontecer com o nosso cinema», sublinhou. (TSF)

1 comentário:

Anónimo disse...

«Não. Um filme realizado por um português, com actores e técnicos portugueses, vence prémio da crítica do Festival de Cinema de Berlim. Sessenta por cento do financiamento para a obra de Miguel Gomes foram conseguidos em Portugal, mas os restantes 40% vieram da Alemanha, Brasil e França. E o dinheiro português é de origem privada, enquanto que o que veio dos outros países saiu do Orçamento de Estado desses países. O que significa, citando Miguel Gomes, que acaba por ser “um bocado irónico, em relação ao discurso político que é feito - os 40 por cento restantes da parte brasileira, francesa e alemã saíram dos orçamentos do Estado desses países, cujos contribuintes pagaram, portanto, mais do que os contribuintes portugueses”. Os concursos para financiamento de filmes portugueses estão congelados há meses, sem previsão de regresso. É vergonhoso que o nosso bem cultural com melhor capacidade de exportação esteja a merecer um tratamento destes por parte do Estado português. Um país que trate assim os seus criadores não merece respeito. Não existe.



Adenda: não posso dizer se o prémio é merecido - não vi o filme - mas a julgar pelas suas duas primeiras obras, sobretudo Aquele Querido Mês de Agosto, mal posso esperar para ver.



Ao pessoal que gosta de botar conversa sem saber muito bem do que fala (sim, falo também deste extremista dos mercados):

- O filme não teve financiamento através do ICA, foi apenas apoiado por este.
- O orçamento para apoio do ICA vem de uma taxa de exibição cobrada aos distribuidores, não directamente dos impostos do contribuinte.
- O realizador conseguiu financiamento privado porque o seu filme anterior, "Aquele Querido Mês de Agosto", estreou em vários países e teve excelente recepção crítica por onde passou.
- O facto do filme anterior ter tido lucro fez com que fosse fácil encontrar investidores para este.
- Mas isso apenas foi possível porque os dois filmes anteriores existiram, e existiram com financiamento público, através do ICA.
- Sem isto, Miguel Gomes nunca teria chegado ao ponto de poder dispensar o dinheiro dos nossos impostos.
- Tanto o realizador como o produtor recusaram a hipocrisia do acompanhamento da comitiva por uma embaixada do Governo português ao Festival de Berlim, precisamente por causa desta situação.
- Neste momento, os cortes ao financiamento do cinema português são de 100% (como afirma o realizador na entrevista que está no link).
- Havia vários filmes em fase de pré-produção que estão parados.
- Se continuar assim, o cinema em Portugal acaba. Depois disso acontecer, nem prémios internacionais, e muito menos realizadores que conseguem arranjar financiamento privado para os seus filmes, existirão.
- Sem cinema português, o país fica ainda mais pobre, moral e culturalmente.»


Retirado daqui: http://arrastao.org/2471199.html