Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Les miserables

As aulas da rede oficial de ensino de Português no estrangeiro são asseguradas por docentes contratados e pagos pelo Estado português. A Constituição estabelece que incumbe ao Estado assegurar o ensino da língua portuguesa aos filhos dos emigrantes. Na Europa, mais de metade dos inscritos são alunos do 1.º ao 6.º ano de escolaridade. Cinco meses após o arranque do ano lectivo, perto de cinco mil poderão ficar sem aulas de Português na sequência das medidas de contenção orçamental. Várias centenas estão já nesta situação porque os professores em falta não foram substituídos. Os restantes foram já despedidos, como não havia dinheiro para mais, por telefone. Serão cerca de meia centena. O salário anual de 50 professores não chega para pagar nem o que o Estado português transfere para cada colégio de meninos ricos, nem metade do que a Universidade Católica recebe da mesma gordura. Mas emagrece-se a Língua dos filhos dos emigrantes. O português nas suas comunidades será em breve uma língua morta.


Por curiosidade, nas últimas eleições, nos círculos eleitorais da emigração, o PSD elegeu 3 e o PS 1 deputado. Votos úteis.

Aulas práticas sobre voto útil: os campeões da treta

"Só um grande esforço político do PS conseguiu que a maioria absoluta recuasse, eu diria que avançasse, ainda que de forma minimalista.” Mas que grande triunfo. O PS clama vitória nas negociações do OE que a sua abstenção, anunciada antes mesmo de conhecerem a proposta inicial do Governo, o impediu de fazer. Uma retumbante vitória minimalista nas minudências que o Governo decidiu alterar por sua própria iniciativa diz bem do que é o actual PS. Obteve uma vitória à sua medida, que é também a medida da derrota de Portugal enquanto sociedade e enquanto economia. Há deputados que não estão no Parlamento a fazer rigorosamente nada de útil? Há. Alguns deles ainda se gabam do grande esforço que fazem.

Ética social na austeridade

A empresa que forneceu as viaturas blindadas Pandur para o Exército e Marinha apresentou, em Novembro de 2004, uma proposta em que oferecia 705 milhões de euros de contrapartidas, mas o contrato assinado estabeleceu um valor de incentivos à economia de apenas 516 M€, ou seja, menos 189 milhões do que a oferta inicial. O Governo de Passos Coelho e Paulo Portas perdoou-lhes aproximadamente o mesmo valor que não perdoará aos portugueses na duplicação que aprovaram para as taxas moderadoras da Saúde.

A cópia é melhor que o original

Alguém tenta safar-se o melhor possível num julgamento em que está acusado de vários crimes trazendo à luz do dia documentos alegadamente originais que, a sê-lo, mostram que a desculpabilização do anterior carrasco da República no processo da sua controversa licenciatura foi avaliado pela Justiça com base em fotocópias. Tenho a certeza que será mera coincidência que o dia escolhido para a notícia seja o dia do debate e aprovação final global do Orçamento. O certo é que as atenções divergem para o caso da licenciatura de Sócrates, que involuntariamente ressuscita no túmulo para alimentar aquela crispação que já tinha ajudado Passos Coelho a conquistar o poder. Reaparece hoje em cena para ajudá-lo novamente a superar o original na destruição do nosso edifício económico e social. Porque é infinitamente bom. E é-o porque Sócrates era infinitamente mau. Isto parece uma história infantil.

Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

Chamem a polícia



O grupo LulzSec Portugal, responsável pela divulgação de dados de agentes da PSP, está a convidar hackers portugueses a juntarem-se em acções de ataques informáticos e de divulgação de dados, numa operação para arrancar a 1 de Dezembro. Visitei o site do grupo, de onde retirei o video junto. A confiança que me merecem este tipo de grupos foi confirmada pelo meu anti-vírus, que detectou software malicioso a tentar tomar-me conta da máquina. Não tolero a corrupção, não aceito que agentes policiais usem o uniforme que vestem para exercer arbitrariedades que estão nos antípodas de um Estado de direito, mas ainda gosto menos de heróis feitos na penumbra e encapados de justiceiros. O resultado desta guerra, e é de uma guerra que se trata, é uma lotaria que nos pode prejudicar imenso enquanto sociedade. Estamos diante de um foco de preocupação. É sintomático que o primeiro objectivo logo a seguir à convocatória tenha sido precisamente atacar a casa da democracia.

Morrer por decreto

"Já há quem se tenha disponibilizado para criar um centro para fazer transplantes de fígados em crianças, algo que não se faz em Portugal desde Julho. Desde aí, que os mais pequenos são encaminhados para Madrid. O Governo anunciou que o país voltará a ter uma solução para estes casos em breve." O que acabam de ler é um anúncio e não aparece por acaso. O DN noticiava, esta manhã, que uma criança de dois anos, de Braga, morreu, em Espanha, à espera de um transplante hepático, cirurgia que deixou de fazer-se em Portugal por decisão daquele que dá a boa nova. O Governo quer tranquilizar-nos com anúncios. "Em breve", decretaram-no, teremos novamente um país. Até lá, enquanto pagamos as taxas moderadoras de rico que decretaram para salários de pobre, morra-se, também por decreto.

Venha o diabo e escolha

Em plena Guerra Fria, a filha de Estaline protagonizou um dos mais embaraçosos incidentes diplomáticos de que há memória: trocou a URSS pelos EUA – o comunismo pelo capitalismo. Morreu no passado dia 22 de Novembro, aos 85 anos, no estado americano do Wisconsin. Ter morrido de velhice e em liberdade será o consolo do fervor capitalista. Ter morrido na miséria e no isolamento, a desforra do fanatismo comunista. Pergunto-me eu, que não me revejo em nenhum dos lados, se há escolha possível entre uma liberdade esquartejada por um regime e outra desperdiçada numa solidão miserável. Entre uma e a outra, prefiro usar a liberdade de não ter que escolher nenhuma delas. Entre regimes que, de alguma forma, ou subalternizem ou não promovam a dignidade humana, que venha o diabo e faça o favor de escolhê-los para si.

Quem vai à guerra

Um grupo intitulado Lulzsec Portugal terá acedido ilegalmente aos computadores do Ministério da Administração Interna (MAI), copiado e divulgado os dados pessoais de mais de uma centena de efectivos da PSP a trabalharem em três esquadras de Lisboa. Num texto resumido, acompanhado do endereço onde os dados pessoais podem ser consultados, os hackers ameaçam vir a divulgar os elementos de todo o efectivo da PSP, argumentando que tal acontece como represália pelos actos de violência que terão sido praticados contra pessoas que, no dia 24, participaram, em frente à Assembleia da República, no protesto da greve geral. A Polícia apareceu em força, esta manhã, em todas as rádios e televisões a vitimizar-se por este crime que afecta a segurança tanto de bons como de maus profissionais. O início desta história que, para o bem da nossa democracia, nunca deveria ter acontecido, pode ser lida, por exemplo, aqui. É a versão que não passa na comunicação social convencional aliada das verdades oficiais. A democracia também estrebucha ao sabor das percepções que ajuda a condicionar.

