Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Está aí alguém?

Não está cá ninguém. As publicações regulares deste blogue regressam quando o calor desapertar. Boas férias e até já.

Orelhas de Burro

Love and Rockets – “Saudade”

Terça-feira, 26 de Julho de 2011

Boas notícias para o sector financeiro

(1) Na sua primeira visita oficial como ministro da Saúde, Paulo Macedo garantiu hoje que o Governo “vai preservar o Serviço Nacional de Saúde (SNS)” mas sublinhou que o “Estado não deve nem pode fazer tudo”, numa altura em que a dívida do sector ascende a “cerca de três mil milhões de euros” [meio BPN]. Assumindo-se sintomaticamente como “ministro do Sistema de Saúde e não apenas do SNS”, o governante quebrou o silêncio de um mês para, num discurso de seis páginas lido no auditório do Hospital de Viana do Castelo , afirmar que vai, “sem quaisquer preconceitos”, aproveitar o melhor das experiências do sector privado e social.


(2) O ministro das Finanças confirmou a apresentação, em breve, de um Orçamento Rectificativo que servirá para acomodar no limite global de endividamento do Estado o valor do empréstimo internacional destinado à banca.


(1+2) A banca fica com o suficiente para se lançar naquele que é, segundo os próprios, o terceiro mais lucrativo, logo a seguir ao narcotráfico e ao tráfico de armas. Resumindo: quem vai emprestar à banca o dinheiro para comprarem o SNS que nos vão roubar? Nós mesmos. Obrigado, portugueses.



Aulas práticas sobre voto útil: enriquecer em tempo de crise



O Estado português vai abrir mão da golden share que detém na Portugal Telecom e, para esse efeito, foi convocada uma assembleia-geral da empresa para esta tarde. A golden share tem um valor, mas o Estado não receberá nem um cêntimo. Para além desta interpretação da defesa do interesse público, há a registar que existem outros países que detêm golden shares, mais precisamente nove, nomeadamente, a Alemanha, que detém 20 por cento da VW, a França, a Inglaterra, a Itália, a Irlanda, a Grécia, a Finlândia, a Bélgica e a Polónia, pelo que Portugal estava longe de ser caso único. Fomos afastados do grupo por uma obediência conveniente aos privados que ocuparão o espaço que os actuais e anteriores governantes aceitaram alienar. Agora, depois da consumação do acordado com a troika, É ir observando e verificando que interesses privados justificaram a decisão do poder que os representa. As privatizações farão a fortuna dos que estejam melhor colocados para participar num jogo de contrapartidas, para já, bastante opaco. Já o sabemos, conhecer-lhe-emos os beneficiários no dia anterior àqueles em que o caso será definitivamente esquecido.


Na alemã Volkswagen, o Estado da Baixa Saxónia detém mais de 20 por cento do capital, o que lhe dá direitos especiais definidos numa lei de 1960. Nomeadamente, a presença obrigatória de um representante na administração e a limitação dos direitos de voto de todos os accionistas, independentemente da participação no capital social. Há quase quatro anos que a Alemanha foi condenada pelo Tribunal de Justiça europeu, mas a situação mantém-se sem qualquer sanção.


O Estado britânico continua a ter uma golden share em duas grandes companhias: a BAE Systems e a Rolls Royce, ambas no sector da defesa. Os accionistas não podem aprovar algumas alterações aos estatutos sem o consentimento do Governo, nomeadamente, a cláusula que obriga a que tanto o presidente executivo (CEO) como o presidente do conselho de administração sejam de nacionalidade britânica.


O pedido de ajuda externa, feito em Abril pelo anterior Governo, precipitou a decisão de acabar com as golden shares em Portugal. No entanto, tanto a Irlanda como a Grécia, auxiliadas financeiramente no ano passado, ainda mantêm posições privilegiadas em pelo menos duas empresas. Na irlandesa Greencore Group, além de poder vetar decisões estratégicas, o Estado pode intervir directamente no sector, fixando limites à produção de açúcar (sector onde opera), sem que até hoje tenha havido alguma chamada de atenção de Bruxelas. Já o caso da grega Public Power Company, que o Governo de Papandreou decidiu privatizar parcialmente na sequência da ajuda externa, foi denunciado ao Tribunal de Justiça em Maio de 2010. Porém, os poderes estatais mantêm-se: os direitos de voto de outros accionistas estão limitados a cinco por cento, por exemplo.


A Itália,, apesar de condenada pelas autoridades europeias, continua a manter direitos especiais em quatro empresas estratégicas - curiosamente, três são dos mesmos sectores da Galp, PT e EDP. Em causa estão a ENI (accionista de referência da Galp), a Telecom Itália e a Enel. (artigo completo aqui).

Aulas práticas sobre voto útil: onde engordar e onde emagrecer o Estado

O preço dos bilhetes simples e passes de 30 dias para atravessar o Tejo em Lisboa vai aumentar a partir de 1 de Agosto em torno dos 15 por cento decididos em média para o sector dos transportes, com algumas variações. A média do aumento é de cerca de quatro euros.


Eduardo Paz Ferreira, Pedro Rebelo de Sousa e Álvaro Nascimento, todos advogados, farão parte da comissão de auditoria da nova comissão executiva da Caixa Geral de Depósitos (CGD)em regime de não exclusividade. Pedro Rebelo de Sousa continuará deste modo a trabalhar no seu escritório de advogados, que representa empresas como a italiana ENI, accionista da Galp e que chegou a negociar a venda desta participação, negócio onde a Caixa Geral de Depósitos mantém uma palavra a dizer. A comissão executiva será presidida por José Agostinho de Matos, por indicação do ministro das Finanças, e Nogueira Leite será o seu vice, por escolha do primeiro-ministro. O facto de Nogueira Leite ter trabalhado durante alguns anos no grupo Mello e de a saúde ser uma das áreas a alienar pelo banco público causou também algum desconforto no sector. Outra entrada inesperada na CGD foi a de Nuno Fernandes Thomaz, para administrador-executivo, defendida por Paulo Portas, que assim garante a representação do CDS/PP nos órgãos do banco estatal.

Domingo, 24 de Julho de 2011

Orelhas de Burro

Pentatones - "Hidden"

Sábado, 23 de Julho de 2011

Atenção, POUCA atenção

Nada como uma notícia choque para induzir aquela sonolência tão necessária à concretização do sonho antigo de repor a paz social que o 25 de Abril roubou. Se lhe juntarmos as férias, o calor e a praia, o ambiente fica perfeito. Durasse o Verão mais um par de meses com notícias choque semanais e nem seria preciso suspender a democracia por seis meses para pôr tudo na ordem.

