terça-feira, 5 de julho de 2011

A seguir: abaixo de lixo

Precisamente um mês depois de conhecido o resultado das eleições e uma semana após a divulgação do programa do Governo, a agência de rating Moody’s desceu a notação de Portugal para um nível considerado junk (lixo). Em comunicado de imprensa, o ministério das Finanças reage acusando a agência de ignorar a “execução de medidas acordadas com a troika”, e o amplo consenso político que as suporta, e a recente adopção da taxa extraordinária, a ser aplicada em 50% do subsídio de Natal e anunciada a semana passada durante o debate do programa de Governo. Ora aí está, precisamente, exactamente. O mundo inteiro sabe, incluindo as agências de rating, que, para além de não travarem a especulação, as medidas anunciadas só nos vão afundar ainda mais. Já seria hora de adoptar as políticas que fazem falta  à criação de emprego e ao crescimento económico e de abandonar de vez a estratégia de anúncios sucessivos de pacotes de austeridade selectiva na patética esperança de que possam agradar aos mercados. Caso contrário, obrigam estas velhas amigas do mercado a criarem um nível especial para nós: abaixo de lixo.

Desencanto

Nuno Gomes, desconsiderado,  saiu pela porta pequena, Fábio Coentrão, bem vendido, saiu pela porta grande, a mística, maltratada, saiu por ambas. Luisão e Carlos Martins são a réstia de alma benfiquista que falta empurrar para fora da Luz.

Aulas práticas sobre voto útil: esfregonas

A Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda (ASPIG) denunciou nesta terça-feira, através de comunicado, que os militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) passaram a “acumular”, por determinação superior, a tarefa de “limpadores de quartéis”. O PB sabe que o Governo tenciona pôr os milhares de anteriores limpadores, que afinal não foram despedidos, a patrulharem as estradas portuguesas. Serão fáceis de identificar pelas esfregonas, o símbolo de afirmação da autoridade destas novas brigadas que foi idealizado neste projecto  profundamente reformista.

Aprender democracia



Acho muito salutar a iniciativa legislativa de cidadãos que se propõe reunir as 35 mil assinaturas necessárias para submeter uma “Lei Contra a Precariedade” à discução e votação na Assembleia da República. Será um bom exemplo , quer para demonstrar como a sociedade portuguesa não está resignada à realidade que lhe é oferecida, quer para evidenciar que a participação cívica na nossa democracia não pode resumir-se às boas ideias. A ideia surgiu, germinou, quando muito, recolher-se-ão as assinaturas necessárias, mas é mais do que certo que faltarão deputados para a aprovarem no Parlamento. Pois é, o dia em que tudo se decide é no das eleições. E os votos dos mais de dois milhões de precários e desempregados chegariam, não apenas para fazer aprovar esta lei, também para eleger uma maioria mais do que suficiente para suportar uma governação que pusesse em prática todo o projecto de sociedade justa que lhe subjaz. Talvez para uma próxima.

Ler os outros: "Quem ganha quando a política perde?"

«A ideia de que há uma única solução para o país - a receita FMI de austeridade - instala-se e somos todos chamados a colaborar "a bem da nação". Sacrifícios, injustiça, desigualdade, recessão, tudo deve ser aceite com "espírito de missão". Porque discordar é entrar em "jogos políticos", que só interessam aos partidos. Essa coisa que, pelos vistos, é formada por não cidadãos não civis e que só se representa a si própria.
Fernando Nobre abandonou a Assembleia da República, fazendo votos para que um dia o parlamento se "abra à cidadania". O Governo assumiu funções dizendo ter dado voz à "sociedade civil". E na comunicação social multiplicam-se os apelos para que se coloque "a política de lado" e nos unamos todos no esforço de "salvação nacional".
Enquanto isso, enquanto se isola o debate político e os partidos, um grupo de cidadãos civis, formado pelos donos dos grandes grupos económicos em Portugal, é escutado nos debates televisivos sobre o estado da nação. Com receitas desinteressadas, diz-se, sobre o futuro do país. As receitas que devemos aceitar sem contestação ou sofreremos todos ainda mais. Diz o novo Ministro da Economia e do Emprego, vindo directamente da "sociedade civil", que somos todos "uma equipa", a oposição deve esquecer as divergências e os sindicatos dar as mãos às confederações patronais.
Importa pois esclarecer alguns equívocos: os partidos são formados por cidadãs e cidadãos; o poder político não está na mão de militares e calar a divergência e o pluralismo políticos é viver em ditadura. Tudo isto deveria ser tão óbvio que escrevê-lo seria inútil. Mas infelizmente não é assim.
Hoje os combates centrais em Portugal e na Europa são dois: contra a bancarrota e em defesa da democracia. De facto, um combate com duas frentes. Porque a política da bancarrota se fortalece à medida que a democracia enfraquece. É agora, que nos dizem que o momento é de calar, que teremos de falar mais alto e reagir; reforçando os movimentos e activismos sociais e a participação político-partidária. Este é um confronto essencial: política e democracia contra a ditadura dos poderes não escrutinados.» - Catarina Martins