Gostei de ler: Bruno Nogueira

(Áudio aqui) «Há velhinhos, há velhinhos chatos, há velhinhos que ficam ainda mais chatos, há aguardentes velhas, e depois há o Vasco Pulido Valente. Pois bem, o Vasquinho tem dedicado as suas últimas crónicas ao exercício de destruição do panorama teatral português, fazendo questão, não poucas vezes, de provocar quem lê. Porque no fundo, o Vasco nem sabe bem o que pensa sobre alguns temas, mas sabe que provocando e sendo agressivo quanto baste, chama a atenção para ele e sobrevive para além do seu prazo de validade. E eu vou-me deixar voluntariamente cair na armadilha. Há duas coisas sobre as quais Vasco Pulido Valente não devia falar: uma delas é o teatro, e a outra é agua mineral. E porquê? Porque há muito tempo que não se aproxima de nenhuma das duas coisas. Diz então o Vasquinho, na sua última crónica que, e passo a citar: “tirando antigamente a revista, e hoje o La Féria, não existe, nem nunca existiu um público de teatro em Portugal”. Meu caro, eu lamento desapontá-lo mas não me parece digno de uma pessoa supostamente tão inteligente como o senhor falar de uma coisa que certamente não confirmou. O jornal “Público”, onde você escreve, certamente que lhe pode fornecer informação necessária para não se pôr a jeito. Você é capaz de melhor do que isso. Eu não acredito, mas o seu cão se calhar acredita. Vou-lhe falar a titulo pessoal, assim como você o faz. Devo-lhe dizer que estive três meses com um espectáculo em cena, e que esses três meses estiveram sempre esgotados. Devo-lhe lembrar também que a sala leva 640 pessoas. E lembro-lhe ainda que fazia espectáculo de quarta a domingo. Certamente que será bom a contas para chegar a conclusões. Das duas uma: ou vai avisar essas pessoas que elas não existem, o que até é chato porque vem aí o Natal, ou então responde a uma pergunta simples: sabe como se chama a um conjunto de pessoas que enche uma sala de espectáculos? Público. Vê? Hoje aprendeu uma palavra nova. Não tarda nada consegue ir ao teatro sozinho, como os adultos.


Defende ainda que há 37 anos que não há nenhuma obra decente de dramaturgia em português. Quanto a isso vamos fazer o seguinte: vamos todos fazer de conta que ninguém leu isso, porque uma coisa é ser eu a escrever este texto, outra coisa é ser o José Luís Peixoto, a Luísa Costa Gomes, o Jacinto Lucas Pires, o Miguel Castro Caldas, o Tiago Rodrigues, o Abel Neves, etc. E aí era mais complicado, mas só por um motivo: porque você não ia saber de quem é que estava a receber o texto. Sabe porquê? Porque estas pessoas também escrevem teatro, e para as conhecer, tem de ir lá. Mas não se preocupe que se lhe causar incómodo nós desenrascamos umas luzes e umas roupas e fazemos-lhe uma apresentação na sala de sua casa. Não é a mesma coisa, mas sinto uma sensação de dever cumprido. Mais ou menos como aqueles velhotes do interior que são levados a ver o mar, que até então julgavam ser impossível existir, por ignorância.


Diz ainda que “a gente do teatro ficou muito indignada com a redução dos subsídios, como se os subsídios fossem intocáveis e o teatro merecesse um respeito especial, que não merecem, por exemplo, a saúde, o funcionalismo público ou as pensões”. Vou-lhe aqui abrir outro lenho na sua vasta intelectualidade: o teatro merece um respeito especial. Bem como a saúde, o funcionalismo público e as pensões. E não é por também ser a minha profissão que o defendo, nem por achar os actores “prima donnas”. É porque o teatro, caro Vasco, nunca foi tratado como sendo especial em Portugal. E sempre conseguiu ser. É das poucas profissões em que muitos actores quase pagam para trabalhar, para fazerem peças que também abordam a saúde, o funcionalismo público e as pensões, para que depois o público disfrute e pense ou não sobre isso. E isto pode não ser especial para si que escreve colunas de opinião, mas para quem gosta de teatro, é.


Termina ainda a sua crónica a dizer que “está na altura de acabar com essa ridícula ilusão que em Portugal se chama Teatro”. Sabe Vasco, eu aqui até lhe respondia, mas quando começa a mexer com doenças de cariz mental eu tenho tendência a ficar calado e a respeitar, porque faz-me muita impressão. Resta-me deixar-lhe um abraço, e as rápidas melhoras, que se já nem o seu cabelo quer viver em cima da sua cabeça, imagino a confusão que vai aí por dentro. E sabe: há a inteligência dos estudos e dos livros, e essa eu não ponho em causa, nem o seu currículo me deixa. Mas depois há a inteligência de vida, que não se aprende a ler, mas a sair de casa. E para essa, caro Vasco, lamento mas não me parece que tenha público. Nem mesmo o da revista e do La Féria.» - Bruno Nogueira

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

Aulas práticas sobre voto útil: Cultura


Ao contrário da proposta inicial, as actividades culturais vão pagar taxa intermédia de IVA (13 por cento). Assim decidiram PSD e CDS e, escusado será dizê-lo, com a abstenção do PS. Como curiosidade, o esmero moralista da dupla governativa pôs o futebol lado-a-lado com espectáculos de pornografia à taxa máxima de 23 por cento, mas ainda sem direito a umas quantas centenas de Avé Maria ou, na sua vez, uma qualquer doação coerciva à Igreja da Paróquia mais próxima a aplicar aos seus consumidores. Já estivemos mais perto, mas também bastante mais longe. E eis como a Cultura também deixou de ser um bem de 1ª necessidade.


(editado)

Aulas práticas sobre voto útil: ladrões


A votação das alterações de última hora propostas pela maioria PSD-CDS em relação aos cortes nos subsídios revelou um volte-face da parte do PS. No último momento, em vez de votar a favor, o grupo parlamentar socialista votou contra em partes da proposta e absteve-se noutras.Uns foram à horta enquanto outros ficaram à porta. E o Bloco de Esquerda, PCP e PEV votaram contra mais este assalto.

A demagogia meteu-se num Audi

A semana começa com outra boa notícia. A fada madrinha do Ministro Pedro Mota Soares transformou a Vespa que o transportou à tomada de posse num Audi de 86 mil euros. A má notícia é que a fada madrinha somos todos nós. Enfim, ética social na austeridade, ou lá o que é.

Escuro ao fundo do túnel

1. Em nota publicada esta Segunda-feira, a Moody's, que recentemente advertiu que a França poderá perder o seu triplo A, caso persistam os elevados custos de financiamento da sua dívida, indica claramente que nenhum país, mesmo os que se consideram sólidos, como Holanda, Áustria, Finlândia ou Alemanha, está imune a um eventual corte do 'rating'."O agravamento ininterrupto da crise da dívida pública e dos bancos da Zona Euro ameaça a qualidade do crédito de todos os países europeus", escreveu a agência. "Embora a Zona Euro no seu todo possua uma força económica e financeira enorme, a fraqueza das suas instituições continua a dificultar a resolução da crise e a pesar sob as classificações atribuídas à dívida dos seus países membros, lê-se na nota.


2. No próximo ano, a economia portuguesa deverá contrair 3,2%, antecipa a OCDE. Esta é a pior previsão feita por uma organização internacional até à data. A taxa de desemprego vai subir mais do que o previsto e ultrapassará os 14% em 2013.



As revoluções também se fazem com votos (continuação)


O tal país que mandou o FMI às malvas, prendeu os banqueiros delinquentes, promoveu a reforma antecipada da parcela da sua classe política que se dispunha a vender o seu povo à agenda neoliberal e colocou os credores à espera. A Islândia, lembram-se? De acordo com estimativas do próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), a Islândia vai fechar 2011 com um crescimento do PIB de 2,5%, prevendo-se novo crescimento de 2,5% para 2012 – números que representam quase o triplo do crescimento económico de todos os Estados-membros da União Europeia – que em 2011 ficarão pelos 1,6% e que descerão para os 1,1% em 2012. A taxa de desemprego no país vai ainda descer para os 6%, contra os actuais 9,9% da zona euro, que vai coleccionando novas vítimas da agenda de retrocesso civilizacional à medida que o tempo passa e uma solução é retardada o mais possível para que o neoliberalismo tenha tempo para impor as suas leis. Números a ter na ponta da língua para quando se ouvir falar em novos cortes salariais, retirada de direitos sociais e laborais, desorçamentação de serviços públicos, aumento do horário semanal de trabalho, supressão de feriados e todos os demais “sacrifícios necessários” que a imaginação deles se lembrar de alvitrar. Outro caminho é possível e bastante mais eficaz, eles é que não estão nada interessados em perder a oportunidade de reconfigurar as sociedades europeias alinhando-as ao modelo de escravização asiático. Os islandeses arriscaram e disseram NÃO. Já estão a colher os frutos.