Um adeus prematuro



Amy Winehouse foi esta tarde encontrada morta no seu apartamento em Londres. Se é sempre cedo para morrer, aos 27 impressiona. Muito. Mais ainda aquela imagem de solidão e abandono , revolta ver como ninguém nunca lhe deitou a mão. A decadência seria uma característica do produto vendido. We know she was so good. Teria sido melhor ainda sem tudo o que a levou.

Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

Não deveria ser o Governo a pedi-lo?

Os deputados do PCP e do BE pediram hoje a representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) para que a instituição siga o exemplo da União Europeia, e possa baixar as taxas de juro e os prazos de maturidade no empréstimo que fizeram a Portugal. Do Governo, nem uma palavra.

Aulas práticas sobre voto útil: trocar um Sócrates por um Passos e um Portas

Apesar da diminuição da actividade que decorre da Caixa Geral de Depósitos estar obrigada a reorientar o seu foco para a actividade bancária, saindo de outras áreas como os seguros e as participações financeiras em empresas como a Portugal Telecom, EDP e Zon, entre outras, e apesar do discurso oficial do Governo de Passos Coelho apontar para uma diminuição de 15 por cento nos cargos dirigentes de toda a administração pública, com juras de que não haverá jobs for the boys, a CGD vai ter mais administradores do que os actuais 7: serão 11. Passos Coelho engorda o lado mais gordo do Estado ao mesmo tempo que lhe vai emagrecendo o lado mais magro, aquele que faz falta às pessoas.


Actualização: a Presidente da Assembleia da República acaba de atribuir a Mota Amaral, na qualidade de ex-presidente do Parlamento, um gabinete, uma secretária, um BMW 320 e um motorista.

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011

Era uma vez ... "utopias"

Reduzir a taxa de juro e alargar o prazo de pagamento que os partidos da troika nacional assinaram de cruz, que Bloco de Esquerda e CDU exigiam fossem reivindicados, eram, até há instantes, parte da “utopia” oficial que foi vendida como capaz de destruir a confiança dos mercados deste mundo e do outro e, por essa via, fazer Portugal mergulhar nas trevas mais profundas. Pois confirma-se que parte dessa “utopia”, que condicionou decisivamente o último processo eleitoral, afinal, não era utopia nenhuma. Era, simplesmente, algo que a cobardia política dos representantes de um povo resignado a sobreviver curvado e de mão estendida não foi capaz de reivindicar mas que, sem qualquer esforço nesse sentido, acabou por cair dos céus.


E qual a reacção do nosso Pedro das Utopias? Toda a naturalidade de mais um grande triunfo para Portugal. Segundo o nosso vencedor improvável da noite, as agências de notação e os mercados não terão mais razões para duvidar das condições de sucesso do programa de austeridade desenhado para Portugal, que até pode aspirar a regressar mais cedo aos mercados. Sim, sim.


Ainda não o saberá, e seguramente que tão-pouco será demasiadamente importante para um mendigo que se limita a aceitar o que lhe dão, mas o Nobel da Economia Paul Krugma não está tão optimista assim. Pode ser que, até que se confirme que Krugman acertou outra vez, a auditoria à nossa dívida, à qual estes senhores se opõem para proteger as clientelas partilhadas, deixe também de ser “utopia”. Seria importante que cada um de nós não fosse obrigado a pagar dívidas que não contraímos, tal como seria importante que finalmente aceitassem a evidência de que a austeridade é a utopia que está a matar a Europa. Mantêm-na. No essencial, estamos na mesma.

(editado)

Afinal, qual é a cor do cleptoJardim sagrado? É laranja, pois era.

A Caixa Geral de Aposentações (CGA) terá anulado a notificação feita aos deputados e governantes madeirenses que acumulam pensões com remunerações, de acordo com o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, Miguel Mendonça.

Aulas práticas sobre voto útil: "arco governativo"

Cerca de um terço dos deputados da anterior legislatura – 70 dos 230 – tinham também assento em empresas do Estado, muitas vezes com interesses cruzados com os assuntos que defendiam no Parlamento. Na Comissão Parlamentar de Obras Públicas, quase metade dos deputados eram administradores de empresas privadas de obras públicas. A Comissão de Ética do Parlamento branqueia todo e qualquer conflito de interesses. Estas são algumas das constatações que foram condensadas num relatório que foi entregue à troika pela Associação Pela Transparência E Integridade – Associação Cívica, representante nacional da organização de luta contra a corrupção Transparência Internacional.


O Bloco de Esquerda, apesar de defender o direito das profissões a exercerem cargos políticos, quer restringir o acesso de deputados a actividades como assessoria e patrocínio ao Estado ou a participação em sociedades com capitais públicos ou a empresas concorrentes a concursos públicos. E quer avançar com um projecto de lei que alargue o período de nojo na transição entre cargos governativos e empresas.

Aulas práticas sobre voto útil: transportes públicos

Vamos aumentar o consumo e as importações de combustíveis. Vamos aumentar as emissões de gases poluentes. Vamos incentivar o uso do transporte individual e, dessa forma, aumentar os engarrafamentos que melhoram a competitividade do país. Vamos manter os administradores das empresas de transportes e promover uma colecta solidária que pague toda a sua reconhecida competência. Vamos suprimir as carreiras para zonas onde devia ser proibido morar. Vamos transformar os transportes públicos num serviço de luxo que garanta que toda a gente tenha mais do que dez lugares sentados à disposição. Vamos aumentar o preço médio dos transportes públicos em 15 por cento. Constatemos como um aumento do preço de um serviço pode fazer diminuir as receitas das empresas que o prestam. é um esforço grande, mas é para o nosso bem. Todos juntos, vamos conseguir. O nosso Governo sabe o que anda a fazer.

Quarta-feira, 20 de Julho de 2011

Neo quê?

1. As economias planificadas condenavam toda a gente a ganhar o mesmo mínimo. O nosso liberalismo também, embora não garanta nem trabalho, nem um mínimo para todos.


2. Os regimes comunistas tinham profunda aversão ao debate democrático. O primeiro-ministro tem urgência na aprovação das alterações ao Código do Trabalho. A troika quer a revisão apresentada já em Julho e, por isso, propôs que a discussão no parlamento se faça antes da consulta pública.


3. Nas economias planificadas, as respostas políticas aos problemas estavam amarradas a um dogmatismo ideológico exacerbado: Estado. No nosso liberalismo, também: mercados.


4. Nas antigas Repúblicas Socialistas, quase tudo era nacionalizado, a produção era fortemente subsidiada e havia grandes monopólios estatais. O nosso liberalismo nacionaliza e subsidia prejuízos a um sector financeiro ao qual aplica um regime tributário de favor e põe os monopólios a enriquecer rendeiros privados que exploram recursos que são de todos..


