quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Apodrecer para vender: a aventura empresarial (continuação)

As reformas introduzidas no sector da Saúde durante a governação Sócrates fizeram-se sentir tanto na qualidade dos serviços prestados como ainda ao nível dos resultados operacionais: pioraram ambos. E, mais do que piorarem ambos, sobressaiu o facto de terem piorado bastante mais nas unidades hospitalares onde foi introduzido o tal modelo empresarial que seria a solução universal para todos os problemas. Seria, pois, de todo aconselhável um recuo a toda a velocidade.

Aconteceu, porém, que os portugueses colocaram o poder nas mãos de fundamentalistas tão interessados como os seus antecessores em manter as despesas da Saúde fora do perímetro orçamental, para não contarem para o défice. Outra semelhança, por piores que sejam os resultados, os novos donos do poder também valorizam mais a palavra “empresarial” do que a mais mínima das racionalidades.

Como tal, em vez do regresso ao modelo do sector público administrativo, que teria a vantagem de obrigar as administrações, nomeadas maioritariamente por critérios partidários, a obedecerem a regras mais apertadas na aquisição de bens e serviços, o novo Governo preferiu manter as amplas liberdades que sobrecarregaram ainda mais as contas públicas e as contas bancárias dos fornecedores das unidades hospitalares já “empresariais”, estenderam essas liberdades a novas unidades através de fusões e concentrações de serviços e convenceram-se que, poupando uns quantos comprimidos, mais alguns exames complementares de diagnóstico e cortando nas despesas de pessoal, os resultados seriam melhores. E surpreenderam-se. Não basta fazer ar de grande empresário e seguir a cartilha do Vale do Ave: a qualidade deteriorou-se ainda mais e os resultados foram ainda piores. Eles brincam acima das nossas possibilidades. E o pior é que isto é Saúde, estão a brincar com a vida de pessoas para favorecerem negócios privados ou, simplesmente. porque sim.

1 comentário:

Anónimo disse...

Por definição, da política resultam sempre benefícios e perdas. Por casualidade, pode acontecer que quem sai prejudicado é o interesse público e quem sai beneficiado são interesses privados. Mas só por casualidade. A de o poder cair nas mãos erradas.