Domingo, 27 de Novembro de 2011

Orelhas de Burro (especial)


O Botas é que haveria de ficar radiante. O fado já é património imaterial da humanidade. Gosto de fado, fico feliz, mas acho que esta estranha forma de vida que vibra com estas nomeações e se resigna quando é espremida até ao tutano mereceria também, pelo menos, uma menção honrosa que a consagrasse oficialmente como património material dos que com ela enriquecem. Assim qualquer coisa como “a cantar é que te deixas levar”. O resto é futebol, Fátima e outra começada por F, que não digo por ser pecado e dada a hora festiva.

Por falar em auditoria


Oito anos e milhares de páginas depois de o Ministério Público (MP) junto do Tribunal de Contas (TC) ter acusado 26 ex-responsáveis da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo de terem feito, entre 1996 e 2001, pagamentos indevidos à sociedade gestora do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), o juiz-conselheiro Carlos Morais Antunes ainda não decidiu se os leva ou não a julgamento. Em causa está o contrato que o Estado assinou com o Grupo Mello em 1995 (Cavaco Silva), para a gestão do hospital, a primeira parceria público-privada na saúde em Portugal, que recebeu o visto prévio do TC "sem documentos essenciais" e que, como admitiu em 2003 o então presidente daquele tribunal e actual provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa, não deveria sequer ter sido visado. O Estado continua à espera de 60 milhões de euros. Não percebo tanta estranheza. Ver a Justiça a engavetar processos que envolvam gente ilustre com fortes ligações ao poder político tornou-se a norma, tal como as parcerias público-privadas que, apesar de ruinosas quer do ponto de vista gestionário, quer do da qualidade dos serviços prestados, por serem o modelo perfeito do actual e dos anteriores governos, são a norma que querem para a Saúde nos tempos mais próximos. E, pelo menos até que se faça a tal auditoria à dívida que traga à luz do dia o nome de todos os tentáculos deste polvo que andou a engordar acima das nossas possibilidades, a norma será andarmos assim, de suspeição em suspeição, a engordá-lo mais e mais. Estamos todos às ordens do polvo..

Orelhas de Burro

Dreamers Inc. - "Midnight Summer Dream"

Sábado, 26 de Novembro de 2011

Sabe bem ganhar assim

Foi um derby fabuloso, empolgante, com emoção até ao fim. O Sporting dominou a maior parte do tempo mercê, primeiro, de um esquema táctico que, através de uma pressão muito alta, amarrou os laterais e secou a transição ofensiva do adversário, a seguir, pela superioridade numérica em que se viu depois da expulsão de Cardozo e, finalmente, pela incomparavelmente maior condição física que soube impor um autêntico sufoco ao conjunto encarnado nos últimos minutos. Pelo meio, porém, o golo do Benfica, obtido mesmo no final da primeira parte, premiou a equipa que, apesar de tudo, foi a que teve as melhores oportunidades. Vitória importante, por 1-0. Sabe bem ganhar assim.

Luxos de um Estado que pede esmola

A Associação Ateísta Portuguesa escreveu uma carta aberta ao Primeiro-ministro a solicitar o fim do tratamento de privilégio em sede fiscal que isenta a Igreja Católica do pagamento de IMI e de imposto sobre os rendimentos. As instituições de ensino superior estão a começar a explorar como alternativa aos cortes do financiamento público campanhas de angariação de fundos junto de alunos e ex-alunos desenvolvidas de forma profissionalizada por gabinetes especializados no estreitamento da relação com “potenciais interessados”, de forma a «explorar o sentimento de "gratidão" com a universidade em que se formaram». A Universidade Católica, embora não sendo pública, recebe um generoso financiamento estatal. E PS e Governo estão a estudar “fórmulas para aliviar cortes salariais” que não passam pelo englobamento dos rendimentos de propriedade e de capital em sede de IRS que poria os mais ricos, não a pagar a crise, a pagar tanto como quem vive exclusivamente dos rendimentos do seu trabalho.


Resumindo: um Estado que já pede esmola dá-se ao luxo de subsidiar e isentar os mais ricos e não hesita em sobrecarregar os que menos podem. Sublinhe-se que este absurdo não é apenas uma mera injustiça: a tributação dos que mais podem tem um efeito multiplicador recessivo (via consumo) quase nulo, ao passo que o agravamento fiscal sobre as famílias tem um efeito multiplicador recessivo enorme. Nada disto foi encomendado pela troika externa. Essa desculpa não vale para justificar a austeridade selectiva que é uma opção da responsabilidade exclusiva da troika nacional que nos espreme. Temos duas a fazê-lo. Voto útil, lembram-se? A utilidade desfrutada por aqueles que desempenham o papel de cantar o refrão que diz vivermos acima dos seus intocáveis enriquecimentos. Somos e seremos sempre o país que quisermos ser.

Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Surto de estupidificação em Portugal sem risco de contágio à Grécia

Quando li um título que dizia “surto de malária na Grécia”, imediatamente imaginei que no desenvolvimento da notícia se retratasse um Estado que encolheu demais na recolha de lixo e no sistema de Saúde, como realmente aconteceu por lá e está a acontecer por cá. Enganei-me. Fiquei apenas a saber o que completava o título: “sem risco de contágio a Portugal”. A Grécia é mesmo aqui ao lado. Nada como andarmos bem informados.



Nas mãos da especulação financeira

Portugal vai pagar à troika, composta pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, um montante em juros que equivale a quase metade (44 por cento) do dinheiro que o país pode receber ao abrigo dos empréstimos do programa de “assistência financeira”. Como escrevi aqui, em vez de serviços públicos de luxo, os nossos impostos passaram a pagar juros de luxo. O saldo orçamental sem o serviço da dívida (sem estes juros) é superavitário em cerca de +0,7 por cento. Vivemos acima das nossas possibilidades? Sem dúvida alguma que sim. PS, PSD e CDS puseram-nos a trabalhar para a especulação. A dívida que eles assinaram de cruz, repetem-no, não pode ser renegociada. E tem que ser renegociada.

Campanha "Unidos contra os Àcaros" (tradução: a greve foi um sucesso)

Um ou mais grupos de hackers tentaram entrar na quinta-feira nos sites dos ministério das Finanças e o da Administração Interna, e também no da PSP. Ao que o PÚBLICO apurou, os hackers não são portugueses e pertencem a movimentos anarquistas localizados no Sul da Europa.

Balanço de uma greve política

Dois elogios

Dado a tipologia de notícias em causa ter um prazo de validade reduzido e ser utilizada sobretudo para incendiar aquela parcela de opinião pública mais permeável à sacrificologia salazarenga, já poucos se lembrarão da notícia que pintou todas as manchetes do início do ano, quando o Governo regional açoriano se negou a aplicar os cortes salariais aprovados pelo Governo da República, por sinal do mesmo partido, à procura comandada pelos salários dos funcionários da Administração Pública dos Açores. Aproveito a notícia de mais uma boa iniciativa legislativa, um novo Estatuto do aluno para a região, que efectiva a obrigatoriedade do ensino através da responsabilização dos pais aplicando multas àqueles que permitam faltas e indisciplina aos seus filhos e a suspensão de apoios sociais aos que não as paguem, para constatar a boa gestão que permitiu chegar ao final do ano sem a calamidade orçamental que, quando a notícia do não corte explodiu, os mais obedientes se apressaram a vaticinar. Se calhar, o problema até está nos salários dos funcionários públicos, mas não pelos motivos alardeados. Nos Açores, o comércio não fecha como no Continente e a preservação da actividade económica ajuda no objectivo orçamental. Este resultado, tal como a orientação política que originou, não se encaixa no paradigma oficial de virtude. O elogio, naturalmente, não cabe nas páginas da imprensa panfletária.

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Sim, farei greve


Durão Barroso, o tal português que os patrioteiros se orgulham de ver na presidência da Comissão Europeia, diz que quer vigilância apertada sobre o conjunto de países, entre os quais o seu, para além do período de reconfiguração social que os respectivos Governos acordaram implementar a troco de um empréstimo que alimenta os anteriormente contraídos a juros que crescem ao ritmo das suas recessões assim induzidas.


