sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ainda melhor


Em vez da meia hora diária de trabalho adicional, que corresponderia a um acréscimo no tempo de trabalho de 6,25 por cento, um roubo por não ter correspondência equivalente em remuneração, os patrões reclamam agora o direito a poder reduzir salários em 20 por cento. É cada vez mais claro que a resolução dos problemas de competitividade do país passam pelo aproveitamento da imaginação destes amigos do alheio. Competitividade hoje confunde-se com exploração. E não são bem bem bem a mesma coisa.

3 comentários:

Zé disse...

Isto não dura muito. O povo está a abrir o olho e já dá nota negativa ao PM, colocando-o ao nível dos piores:
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=531305

Anónimo disse...

Na verdade esta medida, por triste que seja para mim, pode até fazer sentido...
Reduzir o salário, reduzindo também as horas de trabalho, corresponde vagamente ao kurzarbeit da Alemanha, desenhado para reduzir o desemprego e a desigualdade em alturas de crise.

Conceptualmente é bom porque aumenta o número de postos de trabalho, reduzindo possivelmente a despesa do Estado com subsídios de desemprego, o drama social, e, ainda que de forma muito limitada, até a desigualdade entre, digamos, os 50% mais pobres da população (claro que todos sabemos que o problema não é essa desigualdades, já que esses estão mais ou menos todos na miséria em qualquer caso...). Isto pode até aumentar ligeiramente a procura e agir um pouco como o desejado jumpstart da economia...

Claro que em Portugal parece menos bom que na Alemanha: os salários já são tão baixos (se comparados com os rendimentos do capital), o trabalho é uma componente comparativamente pequena do custo das nossas exportações, na Alemanha tudo é subsidiado pelo Estado e há incentivos à formação (e.g., o resto do salário pode ser pago pelo Estado se o trabalhador investir o tempo em formação), e 'tá na cara que este bando de patifes não fará nada disso - para quê ter trabalhadores com formação, se podemos só ter trabalhadores mais baratos?
Também muito importante é saber se em Portugal isto funcionaria para contratar mais trabalhadores, ou se só para trabalhar menos, produzir menos, e por menos dinheiro... Não sei o que pensar quanto a isto.
Há ainda o facto de que grande parte das famílias portuguesas gasta grande parte do seu rendimento só em despesas "fixas" (casa, carro, transportes), e menos 20% de salário pode facilmente significar menos metade do que se pode gastar durante o mês.

Ainda assim, entre esta e a "mais meia-hora de trabalho", esta parece globalmente melhor.
Claro que quem trabalha não vai ver as coisas assim: a grande maioria dos portugueses, com a falta de dinheiro que têm, trabalharia 14 horas por dia se para isso lhes pagassem.
No entanto, é preferível que essas 14 horas sejam divididas por 2 pessoas a trabalhar 7 cada uma, com melhor produtividade, (ligeiramente) menos drama social, menos desemprego e menos desigualdade.

Filipe Tourais disse...

Tem muita razão, o anónimo. Foi o que fizeram também na grande depressão. Só que, como diz, e muito bem, em Portugal os salários são baixos e se 485 euros é miséria e fome, 388 euros é uma brutalidade. Em cima disto, temos a fiscalização que temos e duvido que a medida tivesse o impacto desejado: a realidade das horas extraordinárias não pagas já existe actualmente. Toda a gente a conhece, menos as autoridades competentes. Seriam mais horas a trabalhar à borla.