5. Os partidos comunistas tinham um comité central que decidia tudo. O presidente francês Nicolas Sarkozy irá encontrar-se com a chanceler alemã Angela Merkel hoje em Berlim para preparar a cimeira extraordinária da zona euro, que se realiza amanhã.


6. As economias de direcção central produziram desastres ecológicos colossais, que escondiam. Fukushima é muito pior do que se imagina. Pela primeira vez, a União Europeia revelou qual o melhor destino final para os resíduos nucleares dos seus 143 reactores. Contentores debaixo do solo, diz, são a forma mais segura para armazenar os 50 mil metros cúbicos produzidos todos os anos.

Até devolverem mesmo

Alberto João Jardim e Miguel Mendonça foram notificados pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) para devolverem os valores das pensões que acumulam com as respectivas remunerações pelo exercício do cargo, respectivamente, de presidente da Assembleia Legislativa e do Governo Regional. Mas não são os únicos. A comunicação foi feita a quatro dezenas de entidades públicas regionais, incluindo cinco deputados e três governantes, presentemente em violação do novo regime que proíbe a contratação directa de aposentados para funções no sector público.

Aquela minudência chamada realidade

Salários a minguar e relações laborais cada vez mais instáveis não se dão bem com o cumprimento mensal das obrigações de créditos contraídos para a compra de habitação a liquidar ao longo de períodos de duas e mais décadas. Evidência desta incompatibilidade, nos primeiros seis meses do ano, houve 3060 imóveis que foram devolvidos aos bancos, ou por incapacidade de pagamento das obrigações respectivas no presente, ou porque a antecipação dessa mesma incapacidade se reflectiu numa quebra abrupta na procura no mercado imobiliário.


E como é que o poder político responde a esta realidade? Embaratecendo os despedimentos, ou seja, tornando ainda mais instáveis relações laborais já demasiadamente instáveis à partida e, dessa forma, facilitando a substituição de trabalhadores que aufiram salários mais elevados por outros que se sujeitem a desempenhar as mesmas funções recebendo um salário tendencialmente mínimo: o número de pessoas a receber o salário mínimo nacional em Portugal praticamente duplicou desde 2006 e mais do que duplicou entre os licenciados. Diante de um problema, a resposta política é, assim, não uma tentativa de contrariar a evolução negativa das variáveis que o determinam, é antes a de um esforço para lhes reforçar a tendência de partida. O liberalismo é assim. Superior a essa minudência chamada realidade.

Terça-feira, 19 de Julho de 2011

Aulas práticas sobre voto útil: regressão social

O Governo vai apresentar no Parlamento, até ao final deste mês, uma alteração ao Código de Trabalho para reduzir de 30 para 20 dias as indemnizações por rescisão de contrato e que será alargada aos contratos mais antigos a partir de Janeiro de 2012. Adeus, direitos adquiridos. Adeus, segurança no trabalho. Ter ficado em casa no dia das eleições ou ter desperdiçado a utilidade do voto vai custar bem caro a todos os que vivem do seu trabalho. José Manuel Pureza, José Soeiro, Helena Pinto, José Gusmão e tantos outros fazem agora muita falta na AR para travar este ajuste de contas com o 25 de Abril. Os portugueses preferiram eleger quem vai votar pelo desmantelamento do edifício social que tanto custou a construir.

Convicções de um activista laranja

Depois de ter sido um feroz opositor da introdução de portagens na Via do Infante no âmbito do programa de alteração do projecto, Macário Correia afirmou hoje, em declarações à TSF, que compreende o ponto de vista do Governo e que as portagens naquela via que cruza o Algarve são “inevitáveis”. O PB sabe que Macário Correia está também a ultimar a versão definitiva da frase que substituirá a sua obra maestra “beijar uma fumadora é como lamber um cinzeiro”.


Regras da sagrada mama

A partir de agora, as regras são bem claras para todos os que frequentam as instalações da Católica em Lisboa, alunos e professores: "Modos de trajes e formas de apresentação próprias de local de lazer e de desporto não são adequados na universidade."A orientação foi tomada pelo Conselho Académico (CA) da Universidade Católica, que considera que a vida académica deve "processar-se com a dignidade indispensável a uma universidade e a uma instituição da Igreja". Por sorte, trata-se de uma universidade católica e não muçulmana, senão a notícia poderia bem ser a da obrigatoriedade do uso da burca na vida académica. Também por sorte, bastante mais sorte, apesar de privada e de haver outras universidades públicas que prestam o mesmíssimo serviço de formação, a Universidade Católica continua a ser um sorvedor de recursos públicos, senão não contaria com o dinheiro de todos nós, contribuintes , para financiar estas beatices anacrónicas contrárias à liberdade de expressão duma República laica.

Domingo, 17 de Julho de 2011

Relações perigosas

Lá fora, os proveitos que se trocam no submundo das relações obscuras entre o poder detido pelos grandes grupos de média e um poder político que supostamente emana da democracia dão um ar da sua graça com o caso das escutas do News of the world. Por cá, um artigo de péssimo gosto, ontem publicado, pintava um cenário ficcionado de funcionários públicos com salários propositadamente inflacionados (1) para desbravar terreno na opinião pública para o anúncio de hoje de Pedro Passos Coelho de que brevemente haverá novos cortes na despesa (2). Assalta-me a dúvida: fará o dito artigo sentir o seu peso na despesa pública que é paga por todos nós ou a retribuição do serviço de desinformação será objecto de compensação a outros níveis?


(1) Ter mais ou menos 500 euros todos os meses na conta bancária faz toda a diferença para a maioria das famílias. E 502 euros é a distância entre o ordenado médio de um português no sector privado (884 euros) e na administração pública (1386 euros). Por ano, o Estado paga 1,97 mil milhões de euros com os vencimentos-base de mais de 100 mil funcionários. O valor é o equivalente, por exemplo, àquele que os turistas deixaram em Portugal nos primeiros quatro meses deste ano. (16 de Julho)


(2) Pedro Passos Coelho disse este domingo que o desvio orçamental de mais de dois mil milhões de euros será compensado com novas medidas, que serão anunciadas até ao final de Agosto. «Há muito próximo de dois mil milhões de euros que precisam de ser absorvidos do lado da receita e do lado da despesa, para que até ao final do ano o objectivo que ficou fixado para o défice seja cumprido e será cumprido», disse.

Sobre a tal "ajuda": o défice português pesa no superavit alemão

Os resgates das dívidas de Portugal e da Irlanda têm sido favoráveis para os países que concederam garantias a Lisboa e a Dublin, admitiu este domingo o presidente do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), Klaus Regling, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. “Até hoje, só houve ganhos para os alemães, porque recebemos da Irlanda e de Portugal juros acima dos refinanciamentos que fizemos, e a diferença reverte a favor do orçamento alemão”, adiantou Regling, acrescentando que “é o prémio pelas garantias que a Alemanha dá só que os contribuintes alemães não acreditam”. Deixe lá, Sr. Regling, os contribuintes portugueses acreditam pelos dois.