Azar. Durão Barroso escolheu mal o dia para repetir a fábula dos bons e dos maus alunos nas vestes do disciplinador que nem nos dias que correm serviriam ao fantoche tecnologicamente mais sofisticado. É que a Alemanha foi hoje ao mercado financiar-se e apenas conseguiu vender 3,664 dos 6 mil milhões de euros de obrigações a dez anos que pretendia no leilão desta manhã. Os mercados, tantas vezes usados como álibi para a implementação de uma agenda política de regressão social e concentração de riqueza, desta vez quiseram dizer à senhora Merkel que, com dívidas ao preço a que pôs a pagar países como o nosso (12 por cento), a Grécia (27 por cento) e com o promissor negócio proporcionado pelo galope dos juros italianos e espanhóis (7 por cento), os especuladores têm opções muito mais rentáveis do que os 1,98 por cento que a Alemanha pagou pela emissão de hoje. A França e a Bélgica também já vão a caminho do fosso. O euro já não escapa. É uma questão de tempo.


E isto a propósito da greve de amanhã. É óbvio que vou fazer greve. Estou farto de discursos moralistas que nos apontam o caminho da pobreza como meio de purificação dos pecados que não cometemos ao mesmo tempo que abrem o caminho da fortuna a delinquentes que, eles sim, tem responsabilidade na origem e nos desenvolvimentos da crise que vivemos. Sem o correspondente aos juros que Portugal paga pela sua dívida, o saldo orçamental seria positivo, cerca de +0,7 por cento do PIB. Com os juros é negativo em 7, 8, 9 ou o que eles quiserem por cento. E a dupla Passos Coelho e Paulo Portas não sabe fazer mais do que sacrificar o seu povo aos interesses que têm como porta-vozes Angela Merkel e Nicolas Sarkozy.


Vivemos acima das nossas possibilidades? Certamente que sim. Os impostos que pagamos dariam para termos serviços públicos e protecção social de luxo. Na sua vez, porque a Europa manda e eles obedecem sem um ai, temos juros da dívida de luxo. Com os lucros dos monopólios naturais teríamos serviços públicos e protecção social de luxo. Da mesma forma, na sua vez, porque eles querem, temos uma burguesia de luxo com direitos naturais de enriquecimento alargados quer por uma legislação laboral que nivela os rendimentos do trabalho pelo mínimo, quer pela completa isenção dos impostos que nos fazem pagar na sua vez, uma aristocracia republicana que, para cúmulo, ainda goza de inteira liberdade para fazer toda a espécie de falcatruas, com e sem paraísos fiscais.


Sim, faço greve. Este caminho que levamos vai ter que ser percorrido em sentido contrário e, quanto mais depressa for parado, menor e menos penoso será o regresso. Teria vergonha se ficasse de braços cruzados a ver o meu país a afundar-se. Sentir-me-ia um palerma se ficasse quietinho, a convencer-me que o caminho da Grécia não será também o nosso, à espera de ser ainda mais e mais apertado. Teria vergonha de não retribuir apoiando uma iniciativa organizada por quem, bem ou mal, não é hora de discuti-lo, tem como trabalho diário dar a cara por mim. Teria vergonha de fazer greve com o dinheiro dos outros. Teria vergonha de valorizar mais o salário de um dia de trabalho do que o direito perdido a um futuro. Sim, reclamo ter de novo o direito a um futuro. Tenho que fazer greve. Sim, farei greve. Que seja um enorme sucesso, para o bem de todos nós.

Fiiiiiiiixe!

Eu sabia que hoje, sim ou sim, o FC Porto daria uma alegriazita a este benfiquista: se perdesse, o treinador seria despedido e, se ganhasse, o Vítor Pereira aguentar-se-ia no lugar ainda mais uns tempos. Aconteceu a segunda. Fiiiiixe!

Obama, prémio Nobel da treta

Uma afegã de nome Gulnaz, de 21 anos, que está na prisão a cumprir uma pena de 12 anos por ter sido violada por um homem casado , enfrenta um terrível dilema: ou permanece na prisão com a filha dessa violação, ou contrai matrimónio com o agressor para poder sair em liberdade. A única forma de uma mulher afegã ultrapassar a “desonra” de ter sido violada ou, o que por lá é o mesmo, de ter incorrido em adultério, é casar-se com o seu atacante. Agora, caso aceite fazê-lo, como parece, correrá perigo de vida: tanto a família do atacante como a sua própria poderão querer matá-la por ter desonrado o nome familiar.


Ao mesmo tempo que contenho a revolta, salta-me a pergunta: os americanos e amigos estão no Afeganistão a fazer o quê? Obama foi prémio Nobel da Paz. Podia e não usou as armas que levou para lá para abolir a legislação bárbara que produz histórias horripilantes como esta. As armas não servem só para enriquecer quem as produz e trafica.

Um manifesto improvável

“Não podemos assistir impávidos à escalada da anarquia financeira internacional e ao desmantelamento dos estados que colocam em causa a sobrevivência da União Europeia”, lê-se numa espécie de manifesto alegadamente dirigido “à mobilização dos cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático como forma de combater a crise”. Não poderia estar mais de acordo. Contudo, olhando para os 9 signatários, constatamos que este seria um manifesto improvável caso o PS estivesse no Governo a fazer precisamente o mesmo que desperta tão tremendo activismo. Ainda no início de Abril, dois meses e três dias antes das eleições, o activista Mário Soares, na ocasião em manifesto individual, convidava os portugueses a não terem medo do FMI. O problema talvez não seja tanto a anarquia financeira que o PS-poder sempre teve tanta dificuldade em questionar e o desmantelamento do edifício social europeu, no qual se inscreve o português, e sim a chatice de não ter o maço na mão para ver a maçonaria mais chegada a fazer uma demolição “de esquerda”. É duro estar na oposição. Estar na abstenção, então, é um quebra-cabeças.


(editado)

O condomínio Regabofe

Seguindo as melhores práticas de gestão de condomínios, a Assembleia Regional da Madeira, por proposta do PSD, ontem aprovada com votos contra de toda a oposição, decidiu que, nos plenários, “os votos de cada partido presente são contados como representando o universo de votos do respectivo partido ou grupo parlamentar”. A partir de agora, basta que esteja presente um deputado para que fique assegurada a votação de todos os demais da sua bancada, cuja presença deixa de ser necessária. O absurdo fez soar os alarmes dos vizinhos do Tribunal Constitucional. Pode ser que o vizinho Cavaco Silva se digne a acordar o vizinho Presidente da República. Desta vez, a barulheira é tanta que não tem como fingir que não deu por tão tremendo regabofe.

O sexto dente

Canino não será, os herbívoros não têm caninos. Ouvi dizer que o siso nasce bastante mais tarde. Talvez um molar que mói, mas pode ser também um incisivo. Não sei.. Quem perceba do assunto, que dê o seu veredicto. O país do Burro nasceu há seis anos. A gerência apenas garante que é o sexto dente. Agradecimentos a todos os que o alimentam com as suas visitas. Sirvam-se à vontade. As cenouras são por conta da casa.

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Em grande

O Old Trafford emudeceu com a classe do futebol personalizado que o Benfica ali apresentou esta noite para arrancar o primeiro empate (2-2) da sua História naquele terreno. Teria sido vitória, não fosse a validação do primeiro golo do Manchester United, obtido em posição irregular. E a qualificação para a fase seguinte, hoje garantida, teria sido uma alegria maior se Luisão não tivesse saído lesionado, como saiu, arredando-o da recepção ao Sporting do próximo Sábado. Vai fazer falta.

Na vez da demissão que se impunha, uma democracia doente

Um "inquérito urgente" para apurar responsabilidades na fuga de informação no caso da detenção de Duarte Lima e do seu filho foi ordenado esta tarde pelo procurador-geral da República, lê-se num comunicado da PGR que evitou que soubéssemos do dito através de nova fuga de informação. Pinto Monteiro prefere, assim, manter-se agarrado ao cargo, quando o incidente em causa é apenas um entre demasiados que há muito fizeram expirar o seu prazo de validade.


