terça-feira, 12 de julho de 2011

Simbiose: o rating empurra a austeridade e a austeridade empurra o rating

A agência de rating Moody's baixou hoje a notação do risco de dívida soberana da Irlanda, passando de Baa3 para Ba1, o que é considerado pelos mercados como "junk" (lixo). Isto significa que a compra de dívida soberana irlandesa passou a ser encarada como sendo de "risco substancial", quando antes era vista como de "risco moderado". Aquela agência de notação diz ainda que "a Irlanda está sob vigilância negativa", ou seja, que mais cortes poderão acontecer.

Estado a menos e Estado a mais: ressaca do socialismo-banqueiro


  1. Quase metade da população portuguesa estaria em risco de pobreza não fossem as prestações da Segurança Social: 43,4 por cento, segundo o Instituto Nacional de Estatística, cujo relatório sobre rendimentos e condições de vida relativo a 2009 foi ontem divulgado. Para 2010, o cenário das conclusões adivinha-se mais negro, por causa das medidas de austeridade que introduziram profundos cortes nos apoios sociais.

  2. Os bancos portugueses pagaram menos impostos em 2010. Segundo o relatório da Associação Portuguesa de Bancos (APB), ontem divulgado, o IRC pago pelas instituições do sector no ano passado caiu 63%, ou 207 milhões de euros, apesar da subida da taxa de imposto.

A banda toca, o navio afunda

O presidente permanente do Conselho Europeu admite convocar uma cimeira extraordinária do Eurogrupo para a próxima sexta-feira, para tentar acalmar as tensões que afectam os mercados de dívida de vários países da zona euro. Estes senhores hão-de pensar que nos convencem que acreditam que acalmam mercados apenas por se reunirem. Da reunião de ontem não saiu nem a sopa de optimismo da praxe, nem o xarope de confiança do costume: nada, à twiter, em 140 caracteres. À noite , Durão Barroso disse umas larachas sobre regulação das agências de rating, seja lá o que isso for. Talvez a introdução da regra “ou escrevem o que nós quisermos, ou deixamos de vos encomendar serviços, perdem o poder que vos demos e deixam de ganhar o vosso.”. Esta manhã, os juros das dívidas portuguesa, espanhola e italiana continuavam a bater recordes. Alguém se lembra do Tratado de Lisboa, o tal que iria agilizar a União Europeia e que, depois de convenientemente afastado o cenário de um referendo, foi aprovado no nosso Parlamento por PS, PSD e CDS?




Lixo ao fundo do túnel

Uma contracção do PIB de 4 por cento acompanhada de uma destruição de 100 mil postos de trabalho é a previsão do tradicionalmente optimista Banco de Portugal para os próximos dois anos. As políticas recessivas anunciadas agravarão o impacto da quebra de 10 por cento no investimento privado, juntando-lhe um corte de 5 por cento no já raquítico investimento público e uma quebra nunca vista no também já demasiadamente sacrificado consumo das famílias de 6,7 por cento. As pessoas e o crescimento económico estão definitivamente fora dos objectivos de política económica dos administradores da troika.

Quanto ao objectivo equilíbrio das contas públicas, de nada serve aumentar o IVA e o IRS se atrás deles vêm uma quebra abrupta no consumo e no investimento privado (a base de incidência do IVA), uma quebra no emprego (a base de incidência do IRS) e uma quebra na actividade económica das empresas (a base de incidência do IRC,). Todos eles ainda com impactos orçamentais pela via dos subsídios de desemprego e outras prestações sociais. Posto isto, com toda a certeza que o objectivo de política económica também não é equilibrar as contas públicas, pelo que para perceber a razão da manutenção da orientação política seguida restará olhar para as privatizações a preços de saldo, para as oportunidades de negócio proporcionadas pela transferência do filão da Saúde para mãos privadas, num processo que deixará uma Saúde para pobres a apodrecer no sector público, e para a rarefacção dos direitos laborais que visa embaratecer o factor trabalho. Os portugueses tem muito tempo para perceberem que legitimaram pelo voto uma agenda política de concentração de riqueza obtida através de uma forte regressão económica e social e de novas rendas proporcionadas pela privatização de mais recursos e monopólios naturais.

Ler os outros: “Medidas alternativas de combate ao crime: o exemplo das casas na Holanda”

«Atenção, legisladores, a Holanda reduziu em 26% o risco de assalto a novas residências sem mexer no código penal, por reduzir o "convite ao crime", como dizem dois economistas neste artigo. Como? Foi simples, mexendo nos requisitos de segurança no regulamento das edificações urbanas. Os nossos securitários precisam de estudar exemplo destes que não mostram capturas espectaculares nem fazem primeiras páginas mas são efectivos na redução da criminalidade.» - Paulo Pedroso