Sábado, 16 de Julho de 2011

Desta vez, não saiu disparate

Não costumo concordar com Cavaco Silva, mas hoje lembrou-se de dizer que a política cambial da UE prejudica a competitividade das exportações europeias e tenho que aplaudi-lo. Que pena não o tenha dito antes com toda a insistência e que pena não tenha referido que prejudica muito mais a competitividade de países periféricos como Portugal do que a das economias do centro: a procura externa de automóveis da Audi ou de frigoríficos da Bosch ressente-se muito menos de um euro em constante valorização do que a procura de têxteis sem marca ou de vinhos portugueses, que são muito mais facilmente substituíveis por produtos de idêntica qualidade produzidos noutras partes do mundo sem sacrificar a satisfação de quem os compra.


Compreensivelmente, já há para aí reacções negativas que dizem que cavaco há-de querer inflação. Não me surpreende. Quem o diz prefere uma inflação selectiva que garanta a tal competitividade através do desmantelamento dos direitos laborais, nomeadamente os despedimentos tendencialmente gratuitos que permitem a substituição de trabalhadores com salários acima do mínimo por outros a quem o desespero obrigue a aceitar aquela remuneração mínima como contra-prestação pelo mesmo trabalho. Um euro forte e toda a gente a receber pelo mínimo realmente também aumenta a competitividade. Apenas requer o cuidado de ir ajustando e obrigando ao mínimo dos salários para compensar os máximos na cotação do euro.

Um caso para o inspector Marcelo

Esta manhã, o Expresso noticiava que o Governo pôs a polícia secreta a investigar Bernardo Bairrão, tese que explicaria ter sido descartado poucas horas após ser uma certeza como Secretário de Estado na actual equipa governativa. Pouco depois, o Governo desmentiu a investigação. A seguir, o Expresso reconfirmou a notícia da manhã. Naturalmente, a Secreta nem tuge, nem muge. O Marcelo é que deve tirar isto a limpo. O homem está sempre dentro destas coisas.

Orelhas de Burro

Adriana Varela – “Con la frente marchita”

Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Uma no Crato

Substituir as horas de “Estudo Acompanhado” e de “Área de Projecto” pelo reforço da carga horária das disciplinas de Língua Portuguesa e de Matemática parece-me muito bem decidido. Nuno Crato retira recursos de um folclore que pouco ou nada acrescenta ao ensino e aposta em duas disciplinas que são ferramentas essenciais da aprendizagem em todas as áreas do conhecimento. Gostei. Mas já não gostei disto.

Herança do socialismo banqueiro: Saúde

O saldo financeiro de 2010 do SNS foi de 448,9 milhões de euros, mais 111,8 milhões de euros que no anterior. Mais uma vez, confirma-se que não basta introduzir um modelo de gestão empresarial, pejá-lo de tercearização de serviços e de PPPs, e os problemas desaparecem por magia. Muito pelo contrário, os resultados operacionais agravaram-se drasticamente e, pior ainda, a qualidade dos serviços também se deteriorou. Haveria que inverter a marcha, avançar até ao ponto de onde se recuou e, partindo novamente daí, caminhar no aperfeiçoamento de um modelo de gestão que, apesar de melhor do que o actual, também não era perfeito, bem como no da promoção de melhorias na qualidade dos serviços prestados. Porém, ao apodrecer o SNS, o socialismo banqueiro deu o contributo decisivo à criação de condições para pôr a Saúde a enriquecer o sector financeiro. Agora, com o liberalismo no poder, se ninguém se opuser, a privatização é já a seguir.


(editado)


Difícil em 2º grau

O Benfica vai defrontar o Trabzonspor, vice-campeão turco, na terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Teria sido preferível que do sorteio saísse um adversário mais fácil, como Odense (Dinamarca), Zurique (Suíça) ou Vaslui (Roménia). Não saiu o Rubin Kazan (Rússia), já não foi mau. A Liga russa já vai a meio: seria um adversário complicado também pelo ritmo competitivo, que o Benfica actualmente não tem.

Demagogia barata também no Ministério das Catingas e do Chulé

É mais uma medida com enorme simbolismo. A ministra da Agricultura, Mar e Ambiente dispensou os funcionários (e não colaboradores, como se lê aqui) de usar gravata para assim poder reduzir a utilização do ar condicionado, poupar na despesa da electricidade e reduzir a pegada ecológica, chulé excluído.


A gravata é de uso obrigatório? Não. As senhoras usam gravata? Não. Os funcionários homens usam todos gravata? Não. A maioria usa? Não. Apenas os que usam gravata sentem calor? Mão. Manter o ambiente de trabalho a uma boa temperatura aumenta a produtividade? Sim. E a produtividade e as condições de trabalho não estão entre as prioridades na organização de um serviço? Pois. Dizem que a senhora Ministra tem falta de tempo. Se calhar não era mal pensado que se concentrasse na Agricultura e deixasse a catinga e o chulé para outras núpcias.

Sobre aquela cantiga da banca não poder financiar a economia porque ajudou o país e comprou dívida pública

quando se fala das dificuldades de acesso ao crédito por parte das actividades económicas, os habituais comentadores avançam com a conversa do costume: a banca não pode financiar a economia, porque teve que comprar muita dívida pública … De tanto repetidas, estas afirmações ganham estatuto de veracidade. Mas escondem a realidade, de como o sector financeiro anda a tramar o país na questão da dívida.


Comparando os 19 mil milhões de euros de dívida pública portuguesa adquirida pelos bancos com os 16 mil milhões de dívida detida pelos particulares através de certificados de aforro e do tesouro, fica bem evidente que a banca, as seguradoras e as restantes entidades do sector financeiro decidiram não comprar dívida pública portuguesa. Escolheram forçar a intervenção da troika FMI/BCE/U.E e a ascensão do PSD e CDS à governação do país. Decidiram comprar dívida soberana de outros países e adquirir outros títulos de empresas privadas para prencher as suas carteiras de activos, fizeram as suas escolhas. Mas não queiram agora fazer de conta que aconteceu o inevitável ou que a banca se rege por qualquer outro critério que não os do risco ou do lucro..