De forma alguma quero com isto dizer que apoio aquela sujeira a que todos tivemos a infelicidade de testemunhar. O que penso, sim, é que Pinto Monteiro já deu provas mais do que suficientes de que é o homem errado no cargo errado. Quando assim é, o mais recomendável é dar o lugar a outro.


Note-se que a substituição do PGR apenas poderá acontecer por decisão do próprio. Depois da detenção de Duarte Lima, o Presidente da República, que é quem tem o poder de o nomear e exonerar , por também estar envolvido até às orelhas na chafurdeira BPN que motivou quer a detenção , quer o comunicado, está atado de pés e mãos para pôr ordem na barraca. E que barraca. Um PR diminuído e um PGR completamente desautorizado são mais sinais, a somar a muitos outros, de uma democracia que objectivamente não vive os seus melhores dias.

E lá seremos obrigados a eliminar o Marítimo

Podia ter saído o Sporting, que receberá o Belenenses, mas saiu o Marítimo. E fora. O sorteio da Taça não foi lá muito amigo. A curiosidade é o Leixões-Académica. Outra equipa da cidade do Porto no caminho da Briosa, um adversário mais difícil do que o anterior dado estarmos numa fase mais adiantada de uma competição a eliminar. Na fase seguinte, o Benfica joga com o vencedor do derby lisboeta.


Actualização (02.12.11): bem me lixei.

Roubar pensionistas para que os realmente ricos voltem a safar-se

Haverá muita gente a rejubilar com a proposta dos partidos do Governo de aumentar substancialmente a “contribuição extraordinária” sobre pensões de reforma de valor superior a 5030,64 euros mensais. Eu não. Com uma ressalva: as pensões auferidas por quem descontou menos do que o tempo legalmente fixado para toda a gente como requisito obrigatório para ter direito a essa pensão. Mas retirar extraordinariamente parte do direito conquistado através de descontos acumulados durante uma vida inteira é um roubo quer quando a base de incidência desses descontos é pequena, quer quando o valor do desconto mensal é maior porque a base de incidência também o é. E é uma injustiça tremenda pôr quem descontou mais a receber tanto como quem descontou menos.


É mais do que óbvio que é precisamente aquele júbilo populista que o Governo procura despertar com o anúncio colocado em toda a imprensa desta manhã. E, enquanto as alminhas se entretêm com a euforia das suas invejas reconfortadas, saem de cena as propostas de englobamento de todos os rendimentos para a determinação do IRS, incluindo dividendos, juros e outros rendimentos de capital, que faria com que os rendimentos de trabalho deixassem finalmente de estar condenados a pagar sempre mais do que os da fortuna e do capital, a tributação de transacções com paraísos fiscais, que o Governo chegou a inscrever no documento inicial mas que retirou depois, e a tributação de todas as mais-valias urbanísticas que decorram de actos administrativos, como alterações habilidosas aos PDM, que poria também travão à corrupção autárquica.


Parece que vão novamente conseguir que os realmente ricos se safem outra vez de contribuir nesta hora de aperto que vive a sociedade que os enriqueceu.

Sacrifícios para que te quero

«Apesar de acreditar que "o euro vai sobreviver de uma forma ou de outra", Scammell antecipa que Portugal vai entrar em incumprimento no curto prazo e que a Grécia vai abandonar a união monetária algures nos próximos três anos.»

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

O medo infunda, infunda

Em sede de Comissão Parlamentar do Orçamento, referindo-se à revisão das tabelas salariais da função pública, Vítor Gaspar afirmou que o Governo não tem qualquer plano nem nenhuma intenção de submeter qualquer iniciativa nessa matéria. E complementou: "a especulação pública em torno desta matéria é completamente infundada". Já tinhamos um país a afundar, temos agora também um Secretário de Estado a infundar, o da Administração Pública, Hélder Rosalino. E na Quinta temos uma greve geral. O medo infunda? Infunda, pois. O Ministro infunda o seu Secretário de Estado e este não se demite. Esta gente está habituada a infundar. Com razão, há pouco, no facebook, circulava um lembrete que alertava para a importância de não nos esquecermos de colocar todo o Governo no campo "dependentes a cargo" quando preenchermos a declaração de IRS deste ano.

O lápis azul do liberalismo

O canal generalista que restar na órbita da RTP depois da venda de um dos canais não terá publicidade comercial, anunciou hoje o ministro Miguel Relvas, o tal dos negócios na órbita BPN. Aumentam os impostos sobre bens alimentares, electricidade e gás, roubam subsídios de Férias e de Natal e vandalizam serviços públicos para equilibrar o Orçamento. Mas as receitas do Estado deixam de ser importantes quando há proveitos que fazem falta ao enriquecimento dos amigos da Ongoing, Prisa, Balsemão e outros a quem depois possam ameaçar com a retirada do filão caso o serviço de informação que forneçam não seja o mais agradável. O lápis azul desta espécie de liberalismo também é o nosso dinheiro.

O Natal laranja e o Ano Novo BPN

Três milhões de euros para iluminações e fogo de artifício: escandaliza pela quantia.


Três milhões em iluminações e fogo de artifício na Madeira: a Madeira vive do turismo e é famosa pelo espectáculo de fogo de artifício do final do ano, um produto que vende tão bem ao ponto de esgotar a oferta hoteleira da ilha. Haveria que averiguar se as receitas fiscais e o emprego sazonal gerado compensam de alguma forma um investimento tão elevado.


Mas três milhões, que afinal são cinco, o quíntuplo da proposta mais cara no concurso público aberto para o efeito, em iluminações de Natal e fogo de artifício na Madeira por ajuste directo à empresa que fornece o serviço há 15 anos consecutivos, por sinal a mesma que assegura também as campanhas eleitorais do PSD local, pertencentes a um ex-deputado do partido, têm uma explicação com ligações ao BPN. Por alguma razão, ou muitas mesmo, Alberto João Jardim é tratado pelo PSD nacional como o fardo mais leve do mundo. Até que se faça uma auditoria à dívida, continuaremos sem saber o que pagamos. Para já, ficamos a saber que andam a cortar salários e serviços públicos para isto:


«Os últimos concursos públicos para as iluminações de NATAL e queima de fogo do fim de ano têm ido parar ao Tribunal Administrativo do Funchal, com vários candidatos a tentarem a sua impugnação por discordarem das escolhas do júri. Mas para não comprometer a festa, o Governo Regional (que em 2010 desviou verbas da reconstrução da região para as festas de NATAL) decidiu assumir a escolha, com recurso ao ajuste direto.


Os custos da festa só baixaram a partir de 2006, quando o Tribunal de Contas determinou a obrigatoriedade de concurso público. No relatório da auditoria então feita, o Tribunal apontou irregularidades e censurou a falta de transparência na adjudicação das iluminações, acusando o Governo Regional de favorecer "sempre", desde 1996, a SIRAM, também responsável pela logística das campanhas eleitorais do PSD.


A SIRAM contou com o apoio governamental na expropriação de terrenos em Porto Santo para a construção do Colombo's Resort, parada desde Janeiro de 2009 por dificuldades financeiras relacionadas com a crise no BPN. Neste projeto turístico de luxo, Sílvio Santos, empresário e ex-deputado do PSD-Madeira, tinha como parceiro Joaquim Coimbra, acionista daquele banco e ex-dirigente nacional do PSD.»

Espanha: mudar as moscas para manter a austeridade

Quando se torna imperceptível quem ganha e quem perde caso determinada força partidária vença umas eleições e uma ou várias outras as venham a perder, as mesmas transformam-se em pouco mais do que um mero pró-forma tornado obrigatório pela democracia respectiva. Foi o que aconteceu nas eleições espanholas de ontem. Na campanha oferecia-se austeridade ou austeridade e, como não será difícil de imaginar, naturalmente, venceu a austeridade.


