segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Gostei de ler: "Reformar as reformas"

«A opinião de que as reformas no nosso país se têm de realizar, dir-se-ia necessariamente, contra as “corporações” dos sectores visados é, sem a menor dúvida, uma das mais arreigadas entre nós. Por isso, qualquer novo governante que a si mesmo se atribuiu “intuitos reformistas” – obsessão comum a muitos deles, sobretudo na área da Educação (porque será?…) – e que quer que os mesmos lhe sejam reconhecidos e creditados, tem que começar por “pôr na ordem” a “corporação” que lhe coube em sorte. Sócrates foi muito provavelmente o político que, entre nós, no regime democrático, levou tal desiderato mais a peito, tendo em MLR o braço eleito da sua “vontade reformista”.
Esta ideia é politicamente tão correcta, atractiva e útil que qualquer governo que se preze tem que ter umas “corporações” à mão para se justificar ou salvaguardar em quaisquer circunstâncias (“tínhamos boas soluções, os poderes corporativos é que não nos deixaram…”).
De resto, essa opinião já conquistou o seu lugar e expandiu-se nas iluminadas meninges dos comentadores da nossa praça. Também eles procuram logo precaver-se e municiar-se com o seu “conflito corporativo” para lhes poupar o trabalho de procurarem outras explicações para os problemas que assolam a pátria. “O país é ingovernável e chegou a este ponto por causa dos bloqueios corporativos”, e pronto, está tudo dito e esclarecido. Atacar toda e qualquer “corporação” – e para a docente há sempre aquela “atenção especial”… – tornou-se o lema predilecto dos aspirantes a “salvadores da pátria”.
Explicar a todos esses visionários que essa concepção reformista mais não reflecte do que uma tradição política autoritária e paternalista e a ausência de uma cultura de co-responsabilização, onde se prefere impor no lugar de dialogar e negociar, onde se opta por decretar em vez de pensar e planear, onde se gosta mais de improvisar do que de ensaiar e experimentar, onde se privilegia a medida de curto prazo e se desiste perante o projecto estratégico e de fôlego estruturante, onde se acha que é melhor dividir para poder reinar, explicar isto a essa gente, a toda a gente, é tarefa tão difícil quanto necessária.
Governar um país em “petit comité”, ouvindo primeiro os correligionários, consultando sempre os mesmos “especialistas de gabinete”, privilegiando os representantes institucionais ou tutelares, considerando os actores no terreno uma “força de bloqueio”; tomar as reformas como um fim em si mesmas, um ponto de chegada voluntarístico, e não como um ponto de partida: tais são os eixos em torno dos quais se move o círculo vicioso da nossa governação.
Olhando para trás e observando o “cemitério de reformas” que são alguns dos nossos ministérios – mormente o da Educação -, teremos que nos interrogar se tantos falhanços acumulados não se ficarão a dever, sobretudo, ao facto de não se ter sabido ou querido conquistar os respectivos funcionários para essas reformas, de se ter partido da ideia feita de que eles são o principal obstáculo a remover, de que eles são o preço a pagar por elas. E o que dizer então do preço que o país pagou por essas reformas frustradas?…» – Paulo Guinote, no A Educação do meu Umbigo.

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