Não costumo concordar com Cavaco Silva, mas hoje lembrou-se de dizer que a política cambial da UE prejudica a competitividade das exportações europeias e tenho que aplaudi-lo. Que pena não o tenha dito antes com toda a insistência e que pena não tenha referido que prejudica muito mais a competitividade de países periféricos como Portugal do que a das economias do centro: a procura externa de automóveis da Audi ou de frigoríficos da Bosch ressente-se muito menos de um euro em constante valorização do que a procura de têxteis sem marca ou de vinhos portugueses, que são muito mais facilmente substituíveis por produtos de idêntica qualidade produzidos noutras partes do mundo sem sacrificar a satisfação de quem os compra.
Compreensivelmente, já há para aí reacções negativas que dizem que cavaco há-de querer inflação. Não me surpreende. Quem o diz prefere uma inflação selectiva que garanta a tal competitividade através do desmantelamento dos direitos laborais, nomeadamente os despedimentos tendencialmente gratuitos que permitem a substituição de trabalhadores com salários acima do mínimo por outros a quem o desespero obrigue a aceitar aquela remuneração mínima como contra-prestação pelo mesmo trabalho. Um euro forte e toda a gente a receber pelo mínimo realmente também aumenta a competitividade. Apenas requer o cuidado de ir ajustando e obrigando ao mínimo dos salários para compensar os máximos na cotação do euro.