A democracia espanhola é apenas mais um exemplo onde o maior partido de esquerda se prostituiu ao liberalismo e, ao fazê-lo, tornando-se uma imitação com o sabor a fraude que tem tudo o que não é genuíno, foi justamente condenado nas urnas a quatro anos fora do poder – recuso-me a utilizar a palavra “oposição” - a encher balões com a violência de discursos vazios.


O resto do esvaziamento democrático espanhol encontramo-lo num sistema eleitoral e numa comunicação social que, bastante mais do que os nossos, acentuam o seu bipartidarismo crónico ao qual, ainda assim, conseguiram escapar o CIU (nacionalistas catalães), com 21 mandatos e uma Esquerda Unida a festejar a subida vertiginosa dentro da insignificância, de 2 para 11 mandatos, a tornar-se a quarta força partidária, apesar de ter obtido cerca de 1 milhão e 700 mil votos, quase o dobro dos votos conseguidos pelo terceiro em mandatos.


Desta forma, o resto do desmantelamento social e económico de Espanha iniciado pelo PSOE está agora nas mãos de um PP com maioria absoluta na Câmara baixa, não obstante não ter obtido mais de metade do total de votos. Supostamente, o resultado acalmaria os mercados. Os espanhóis que deram o seu voto ao PP com base nesse pressuposto que lhes foi buzinado durante toda a campanha eleitoral acordaram com os juros da dívida espanhola a bater no número mágico que anuncia a chegada da troika: o regente do próximo protectorado FMI “pelo menos” não será do PSOE.

A democracia continua à espera


O Governo interino do Egipto apresentou a demissão ao Conselho Supremo das Forças Armadas, depois de violentos confrontos na Praça Tahrir, no Cairo. O Exército aceitou a demissão.


A praça Tahrir deixou de ser um ponto de passagem. A cada dia que passa, há mais tendas, cobertores, pontos de primeiros socorros, faixas e bandeiras no passeio central da rotunda. Se a polícia voltar a entrar na Tahrir, como domingo, quando matou 33 manifestantes e queimou tendas e motas abandonadas, vai encontrar muito mais para destruir.

Aulas práticas sobre voto útil: Saúde

Estão, certamente, novamente a gozar connosco. A notícia que se repete é a de que os doentes vão ter a liberdade de escolher o hospital prestador de cuidados de saúde independentemente do seu local de residência, mas o documento onde se lê a proposta é o mesmo que propõe também a concentração de unidades de saúde em mega-hospitais. O gozo continua com o objectivo proposto de afastar doentes chamados “não urgentes” das urgências hospitalares para Centros de Saúde desapetrechados e de substituir cuidados médicos por cuidados de enfermagem. E completa-se com a insistência no utilização do mesmo modelo que se identifica como um dos principais causadores da situação de endividamento a que o país chegou, as Parcerias Público-privadas, para financiar as unidades de Saúde a construir.


Resumindo: vamos ter inteira liberdade para escolher o hospital independentemente da nossa residência, mas vão dar-nos à escolha mega-hospitais com doentes amontoados ou então desviar-nos para centros de Saúde sem meios técnicos e humanos onde seremos tratados por um enfermeiro em vez de um médico. E as PPP são para continuar a enriquecer os amigos. O SNS é para continuar a desmantelar sem que deixe de proporcionar bons negócios aos “parceiros” privados.


Domingo, 20 de Novembro de 2011

Muy nuestros hermanos

Enquanto aguardamos pelos resultados finais e definitivos das eleições espanholas, que apenas terão como incógnita a margem entre os dois partidos que se vão alternando no poder, encontramos notícias que, tal como acontece por cá, não têm o mínimo de influência na cruzinha que a maioria predestina ao partido da sua clubite, aconteça o que acontecer e para evitar uma “desgraça maior”. Desta vez, para além dos quatro anos de calamidade económica e social que significa uma maioria absoluta daqueles fanáticos do PP, a desgraça menor é ver o poder cair nas mãos do lobby do narcotráfico. Detalhes sem relevância eleitoral quase nenhuma noutro país com uma Justiça esquisita semelhante à nossa também ao nível das escutas telefónicas.


«A entrevista ao preso Laureano Oubinha na revista Vanity Fair confirmou revelaçons divulgadas polo NOVAS DA GALIZA entre os anos 2003 e 2005. O antigo líder do tráfico de haxixe no Estado assegurou ter financiado a Alianza Popular e a Unión del Centro Democrático em finais da década de 70, assim como teriam feito outros contrabandistas. Este método de captaçom de fundos procedentes de dinheiro ilícito continuou nos anos seguintes da mao de 'tabaqueiros' e narcos, atingindo certa releváncia mediática com o Caso Naseiro, frustrado ao serem invalidadas as provas que certificavam o financiamento ilegal do partido que hoje preside Mariano Rajoi, homem-chave da AP e do PP ao longo destes anos."


Quando passámos para a democracia em que dim que vivemos ajudei a financiar a alianza Popular, do senhor Fraga, e à UCD, do senhor Suárez. E o mesmo que eu, assim figérom muitos outros empresários que estávamos envolvidos no contrabando de tabaco". Estas declaraçons do narcotraficante de Cambados à revista Vanity Fair tivérom eco na maior parte dos jornais da Galiza e reactivárom umha polémica que vinhera publicamente à tona em 1990, o ano em que Fraga Iribarne obtinha a presidência da Junta da Galiza e o mesmo em que saía à luz o chamado Caso Naseiro. Rosendo Naseiro, responsável na altura polo financiamento do PP era o encargado de recolher as doaçons fornecidas polos contrabandistas e o líder do sistema de captaçom de dinheiro. O processo judicial que provocara a sua detençom fora iniciado por umha investigaçom relacionada com o narcotráfico que atingia elementos do PP valenciano. as escuitas desvendavam a trama de financiamento ilegal, se bem as provas que tivérom relaçom com este capítulo das pesquisas fôrom anuladas polo Tribunal Supremo por nom estarem centradas no caso de narcotráfico que motivara a decisom de intercetar conversas telefónicas. (continua)» Via Aventar.

Seguro, o violento

António José Seguro defendeu hoje que nem os representantes da troika nem o Governo têm legitimidade democrática para reduzir salários ou para rever as tabelas salariais da função pública em Portugal. A abstenção pode estar a assumir novos estágios de violência. António José Seguro absteve-se na votação de um Orçamento que apenas contemplou 12 dos 14 salários dosservidores do Estado. É aguardar que faça as contas para se abster novamente quando a troika e os capatazes locais lhe explicarem que as novas tabelas são a forma de manter subsídios de férias e de Natal multiplicando o salário de cada mês pelo coeficiênte 12/14. Estou absolutamente seguro que os seus níveis de responsabilidade, sentido de Estado e patriotismo estão à altura do momento histórico em que o roubo provisório se oficialize eterno. Sem ser de esquerda e sem ser de direita, o PS há muito que também não sabe o significado de contrato eleitoral.

Orelhas de Burro

Dum Dum Girls - "Coming down"

Sábado, 19 de Novembro de 2011

Coimbra tem mais encanto na hora de quê?

Ao passar nas imediações do Estádio Cidade De Coimbra, mesmo aqui ao lado de casa, este cidadão deparou-se com um grupo de hominídeos vestidos de azul e branco que, ao mesmo tempo que choravam diluvianamente, iam soluçando “Pinto da Costa, snif (ranho pa-)dentro, olé, Pinto da Costa, snif (ranho pa-fora), olé”. Digo-vos, fiquei intrigadíssimo e, ao mesmo tempo, cheio de dó. Só não me aproximei para consolá-los porque a minha prudência higiénica avisou-me que aquele arzinho grotesco poderia fazer sobrar ranho para mim. Quando cheguei a casa… Aquilo eram portistas a carpir a derrota por 3-0 frente à Académica, que lhes custou a eliminação da Taça de Portugal. Coitados. Costumam pejar-me a caixa de comentários aqui do coiso com insultos quando escrevo textos como este. São uns castiços. Divertem-me tanto.