Os últimos números dos empréstimos concedidos pelo sector financeiro (INE-Junho 2011 – pág. 39.A) confirmam que, no 1º trimestre de 2011, os empréstimos concedidos para habitação própria - 121 mil milhões de euros, continuam a ser superiores aos concedidos à indústria, agricultura, comércio e serviços – 119 mil milhões de euros, dos quais 16,3 mil milhões a grandes empresas e 92,5 mil milhões a pequenas e médias empresas. Esta distorção na concessão de empréstimos não surge por acaso, é o resultado das escolhas da banca por generosas rendas de longo prazo (quase perpétuas), de baixo risco e com altas garantias. (ler artigo completo aqui)

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

Aulas práticas sobre voto útil: equidade social na austeridade

Foi com todo o descaramento que Vítor Gaspar apareceu hoje a explicar a medida que o Governo anunciou como um corte no subsídio de Natal mas que é, afinal, um agravamento do imposto sobre o rendimento das famílias. Confirmou-se o anúncio de uma medida sem estudo prévio, nem sequer quanto ao montante arrecadado: os 800 milhões anunciados eram, afinal, 1025 milhões, se é que as contas foram bem feitas. Nem uma palavra sobre a mais do que previsível vaga de encerramentos de estabelecimentos comerciais logo a seguir à época de saldos de Verão. E toda a naturalidade no anúncio da previsão de 185, milhões a pagar por centenas de milhar de precários que não têm direito a subsídio de Natal. Nas palavras do Ministro, “equidade social na austeridade”.


E, se sobre responsabilidade e competência ficámos esclarecidos, quanto a repartição equitativa dos sacrifícios ficámos ainda a saber que as empresas, por mais lucrativas que sejam, têm um tratamento em sede deste agravamento extraordinário igual ao das famílias mais pobres entre as mais pobres e do Américo Amorim especulador bolsista melhor sucedido: pagarão ZERO. Diz o senhor Ministro que às empresas já lhes foi agravada a carga fiscal em 2,5% em sede de IRC e a título permanente, argumento que não valeu para isentar os funcionários públicos do novo imposto extraordinário, apesar do anterior Governo os ter isentado do recebimento de um subsídio de Natal (ou mais) na totalidade. Silêncio sobre a manutenção da classe especuladora à margem do imposto. Na sua vez, o Ministro realçou que metade das pessoas abrangidas pelo imposto extraordinário pagará menos de 150 euros e que 22 por cento não pagará mais do que 50 euros. Na sua vez a pagar, quis dizer: 150 euros não é nada para uma família que vive com 600 euros, mas faz toda a diferença para uma empresa que lucra milhões, para um especulador que enriqueça no jogo da bolsa ou um detentor de uma grande fortuna que viva dos juros dos seus depósitos. Esses não pagam nem 150, nem merda nenhuma. Têm que ser poupados a tudo o que for possível para terem dinheiro para a privatização da água e outras sortes grandes a distribuir por quem já é rico e quer viver à sombra de uma renda a cobrar a quem pagou do seu bolso - e continua a pagar - o que estes afortunados comprarão a preço de saldo.

Sócrates & Alberto João, ajustes directos LDA

Num relatório sobre o acompanhamento das medidas de apoio à reconstrução da Madeira, divulgado esta quinta-feira, na sequência do temporal de 20 de Fevereiro de 2010, a secção regional do Tribunal de Contas reconhece que “a disponibilização de fundos acordada para 2010 foi cumprida pelo governo” de José Sócrates, frequentemente acusado por Alberto João Jardim de “roubar” verbas à Madeira. Ora, até 31 de Dezembro de 2010, segundo o TC, a Madeira recebeu 191,3 milhões de euros no âmbito da Lei de Meios e pagou 56,3 milhões de euros, ou seja, o correspondente a 29,5 por cento do total recebido, conclui o Tribunal de Contas, que não especifica para onde foi desviado pelo governo regional o saldo de 134,9 milhões de euros. Haveria que perguntá-lo ao camarada de partido Pedro Passos Coelho.

Ler os outros: "Lei orgânica do governo: a tutela em rede e os perímetros indefinidos"

«A leitura da lei orgânica do Governo diz bem das dificuldades em clarificar funções e atribuir responsabilidades. Abundam as tutelas conjuntas, as tutelas "articuladas". A redução de ministros resultou menos em superministros que em ministros enredados nas intertutelas. E também tem o seu quê de curioso o perímetro de acção do Ministro dos Assuntos Parlamentares, que passa a incluir as autarquias.


Quando os serviços da PCM (ou será agora do PM?) fizerem o organigrama do governo vão ter uma certa dor de cabeça, dadas as àreas sobrepostas e indefinidas nos perímetros dos ministérios. O caso mais engraçado é o da tutela conjunta de dois ministérios em articulação com um terceiro.» - Paulo Pedroso

Testes de stress à Educação baratinha: o sucesso escolar do socialismo banqueiro

São os piores resultados dos últimos anos. Pela primeira vez desde 2007, a média do exame nacional de Matemática do 9º ano realizado no mês passado voltou a ser negativa (43%, 50% no ano anterior). A percentagem de negativas subiu para 58%. E a de Língua Portuguesa sofreu uma quebra de cinco pontos por comparação aos anos anteriores (51%). A percentagem de negativas subiu para 43,6 por cento por comparação aos 29,7 de 2010. Nesta disciplina, foi o segundo pior resultado em sete anos de exames nacionais.


Um poema de Álvaro de Campos baralhou os alunos do 12.º ano que, no mês passado, realizaram o exame nacional de Português. As perguntas de gramática também não ajudaram. O resultado foi uma média negativa, a mais baixa em 14 anos de exames nacionais no ensino secundário. Numa escala de 0 a 20, a média total foi de 8,9, menos 14 pontos do que a obtida em 2010. O exame de Português é obrigatório para todos os alunos do 12.º ano.


Bastou aumentar um pouco o nível de exigência para que a herança de analfabetismo certificado do socialismo banqueiro ficasse exposta. Foram seis anos a promover um sucesso artificial como forma de reduzir custos através da diminuição do número de repetentes, seis anos dos quais fica também a memória da tentativa gorada de introduzir a medida da colaboração com este passe-vitte como critério de avaliação da classe docente.

Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Se quiserem ajudar a Grécia, mandem mail: totos@fitch.gr




A agência de notação Fitch cortou a nota de risco da dívida da Grécia em três níveis. O rating, que já estava em “lixo”, fica agora a um nível do patamar considerado “incumprimento”. Tal como cá, os gregos continuam na rua a mandar emails ao inimigo externo e a manifestar apoio aos seus amigos no poder, que não hesitam em poupar o povo grego a sacrifícios desnecessários e têm sido incansáveis na tarefa de melhorar o seu nível de vida e bem-estar. Um esforço que, ao mesmo tempo que é merecedor do reconhecimento popular, conforme se vê no vídeo junto, gravado ainda com o rating da semana passada, tem também irritado os mercados de sobre maneira. Os gregos têm que fazer o esforço patriótico de mandar muito mais emails. "Agora é que eles vão ver com que povo é que se meteram", grita-se nas ruas de Atenas.

