quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Coragem, num país de vendidos

“Podemos sempre pensar que apenas em cenários limite – genocídio, a guerra, extermínio – acontecem escolhas-limite; e que é a violência absoluta ou é a humilhação ou o sofrimento absoluto que impõem a revolta, o inconformismo, a coragem; ou não. Tenho para mim que as escolhas-limite se fazem todos os dias, no nosso quotidiano, e duvido muito que quem vive de espinha dobrada em tempo de paz, em tempo feliz – como é, já nos esquecemos o tempo democrático – seja capaz de endireitar a espinha em tempos difíceis”.


“Para um país onde, precisamente, 4 décadas de democracia produziram, afinal, uma sociedade asfixiada por valores do silêncio, da cobardia, do bajulamento e dessa gangrena da nossa pátria que é a inveja social. Por junto, uma cultura mesquinha, quase sempre não há ninguém que diga aquilo que todos sabem, que todos devem calar. Uma terra onde, finalmente, se instalou um medo e uma noção puramente alimentar da dignidade individual, traduza-se “está caladinho para guardares o trabalhinho” – neste aspecto, em genocídio ou democracia, os reflexos e os mecanismos são os mesmos”.


Uma crónica que não poderia ter sido mais certeira. O autor deste texto “não esteve caladinho” e, porque falou, “perdeu o trabalhinho”. Vale a pena ouvir, na íntegra, a última crónica de Pedro Rosa Mendes para a Rádio pública. Há honrosas excepções neste povo que se habituou a andar curvado e de mão estendida.




2 comentários:

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Espero bem que as escolhas-limite possam acontecer fora das situações-limite; mas é apenas uma esperança, não uma certeza. Tanto mais que já se tornou evidente que as oligarquias europeias actuais, como as de há oitenta anos, estão dispostas a esticar a corda até à última fracção de segundo, bastando um pequeno erro de cálculo para desencadear a catástrofe. Da última vez, este pequeno erro custou 50 milhões de mortos.

Rui Tojal disse...

O jornalista Pedro Rosa Mendes revela coragem, de facto, o que é de sublinhar num país marcado, de nivi, pela cobardia e pelo medo que se veem no comportamento da maioria das pessoas.

A pergunta oportuna há uns anos atrás seria, como no título daquela famosa peça de teatro: "E não se pode exterminá-los?" - onde o pronome pessoal "los" se refere a eles, aos que estão no poder.

Agora, estamos no recuo, claramente. Quem critica, perde o emprego. Então a pergunta oportuna passa a ser outra: " E não nos podemos reorganizar, para poder depois exterminá-los?" - Haverá gente e forças suficientes para isso? Eis as questões.