Para quem gosta de acreditar em felizes coincidências (parte II)

Após a prisão de Duarte Lima pelo seu envolvimento na roubalheira BPN e, imediatamente a seguir, depois da descoberta da possibilidade da sua extradição para o Brasil com a qual a Ministra da tutela quebrou o estranho silêncio com que a Justiça portuguesa brindou o caso do assassinato de Rosalina Ribeiro, sabemos hoje que, antes da nacionalização, o então deputado Miguel Relvas intermediou para o Banco Efisa, do grupo BPN, um negócio da ordem de 500 milhões de dólares, que envolveu o município do Rio de Janeiro. Abdool Vakil, ex-presidente do Efisa, confirmou ao PÚBLICO que Relvas, na altura membro da bancada parlamentar do PSD, o ajudou "a abrir portas no Brasil", mas o actual ministro explica que a sua colaboração ocorreu sempre "no quadro" da Kapakonsult, onde era administrador, e que teve um único cliente: o banco de negócios do BPN - Efisa. Continuam as coincidências engraçadas, mas ainda estamos longe da descoberta de que a laranja é mesmo redonda..

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Aulas práticas sobre voto útil: outro caminho

Existem alternativas à austeridade? Existem. Exequíveis, sem efeitos multiplicadores recessivos e socialmente mais justas. O Bloco de Esquerda apresentou um pacote de 150 medidas, entre as quais a aplicação de taxas sobre bens de luxo e mais-valias urbanísticas, estas últimas com uma receita potencial de dois mil milhões de euros que permitiria manter os subsídios de férias e de Natal da função pública e pensionistas. Contudo, afectaria os mais ricos, o que não está propriamente nos planos de um Governo que utiliza um poder que lhe proveio maioritariamente do voto dos pobres na defesa intransigente dos privilégios dos mais ricos entre os ricos. Existem, como sempre existiram, caminhos alternativos. Mas faltaram votos. Com utilidade.


Mais sobre a utilidade do seu voto aqui

Os portugueses querem mais

A evidência do bom serviço que a comunicação social vem prestando à causa do afundamento do país surge a menos de uma semana da greve geral, hoje, no resultado de um estudo da Deloit ao qual foi dado o adequado destaque mediático: os portugueses consideram que as medidas previstas no Orçamento do Estado para o próximo ano (OE2012) agravam a sua situação financeira, mas reconhecem a razoabilidade das mesmas face à actual situação do país. A comunicação social bem mostra que há para aí uns tipos que dizem que a austeridade empurra “a actual situação do país” para um descalabro ainda maior e com ainda mais e mais sacrifícios, mas são radicais de esquerda, não há que dar-lhes ouvidos. Só vendo para crer e, até lá, é ir tendo fé, muita fé, que é realmente como os outros senhores dizem, que Portugal não é a repetição da Grécia com ano e meio de atraso. Não é, não é, não é. Resumindo: se o que o estudo revela for realmente a percepção maioritária e não apenas mais uma golpada mediática, há margem para novos sacrifícios. A ser assim, há combustível para prosseguir a rota descendente, continuar a definhar e a desmantelar o nosso edifício social.. Até chocarmos de frente com a realidade.




Pavlov foi a Benavente ensinar respeitinho

A direcção do Agrupamento de Escolas do Porto Alto (Benavente) proibiu seis crianças entre os seis e os nove anos de almoçar na cantina da escola, durante dois dias, como castigo por mau comportamento, o que deixou os pais indignados. A regressão social em curso conta-nos como se faz um Oliver Twist à portuguesa em pleno século XXI. Podem? Claro que podem. Os senhores directores podem tudo. Existem especificidades pedagógicas locais que só eles conhecem.

Gostei de ler: "A democracia como um risco"

«O que está hoje em jogo no apodrecimento imparável da crise do euro já não é a sobrevivência de uma moeda nem mesmo a sobrevivência da integração europeia. É a sobrevivência da democracia. Pelas mãos de integristas que idolatram o equilíbrio das contas públicas como supremo bem, a gestão irresponsável desta crise está a levar à destruição dos fundamentos da democracia nos Estados europeus. Entrámos numa era de pós--democracia em que os critérios de legitimidade da governação e dos seus protagonistas deixaram de ser a expressão do voto popular para passarem a ser o alinhamento com o sector financeiro e a suposta capacidade mágica de "tranquilizar os mercados".


Os últimos dias mostraram em que ponto vai já esta pós-democracia. O directório franco-alemão, reunido em Cannes, não hesitou em perpetrar um verdadeiro golpe de Estado na Grécia, afastando de cena um primeiro-ministro que ousara sugerir que o povo se pronunciasse sobre os ditames da troika. Golpe de Estado, sim: sem eleições, a Grécia passa a ser governada por um homem vindo do Banco Central Europeu e da Trilateral com a óbvia confiança dos mercados. Ei- -la enfim no bom caminho, dizem--nos os telejornais e os comentadores encartados. Entretanto, em Itália, é nomeado um Governo presidido por um emissário do sistema bancário e composto por tecnocratas em quem ninguém votou. Definitivamente, a democracia tornou--se um risco para os mercados e, diante disso, a Europa desistiu da democracia.


Entenda-se a lógica que dá suporte a este afastamento da democracia. Tal como na América Latina dos anos 80 e 90, a Europa está hoje a ser bombardeada pela apologia dos gestores como os governantes ideais. A direita liberal, a que se junta muito do antigo campo social- -democrata fascinado pelas lendas do new public management, tem sido capaz de fazer vingar a tese de que o Estado tem de ser governado pela mesma lógica das empresas privadas, demonizando o défice e cortando a eito nos serviços públicos (saúde, educação, transportes) e nas políticas sociais. Para essa missão redentora, "os políticos" - e, sobretudo, as exigências da democracia - são descartáveis como "gorduras". A governação, não mais como serviço das populações mas como aplicação dos ditames dos credores, passa a ser empresarializada. E não tardará muito que seja mesmo contratualizada em regime de outsourcing... O horror da política, tão caro aos liberais, é o pórtico para o fim da democracia.


Portugal não escapa a esta onda pós-democrática. As eleições de 5 de Junho foram já um desvio grave ao que deve ser um genuíno pronunciamento popular sobre as propostas dos diferentes partidos - a troika tinha assegurado a assinatura de sangue dos três principais partidos para que, qualquer que fosse o resultado, o programa a aplicar no dia seguinte fosse o acordado com ela. E nas próximas semanas acentuar-se-á a pressão para uma governação "de unidade nacional". PS e PSD, sob a batuta da troika e dos seus ideólogos internos, dão sinais inequívocos de ir nesse caminho. Só que esta não será uma unidade nacional para defender a democracia, mas para a minorar quer no campo político quer no terreno social. Uma "unidade nacional" para mais facilmente conseguir o completo desmantelamento do Estado social, do serviço Nacional de Saúde ao salário mínimo e às pensões.


Refém da irresponsabilidade da ganância, a Europa não hesita em acolher governos ilegítimos e em adoptar como seu o discurso de que o voto do povo é um empecilho para "o que tem de ser feito". Esta Europa tem medo da democracia. E só a democracia pode resgatar a Europa.» - José Manuel Pureza

Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Para quem gosta de acreditar em felizes coincidências

Ele há coisas engraçadas. Bastou que Duarte Lima fosse preso por também ter andado a sacar-nos uns milhões na chafurdeira do BPN para que a Justiça, na forma de Ministra, quebrasse o estranho silêncio que sempre emoldurou o caso do assassinato de Rosalina Ribeiro com a inusitada descoberta de que os portugueses, camarada de partido incluído, podem ser extraditados para o Brasil. Se calhar, até dava jeito que fosse. Agora. Que giro. Mudando de assunto, aquilo na imagem é um trombone. Um perigo. Como a auditoria à dívida, que revelaria, parcela por parcela, o que andamos a pagar, por quê e por responsabilidade de quem..