Muito bem

Dois agentes da PSP foram ontem condenados a uma pena considerada rara em Portugal: quatro anos e três meses de prisão efectiva, num caso, e quatro anos, noutro. Em Julho de 2008, agrediram um estudante alemão no interior da esquadra das Mercês, no Bairro Alto, com murros e pontapés. Os juízes da 5.ª Vara Criminal de Lisboa entenderam que as atitudes provadas durante o julgamento colocam em causa os próprios fundamentos do Estado.

Passos, o incendiário bombeiro

Ao mesmo tempo que diz que anda a trabalhar para transmitir confiança aos mercados, Passos Coelho anda a regar-lhes a desconfiança com gasolina. Fê-lo quando argumentou que o memorando que assinou conjuntamente com Sócrates e Portas era insuficiente e que, por isso, desprezando os impactos que a medida teria sobre a economia – aguardemos pelo fim dos saldos para assistir a uma vaga de encerramentos de estabelecimentos comerciais -, tinha tomado a decisão de cortar nos subsídios de Natal sem qualquer estudo prévio que sustentasse a medida. Depois disso, veio o corte da Moody’s. Embalado pelo apoio popular-patrioteiro, Passos não quis aprender. Hoje, vemo-lo novamente de jerrycan na mão, a insinuar um “desvio colossal” nas contas públicas entre os números anunciados pela máquina de Sócrates e a realidade constatada pela sua. O mesmo filme da Grécia, que os mercados conhecem tão bem . Vão adorar. E o mesmo filme tão nosso conhecido, nas versões anteriores com os actores Durão a acusar Guterres e Sócrates a acusar Santana Lopes, numa repetição também na falta de um processo de averiguações com vista a aplicar os procedimentos de responsabilização financeira e (eventualmente) criminal que a lei prevê. A pesporrência é outra vez a capa da inabilidade.

Terça-feira, 12 de Julho de 2011

Simbiose: o rating empurra a austeridade e a austeridade empurra o rating

A agência de rating Moody's baixou hoje a notação do risco de dívida soberana da Irlanda, passando de Baa3 para Ba1, o que é considerado pelos mercados como "junk" (lixo). Isto significa que a compra de dívida soberana irlandesa passou a ser encarada como sendo de "risco substancial", quando antes era vista como de "risco moderado". Aquela agência de notação diz ainda que "a Irlanda está sob vigilância negativa", ou seja, que mais cortes poderão acontecer.

Estado a menos e Estado a mais: ressaca do socialismo-banqueiro


  1. Quase metade da população portuguesa estaria em risco de pobreza não fossem as prestações da Segurança Social: 43,4 por cento, segundo o Instituto Nacional de Estatística, cujo relatório sobre rendimentos e condições de vida relativo a 2009 foi ontem divulgado. Para 2010, o cenário das conclusões adivinha-se mais negro, por causa das medidas de austeridade que introduziram profundos cortes nos apoios sociais.

  2. Os bancos portugueses pagaram menos impostos em 2010. Segundo o relatório da Associação Portuguesa de Bancos (APB), ontem divulgado, o IRC pago pelas instituições do sector no ano passado caiu 63%, ou 207 milhões de euros, apesar da subida da taxa de imposto.

A banda toca, o navio afunda

O presidente permanente do Conselho Europeu admite convocar uma cimeira extraordinária do Eurogrupo para a próxima sexta-feira, para tentar acalmar as tensões que afectam os mercados de dívida de vários países da zona euro. Estes senhores hão-de pensar que nos convencem que acreditam que acalmam mercados apenas por se reunirem. Da reunião de ontem não saiu nem a sopa de optimismo da praxe, nem o xarope de confiança do costume: nada, à twiter, em 140 caracteres. À noite , Durão Barroso disse umas larachas sobre regulação das agências de rating, seja lá o que isso for. Talvez a introdução da regra “ou escrevem o que nós quisermos, ou deixamos de vos encomendar serviços, perdem o poder que vos demos e deixam de ganhar o vosso.”. Esta manhã, os juros das dívidas portuguesa, espanhola e italiana continuavam a bater recordes. Alguém se lembra do Tratado de Lisboa, o tal que iria agilizar a União Europeia e que, depois de convenientemente afastado o cenário de um referendo, foi aprovado no nosso Parlamento por PS, PSD e CDS?




Lixo ao fundo do túnel

Uma contracção do PIB de 4 por cento acompanhada de uma destruição de 100 mil postos de trabalho é a previsão do tradicionalmente optimista Banco de Portugal para os próximos dois anos. As políticas recessivas anunciadas agravarão o impacto da quebra de 10 por cento no investimento privado, juntando-lhe um corte de 5 por cento no já raquítico investimento público e uma quebra nunca vista no também já demasiadamente sacrificado consumo das famílias de 6,7 por cento. As pessoas e o crescimento económico estão definitivamente fora dos objectivos de política económica dos administradores da troika.

Quanto ao objectivo equilíbrio das contas públicas, de nada serve aumentar o IVA e o IRS se atrás deles vêm uma quebra abrupta no consumo e no investimento privado (a base de incidência do IVA), uma quebra no emprego (a base de incidência do IRS) e uma quebra na actividade económica das empresas (a base de incidência do IRC,). Todos eles ainda com impactos orçamentais pela via dos subsídios de desemprego e outras prestações sociais. Posto isto, com toda a certeza que o objectivo de política económica também não é equilibrar as contas públicas, pelo que para perceber a razão da manutenção da orientação política seguida restará olhar para as privatizações a preços de saldo, para as oportunidades de negócio proporcionadas pela transferência do filão da Saúde para mãos privadas, num processo que deixará uma Saúde para pobres a apodrecer no sector público, e para a rarefacção dos direitos laborais que visa embaratecer o factor trabalho. Os portugueses tem muito tempo para perceberem que legitimaram pelo voto uma agenda política de concentração de riqueza obtida através de uma forte regressão económica e social e de novas rendas proporcionadas pela privatização de mais recursos e monopólios naturais.

Ler os outros: “Medidas alternativas de combate ao crime: o exemplo das casas na Holanda”

«Atenção, legisladores, a Holanda reduziu em 26% o risco de assalto a novas residências sem mexer no código penal, por reduzir o "convite ao crime", como dizem dois economistas neste artigo. Como? Foi simples, mexendo nos requisitos de segurança no regulamento das edificações urbanas. Os nossos securitários precisam de estudar exemplo destes que não mostram capturas espectaculares nem fazem primeiras páginas mas são efectivos na redução da criminalidade.» - Paulo Pedroso

Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Estes gajos estão a revelar-se uns radicais de esquerda

Depois das agências de rating terem perdido o estatuto de Deus todo-poderoso a quem havia que agradar para não arriscar uma severa punição e passarem a ser vistas como o que sempre foram, uma parte bastante interessada numa especulação que há muito tem a Europa refém, é a vez da nacionalização do BPN deixar de ser uma decisão inevitável em face de um mais que hipotético risco sistémico para passar a ser um erro histórico. Quem o afirmou, em entrevista à televisão pública, foi Durão Barroso. Corrijo: em entrevista à RTP 1, Durão Barroso acaba de ordenar aos comentadores e demais papagaios-especialistas de serviço que passem a referir-se à nacionalização do BPN como um erro brutal. É esperado a qualquer momento um ataque concertado aos sites dos partidos que a aprovaram, PS, PSD e CDS.

