segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Quanto dura uma notícia


De regresso, após um interregno forçado de cinco dias, já pouco se fala da notícia que levei comigo no bolso das inquietações. Refiro-me, obviamente, à traição protagonizada por um sindicalista ao serviço das confederações patronais, imediatamente baptizada de “acordo de concertação social”, que, porque significa a condenação dos portugueses que vivem do seu trabalho a relações laborais semi-feudais e uma ainda maior desigualdade entre os rendimentos de ricos e pobres, seria natural que provocasse uma gigantesca onda de indignação. Até à data, será, porventura, a mais importante desta sucessão interminável de golpes pejados de inconstitucionalidades várias que corporizam a regressão social que vivemos.
Porém, dois dias bastaram para que a notícia fosse tragada pela espuma dos dias: Cavaco Silva, a quem Passos Coelho agradeceu o precioso contributo dado ao mais rude golpe em quase 40 anos desferido contra as conquistas da democracia, decidiu-se contribuir ainda mais queixando-se de que os seus rendimentos não darão para pagar as despesas lá de casa e vangloriando-se de uma conduta exemplar que lhe permitiu acumular “as poupanças de uma vida”, úteis agora para fazer face às dificuldades. Gerou-se a onda mais conveniente e oportuna. O traidor João Proença saiu de cena. E Passos Coelho aproveitou o número para constatar que os sacrifícios, que objectivamente não são para todos, valerão a pena porque são mesmo para todos ao ponto de nem o próprio Presidente da República lhes escapar.
Escapou a quase todos que nas “poupanças de uma vida” da conduta exemplar do Presidente estão a centena e meia de milhar de euros que correspondem à parcela conhecida do seu quinhão dos 5 mil milhões do banquete BPN que o enriqueceu a si, respectiva família e aos amigos mais chegados e que agora nos empobrece a todos. Tal como lhes escapou a zona de conforto proporcionada à economia do abuso pela legislação laboral que aí vem. A maioria preferiu concentrar-se no queixume mentiroso da parca reforma e desdobrar-se em correntes de e-mails com dezenas de pontos de exclamação, em iniciativas muito meritórias de cariz caritativo-caricatural com vista a auxiliar o senhor Presidente ou na estridente exigência da demissão de um Cavaco que, depois de 10 anos a destinar aos amigos fundos comunitários destinados ao desenvolvimento do país, depois do BPN, depois da Quinta da Coelha e depois de tantos outros serviços prestados à Pátria, seria o candidato presidencial mais improvável, mas acabou por ser o preferido dos portugueses para ser a mais alta figura da Nação. Ossos do ofício de um povo de memória curta que não sabe usar a democracia em proveito próprio, que apupa Cavaco Silva para, imediatamente a seguir, aplaudir um dos elementos da equipa de carrascos que lhe esburaca o futuro.
Eles sabem como estes repentes de histeria passam rapidamente. Os amansadores das televisões, rádios e jornais já trabalham arduamente na transição para o capítulo seguinte deste período negro da nossa História. Marcelo Rebelo de Sousa, ex-presidente do PSD tornado comentador político pela TVI (Ongoing), fala de uma mensagem infeliz pelo pormenor de não conter a admissão da pertença a uma classe de privilegiados; Luís Filipe Meneses, ex-presidente do PSD tornado comentador político pela direcção de informação da rádio pública, fala numa gafe desculpável porque as gafes fazem parte da vida de qualquer personalidade pública; e Raul Vaz, Director-executivo do Diário Económico (Ongoing) tornado comentador político da rádio pública, lamenta o momento em que ocorre, “logo agora que os portugueses devem estar unidos”. Mais outro par de dias e tudo estará serenado. Pobre povo, Nação dormente e imoral.

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