Este camarada

Sem eleições à vista: «Mário Soares responsabilizou a chanceler alemã, Angela Merkel, pela decadência da Europa e sugeriu um papel interventivo do Banco Central Europeu (BCE) na resolução da crise, através da emissão de moeda. “A Europa deixou de ter líderes”, disse Mário Soares, sustentando que Angela Merkel “é uma pessoa que tem grandes responsabilidades na decadência da Europa” e na situação de crise vivida em Atenas.» (hoje)


Com eleições à vista: «Mário Soares não é daqueles que tem o emprego ou o negócio em risco, Mário Soares não é daqueles que tem a reforma em risco, Mário Soares não é daqueles que tem a carreira em risco, Mário Soares é daqueles que tem uma fortuna que o mantém fora de qualquer sobressalto. Logo, Mário Soares diz não ser daqueles que têm muito medo do Fundo Monetário Internacional (FMI). Acredito.» (2 de Abril de 2011, dois meses e três dias antes das eleições)

Olha que dois

Prova de que a falta de vergonha continua intacta apesar da lição Kadhafi, Passos Coelho resolveu deixar nova mancha na História da diplomacia portuguesa visitando a cleptocracia angolana, o lugar perfeito para mostrar como e quanto também se rouba por cá. A propósito dos cortes salariais, que a troika defendeu sejam estendidos também ao sector privado, Passos Coelho justificou o roubo com as dívidas das empresas, que também precisam de ser pagas. Afinal, é simples. Dívida pública? Roubam-se os funcionários públicos. Dívida privada? Roubam-se os trabalhadores do privado. E, depois do BPN, ainda há uma EDP para oferecer a preço de saldo à filha do reputado bandido de renome internacional que manda naquelas paragens. Ele depois compensa com uns negócios por lá. Só para amigos. Os outros que se convençam que é Portugal que sai a ganhar.

Quem quer tomar conta do D. Mariazinha?

O secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, diz que conta divulgar o nome do novo director artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) “ao longo da próxima semana”, lê-se numa breve nota enviada à imprensa. Aceitam-se apostas sobre quem será.


Há quem assegure que a própria D. Maria II, porque a ocupação externa não deixou dinheiro para mais. Há também quem refira que o subchefe e maestro da banda dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova do Remijo foi convidado e declinou com um “nem pensar nisso é bom”. E existem rumores sobre idêntico esforço desenvolvido junto do Presidente da Filarmónica de Vale da Burra (Lagiosa do Bandulho), impossibilitado por já ter assinado em segredo pela rival do Faralhão (Setúbal).


Por mim, aposto no nome daquele artista que não quer informação na televisão pública: também não há-de querer teatro no rebaptizado D. Mariazinha, o que, convenhamos, encaixa na perfeição nos planos do projecto de ministro da variante de Cultura baratinha desta espécie de Governo. O próprio Passos Coelho não seria mal pensado. As acumulações estão na moda e já mostrou que percebe imenso de teatro.


Resultado final do sorteio: João Mota. Ninguém acertou.

A burguesia tuga é um tesourinho deprimente

Lembro-me das reacções de indignação suscitadas por alguém ter dito que a burguesia portuguesa é um dos cancros da nossa sociedade. Comprovamo-lo todos os dias e o dia de hoje não é excepção. Senão, vejamos:


Nos Estados Unidos, um grupo de 138 milionários enviou uma carta aos líderes do Congresso e ao Presidente Obama pedindo que lhes sejam aumentados os impostos “pelo bem da nação”.


Em Portugal, o presidente do grupo de patrões da indústria diz que prefere aumentar horários em vez de cortar salários, a bem de uma agenda de exploração proporcionada por um tal esforço nacional que lhes permitiu desforrarem-se do que perderam com a revolução de Abril. Pelo visto, isto já é à escolha do freguês. A burguesia tuga é um tesourinho deprimente.


E ainda estamos à espera que nos expliquem em que é que aumentar o horário de trabalho ou cortar os salários dos trabalhadores do sector privado melhora as nossas contas públicas. Pelo contrário, reduz o consumo, reduz o emprego, diminui o PIB e diminui a receita fiscal. E isto apenas até provocar uma onda de incumprimentos de crédito que renove necessidades súbitas de nacionalizações dos prejuízos do sector financeiro. Uma quadrilha de loucos apoderou-se deste país.

Da AR para a pildra: luxos que não são para todos.

Duarte Lima foi detido nesta quinta-feira de manhã pela Polícia Judiciária. A diligência da PJ enquadra-se numa investigação relacionada com o caso BPN, no âmbito do qual está indiciado por diversos crimes, e não tem rigorosamente nada que ver com o assassinato de Rosalina Ribeiro. Observe-se, porém, como Duarte Lima tem à escolha dois sistemas judiciais com permeabilidades diferenciadas à sua teia de influências e duas molduras penais distintas, aplicáveis a outros tantos pacotes de crimes. Note-se também como o PSD se tornou o primeiro partido a ter o privilégio de ver um ex-líder da sua bancada parlamentar a ver o sol aos quadradinhos. Em ambos os casos, estamos perante luxos que não estão ao alcance de todos. Dias Loureiro, Cavaco Silva e todos os demais convivas do banquete BPN observam a cena de longe, muito longe.

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Aulas práticas sobre voto útil (e sobre abstenção)

Quando penso nos muitos e muitas que se prontificaram a aderir à desmobilização montada para que o Bloco – e não apenas o Bloco – tivesse um mau resultado eleitoral, vem-me à memória a pergunta: se o Bloco tivesse acedido a participar naquela encenação a que chamaram de "negociações com a troika", estaríamos melhor agora? E respondo: se tivessem recusado o veneno, claro que estaríamos. Tanto melhor quantas as vozes que elegessem e tanta falta fazem no palco principal da luta, a AR. Na sua vez, elegeram ou deixaram que outros elegessem para lá outras vozes, as vozes daqueles que andam sempre com os joelhos sujos de tanto se ajoelharem aos caprichos dos ocupantes externos e com as biqueiras esmurradas com o desespero daqueles que, a pretexto de uma interpretação livre de patriotismo, fazem gala em espezinhar.


Hoje, a troika diz que quer que as empresas reduzam os salários dos trabalhadores portugueses do sector privado, à semelhança dos cortes feitos nos salários dos trabalhadores da função pública. Fazem-no porque o Bloco e o PCP se negaram a participar naquela palhaçada? Não, fazem-no porque estão mais do que à vontade para exigirem obediência a um Parlamento maioritariamente obediente. O Parlamento dos ajoelhados e das biqueiras que a inconsciência deixou eleger. Fazem-no pela falta de votos que o veneno e o medo de mudar de vida engoliram. Aguentem-se, agora. E nós, também, que isto está só a começar.

Ai não gostam de políticos? A Goldman Sachs dá-vos "técnicos"

O recém-empossado primeiro-ministro italiano, Mario Monti, vai acumular também a pasta das Finanças e Economia no novo Governo, repleto de tecnocratas – “só peritos, sem políticos” de carreira, salienta mesmo o diário italiano Corriere della Serra, na sua edição online.


Outro periódico, este francês, o “Le Monde”, tal como nós aqui, destaca os traços comuns dos novos primeiros ministros da Itália e da Grécia, Monti e Papademos, o novo presidente do BCE, Mario Draghi e muitas outras figuras ilustres com muito poder : o banco Goldman Sachs e a Comissão Trilateral, duas organizações sinistras que foram tecendo uma rede de influência única”, com fortes ligações “tanto subterrâneas, como públicas”, capaz de fazer com que os cidadãos desaparecessem das prioridades da política económica europeia.


A organização europeia dos idiotas unidos (OEIU) patenteou a frase "Os políticos são todos iguais". A Goldman Sachs está a aproveitar a deixa para fornecer a competência técnica dos seus quadros. Já o sabemos, ninguém as faz como a Goldman Sachs, mas todas as ajudas, por mais idiotas e especialmente estas, são muito bem-vindas. Como pode ver-se, o desafio de rentabilizar tanta abundância de idiotas tem sido uma aposta ganha.