quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Como animais

Desde o início do ano até ontem, foram encontrados mortos em casa dez idosos, só em Lisboa. Este número tem vindo a aumentar: em 2010, foram 60 as pessoas encontradas mortas em sua casa pelos bombeiros, em 2011, o número já foi de 79 e, admitindo uma distribuição homogénea pelos 12 meses em 2012, ultrapassaremos os 120 este ano.


A Câmara Municipal de Lisboa diz-se preocupada, anunciou estar a estudar formas de combater o fenómeno, mas tudo o que possa fazer será pouco, o quase nada que pode fazer-se com uma legislação laboral que prevê horários de trabalho esticados até às 60 horas semanais, 10 horas diárias, e a despedimentos facilitados motivados pela inadaptação súbita também de quem necessite de dar assistência aos seus velhos. A complementar este cenário de soldadinhos de chumbo sem direito a vida familiar temos ainda as pensões de reforma de miséria que se vislumbram no horizonte. Sim, que eles também não se esqueceram de nos roubar o direito a ter uma velhice digna conquistada após uma vida inteira de trabalho.


Eles cuidam de cada detalhe. A alternativa a morrer sozinho em casa parece ser a de morrer acompanhado no local de trabalho. Eles já estão a tratar de consagrar esse direito aumentando a idade mínima para a reforma. Uma das principais conquistas da resignação geral aos sucessivos ataques aos direitos herdados das gerações anteriores, precisamente as daqueles que agora deixamos a morrer sozinhos, será o direito a trabalhar até morrer, como bestas de carga. A isto se arrisca uma geração que apostou viver uma vida inteira como animais sem referências históricas e desprovidos de qualquer ideal. "A política é uma seca", repetem os papagaios. "Os políticos são todos iguais".

2 comentários:

Fenix disse...

"...será o direito a trabalhar até morrer, como bestas de carga."

Caro Filipe,

A contrapor o "direito" acima, ainda temos que juntar, o "direito" de ser desempregado de longa duração aos 57 anos, com a hipótese muito remota de voltar ao mercado de trabalho e para "compensar" ser compelido à reforma antecipada com os cortes que conhecemos... (a minha realidade próxima futura)!

Filipe Tourais disse...

Precisamente, não faz sentido prolongar a idade da reforma com tanto desemprego jovem. Conheço vários casos como o seu. É desesperante, mesmo.