Eles podem?

A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, interveio hoje no debate político que divide democratas e republicanos sobre o endividamento dos Estados Unidos, pressionando o Congresso a um acordo para o aumento do limite da dívida pública. Parece que o que é mau na Europa é bom nos Estados Unidos. Não sei, desta espécie de economia não percebo nada, mas tenho cá um "sentimento" que a explicação há-de estar nos mercados.

1, 2, 3, o rating do Paraíso

Em 1, o resultado da demissão dos poderes públicos e da entrega de funções de soberania aos mercados. Em 2, a histeria provocada pela constatação súbita de um processo que, porque enriqueceu muito boa gente, não é de crer tenha ocorrido apenas agora: uma Comissária a sugerir o desmantelamento de uma empresa privada, por sinal fornecedora à UE dos serviços que não quiseram que fosse (por exemplo) o BCE a assegurar. Em 3, com o circo a arder, a soberana não eleita da União Europeia a insistir na mesma solução  que provocou o descalabro de 1. Se não fossem as agências de rating, a UE seria um paraíso na Terra. 



Pode ser da água

Aqui pode estar uma boa explicação para o facto de, aconteça o que acontecer, saquem o que saquem e cortem o que cortem, os portugueses manterem no poder os mesmos três partidos há mais de 35 anos: o  Instituto Ricardo Jorge concluiu que "a grande maioria das bicas e fontanários não possui água de qualidade adequada para consumo humano". O Instituto analisou 41 fontes em Sintra, mas defende que risco para a saúde pública é extensível a milhares de nascentes espalhadas no país.

Coristas especialistas

A forma imediata da Europa se defender das descidas das notações de crédito por parte das agências de notação (rating) é deixar de lhes prestar tanta atenção, disseram à agência Lusa especialistas do sector. De prestar-lhes toda a atenção a deixar de lhe prestar tanta atenção. Não obstante, segundo a imprensa, estes radicais dos mercados continuam “especialistas”: fazem falta para engrossar o coro que entoa o refrão da austeridade necessária e obrigatória. Uma austeridade selectiva, que enriquece os mais ricos à custa do empobrecimento geral, compromete o crescimento económico e impossibilita a criação de emprego são realidades proibidas no reportório destes coristas.

Mais um legado do socialismo banqueiro

Domingo, 10 de Julho de 2011

Finalmente, responsabilidade

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, disse hoje que “o que este Governo tem para fazer é independente do que as agências de rating vierem a dizer”. Ai é? Isto, sim, é uma novidade: não foi esta a fábula que foi contada até agora. Mas é bom que diga o que diz. Caindo a história de encantar que foi a votos, os troikos deixam de poder escudar as decisões que tomem numa vontade externa. Acabou a desculpa do “nós não queríamos mas somos obrigados”. Tudo o que façam e decidam é da sua inteira responsabilidade. Aliás, como sempre foi e sempre será. É cá uma chatice… A desculpa da vontade dos mercados dava mesmo jeito.

Orelhas de Burro

Alvin Lee – “bluest Blues”

Sábado, 9 de Julho de 2011

Aulas práticas sobre voto útil: Pois


A área social para reforçar o caciquismo da troca de votos por sopas, a Saúde para apodrecer na insuficiência orçamental das autarquias e assim criar condições para a privatização minimizando eventuais custos políticos e o Ambiente o Ordenamento do Território para pôr o lobo a guardar o rebanho. Não está nada mal visto.

Ler os outros: São José Almeida

«Será que podemos pedir ao Governo que afinal não cobre um imposto extraordinário sobre o rendimento do nosso trabalho em 2011, como pensam fazer no final do ano? É que, ao que parece, as intenções que levam a tal sacrifício, em Portugal, não são entendidas pelos seus destinatários, as agências de rating.

O novo Governo do PSD e do CDS, chefiado por Pedro Passos Coelho, até fez uma profissão de fé neoliberal, prometeu e já começou a ir mais longe do que a receita neoliberal determinada no memorando assinado por Portugal com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Foi, assim, mais papista do que o Papa.

Registando, sem comentar, a facilidade e a rapidez com que as opiniões sobre este assunto mudaram em Portugal - apenas pergunto: então agora já não é preciso "acalmar os mercados"? -, aparentemente porque mudaram os partidos no Governo, confesso que a decisão da Moody"s de baixar o rating de Portugal era, para mim, expectável. O capitalismo financeiro não vive de boas intenções e, na guerra entre o dólar e o euro, não se deixa impressionar por profissões de fé ideológicas, por muito que elas estejam de acordo com cânones por que se rege o próprio sistema, desde que elas não sejam suficientemente úteis e não dêem o lucro pretendido. E a Moody"s segue as regras e quer mais e mais. E é preciso que a venda do património empresarial público que vai começar seja feita a verdadeiro preço de leilão.

Isto porque há coisas que não mudam e a história mostra-o. A essência do capitalismo, o que o move nas suas várias etapas, desde o seu início no século XIV, é o lucro. E a sua evolução na obtenção de formas de o engrandecer foi feita em combate com as forças que o tentaram regular: os Estados. É por isso que é permanente a guerra entre a "liberdade do mercado" e a sua regulação pelos Estados, a disputa pelo predomínio entre o poder político e o poder económico, a luta entre os vários momentos do liberalismo económico (renascido há trinta anos e rebaptizado de neoliberalismo) e as várias formas de estatismo, de esquerda ou de direita, democratas ou ditatoriais. É por isso que historicamente cabe ao capitalismo, e não só ao actual capitalismo financeiro, defender e aumentar as formas de obter lucro, bem como cabe aos Estados defender o interesse das populações - de formas mais ou menos democráticas, com soluções mais à esquerda ou mais à direita -, de modo a que haja equilíbrio na sua exploração pelo capitalismo e na defesa de algum bem-estar. E evitando-se assim o que se convencionou chamar de capitalismo selvagem.

