sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Já vimos este filme

Como uma bomba, a novidade explodiu no ar. Novamente, ninguém viu, ninguém sabia e ninguém suspeitava, sequer. As semelhanças entre o buraco do BPN e o buraco da Madeira, hoje noticiado, são mais do que muitas. Até no ar de caso do Primeiro-ministro, a dizer o que todos sabemos, que o caso é gravíssimo, mas sem retirar a confiança política ao autor de um desvario candidato à secularidade. E cá estamos nós outra vez, prontos para pagar.


Já vimos este filme. Falta a entrada em cena de Isabel dos Santos e amigos e a cena da compra dos despojos a preço de saldo, evidentemente, depois de limpinhos de dívidas. Desta vez, nem é necessário nacionálizá-lo. Ora, o buraco do BPN era de 5,5 mil milhões. O da madeira é de cerca de 1,6 mil milhões. O BPN foi vendido por 40 milhões. Com o câmbio da delinquência nestes níveis de linearidade, o cálculo do valor pelo qual a cada vez mais nossa Isabel poderá comprar a Madeira está ao alcance de qualquer um. Duas ilhas belíssimas e uma sanguessuga de brinde.

Regular, regular

Depois de hoje ter sido noticiado um aumento de 30 por cento nas tarifas eléctricas para 2012, apesar do agravamento de 17 por cento no IVA que ocorrerá no próximo mês, qualquer aumento efectivo de 5 ou 6 por cento que venha a concretizar-se parecerá uma notícia daquelas que “não são assim tão más”. A ERSE não o confirma, mas a conveniência do efeito desejado impede um desmentido categórico.


E são muito poucos os que estranham ver aquela que é precisamente a entidade que tem como finalidade acautelar o interesse dos consumidores a propor um aumento tão exorbitante dos lucros de um monopólio natural onde, mesmo sem aumento, já se praticam das tarifas mais gulosas de toda a Europa, pelo que pouco haverá a temer que se comente sobre eventuais compensações ao nível da economia subterrânea que pague tão valioso contributo para a causa dos rendeiros da Nação.


Finalmente, qquanto aos efeitos de um qualquer aumento tarifário sobre a tal competitividade da economia portuguesa que andam a espevitar, também não haverá nada a temer enquanto houver um salário que se disponha a encolher pela Pátria para compensar a parcela que venha a engrossar os mais de 5 milhões de euros de lucros diários do sector. Se a electricidade estivesse em mãos públicas, podiam pagar Saúde, Educação, desemprego, velhice, infância e até os buracos que a delinquência cavou nos nossos destinos. Mas não seria a mesma coisa.

Uma centelha de esperança para a Europa das pessoas


A boa notícia do dia é a viragem à esquerda na Dinamarca. Os dinamarqueses escolheram uma esquerda que parece não ser daquelas que se coloca o rótulo de “responsável” para justificar ter-se esquecido do que isso é, uma esquerda com políticas orientadas para as pessoas e que tem o combate ao desemprego como a prioridade das suas prioridades. A cobertura discreta e cautelosa com que os media nacionais deram a notícia é sintomática do desconforto despertado pelo resultado eleitoral dinamarquês. É que a Dinamarca ocupará a presidência rotativa da União Europeia dos mercados a partir do próximo dia 1 de Janeiro. A Primeira-ministra dinamarquesa será uma mulher, como é destacado no vídeo junto, é verdade. Mas nenhuma diferença faria se fosse uma sósia de Ângela Merkel. De Helle Thorning-Schmidt espera-se – eu espero – que venha a ser uma centelha de esperança para a Europa. Obviamente, a Europa das pessoas.

Muito bem

Os projectos de lei sobre testamento vital do PSD, BE e CDS deverão ser aprovados hoje para serem discutidos na especialidade, mas a bancada laranja rejeita, para já, abrir a porta à eutanásia. Da minha parte, porque defendo que um deputado recebe um mandato de representação conferido por quem lhe confia o voto, nessa medida, parece-me perfeito. O mandato que os deputados dos partidos que assinaram o memorando com a troika receberam dos seus eleitores a 5 de Junho está restrito à eutanásia económica e à eutanásia social. .

Mercado de professores

Esta manhã, em fundo, na rádio, fiquei a saber que existe “mercado de professores”. Ouvi a expressão a meio de outros afazeres, sem saber, ao certo, sobre o que falava o mercadólogo que a utilizava. Esbarro agora com a notícia: “as escolas com falta de professores só poderão celebrar contratos mensais com os docentes que vierem ainda a contratar, confirmou ontem o Ministério da Educação e Ciência (MEC. Directores de escolas e agrupamentos pensaram que se tratava de um "erro" da plataforma informática, mas afinal é mais uma alteração nos procedimentos de colocação de professores.”


E vem-me imediatamente à ideia a imagem do upgrade desta medida de contenção de custos que acompanha o aumento de mais de 7% do valor pago pelo Estado às escolas do ensino particular e cooperativo: a da formação espontânea de acampamentos de potenciais candidatos a dar aulas, mesmo ao lado de cada escola, visitados diariamente por um angariador que, primeiro, logo à chegada, berra o nome das disciplinas com falta de professor para esse dia ; a seguir, concentra-se na escolha do candidato que se disponha a assegurar o serviço ao menor preço e; terminada a tarefa, decreta feriado local para os estômagos dos candidatos preteridos.


Ressaltam as vantagens deste upgrade relativamente ao modelo de contratos mensais agora noticiado. Para os candidatos, para além da vida saudável proporcionada pelo contacto com a natureza, é muito mais fácil sossegar um estômago aos saltos durante um dia do que durante um mês inteiro. Para a escola, nada garante que o melhor candidato à Segunda-feira continua a sê-lo à Quinta. Está cientificamente provado que quem come todos os dias é potencialmente mais desobediente e menos competitivo do que quem observa padrões de consumo mais frugais. Os bons e os maus exemplos começam na escola. Estamos a deixar que transformem a nossa sociedade num imenso vómito. Voltamos ao tempo dos negreiros.

Actualização:Caiu a contratação ao mês. Não durou nem um dia. Valeu a pena a contestação.