Há uma coisa que a história também ensina e é que, para que haja lucro, é preciso que haja consumo, para que haja consumo, é preciso que haja produção e poder de compra e, para que isto exista, é necessário trabalho, que é a base do sistema, tal como o fim é o lucro. E, para que o sistema funcione, é preciso que quem trabalha seja pago para poder consumir aquilo que é produzido pelo seu trabalho. Ou então regressamos à escravatura. Ou seja, é pelo salário que recebe pela venda da sua força do trabalho que a população mundial tem assegurado o lucro do capitalismo. Quer pelo que recebe e gasta a consumir os produtos produzidos, quer, claro, através do que não recebe por ser pago abaixo do nível do que produz. Acresce a esta forma clássica, uma outra fonte de lucro, o do investimento não produtivo, o dos rendimentos no que se chama o mercado financeiro, e que é ele mesmo essencial à actual fase de capitalismo financeiro.

O lembrar destas evidências sobre o sistema serve aqui para situar a pergunta: como é possível alguém acreditar que é baixando drasticamente o poder de compra das populações e impossibilitando o estímulo do funcionamento da economia grega ou portuguesa ou irlandesa que se ultrapassa o bloqueio a que chegou o crescimento económico?

Até quando teremos que esperar que a União Europeia, como um todo, perceba que tem de encontrar novas regras de funcionamento e reinventar a forma de cumprir o seu papel histórico enquanto poder político e regulador do sistema, para conseguir equilibrar a sua relação de forças com o poder económico e financeiro? Quando vai a União Europeia retomar o seu papel de representante política das suas populações? Vai esperar que o euro rebente? Ou mesmo que a própria União colapse? Será assim tão grande a sua falta de autonomia em relação ao capital financeiro? (...)» - São José Almeida

E o povo a ver

Conclusão óbvia: Nem Cavaco, nem os seus camaradas de saque mudaram; os analistas é que tiveram um ataque de ignorância súbita. E o povo a ver.
Observação: a notícia desapareceu rapidamente da página principal da publicação em causa, onde esteve não mais de 15 minutos. Apareceu depois, corrigida.

Ler os outros: "Afinal, os mercados não são amigos dos nossos aspirantes a liberais"

«Os nossos aspirantes a liberais passaram os últimos anos a desenvolver uma teoria complexa de uma enorme profundidade ideológica: as coisas são como são. E pronto, é isto. Os mercados são como são. E sendo como são, só lhes devemos estar agradecidos por serem assim mesmo. São eles que nos emprestam dinheiro. E, como explicou o nosso Presidente, que é, ele próprio, como é, não devemos aborrecer os mercados. Porque se os mercados são como são, se ficarem aborrecidos são muito piores. E da mesma forma que os mercados são como são, as agências de rating, está visto, limitam-se a ser as mensageiras da realidade. Ela própria indiscutível, por ser como é.

Os nossos aspirantes a liberais sorriem quando falamos de especulação e ataques ao euro. "Ui, que malandros são os especuladores!", dizem com ar trocista. Os nossos aspirantes a liberais desprezam quem diz que as agências de rating se dedicam ao tráfico de influências que vai destruindo economias. "Sim, matem o mensageiro em vez de tratar da doença!", acusam. As agências só fazem o diagnóstico, acreditam eles.

Os nossos aspirantes a liberais chegaram ao governo. Apresentaram um plano de privatizações muito catita. Disseram que iam mais longe do que já era muito distante. E os especuladores, que são como são, nem quiseram saber. E os traficantes de ratings, que são como são, estão-se nas tintas. Ao contrário do que nos diziam os nossos aspirantes a liberais, o problema não era a credibilidade de quem fazia as propostas. Ao contrário do que sinceramente pareciam acreditar, o problema nem eram as propostas. O problema é que no casino a casa ganha sempre. E ou se põe fim ao jogo ou se sai de lá depenado. Quem acredita que a solução está em Portugal pode começar a preparar a falência e a saída do euro. Quem ainda não percebeu que a especulação também ganha com a nossa falência vive noutro tempo, quando o jogo era bem mais simples. Também se aposta na desgraça alheia. E os que estão a atacar o euro não esperam de nós soluções. Esperam apenas que nos verguemos. Com Sócrates, Passos Coelho ou outro qualquer. Eles querem lá saber...

A classificação da Moody's é um escândalo? É injustificada? É pouco fundamentada? Mas alguma vez foi séria, justificada ou fundamentada? Será que ainda ninguém percebeu a que se dedicam estas instituições? Para quem trabalham e como ganham a vida? O mais perturbante nos nossos aspirantes a liberais não são as suas "soluções". É mesmo a sua candura.» - Daniel Oliveira, no Expresso Online.

O mais perturbante nos nossos aspirantes a liberais é o apoio incondicional que conseguem  através dos média que detêm  de um povo desprovido de memória e senso crítico. Até há um par de meses, quem ousasse questionar as agências de rating era radical de esquerda, maluquinho, utópico e irresponsável. Hoje, questionar as agências de rating é qualidade indispensável para ser um bom patriota. A inconsciência geral nem sente a falta que fazem os deputados que arredaram ou deixaram arredar da Assembleia da República. O país caiu nas mãos dos eleitos para nos roubarem tudo a que puderem deitar mão.

Quem manda nas agências de rating?

«É accionista de referência da S&P e da Moody’s e tem participações de relevo em 36 países.

É considerada a entidade mais poderosa do mundo a actuar nos mercados financeiros e talvez seja uma das mais discretas. A Capital Group é, através de uma das suas empresas, a Capital World Investors, a maior accionista da entidade que detém a agência de ‘rating' Standard & Poor's e tem uma participação de mais de 10% na Moody's. Além disto, através de fundos de investimento, a Capital World Investors detém ainda milhões em dívida soberana, onde se incluíam no final de 2010, pelo menos, 370 milhões de euros em dívida da Irlanda, Portugal, Espanha e Grécia. Este valor pode ser superior, já que diz respeito apenas a dois fundos direccionados para o retalho de uma das cinco entidades do Capital Group.

A reputação do Capital Group é de discrição quase absoluta. Raramente aparece na imprensa e nem sequer faz publicidade aos seus produtos e serviços. Uma das poucas vezes que a entidade financeira deu que falar aos jornalistas foi quando um dos seus analistas criticou, em 2003, o presidente da Time Warner. Meses depois, este foi demitido. O mesmo analista do Capital Group voltou ao ataque, criticando em 2008 o presidente-executivo da Yahoo por este ter rejeitado uma OPA lançada pela Microsoft. O guião repetiu-se e, meses depois, o homem forte da tecnológica foi forçado a sair do comando.

A Bloomberg refere que a Capital Group opera com "luva de veludo" no controlo e influência das empresas onde está investida. Já o britânico "Independent" refere que a instituição "é quase patologicamente receosa dos media". Mas a sua influência é inversamente proporcional ao seu ‘modus operandi' recatado.

Um estudo publicado no ano passado por dois investigadores do Swiss Federal Institute of Technology concluiu que o Capital Group era a instituição financeira com maior poder nos mercados globais. A investigação incluiu 48 mercados, concluindo que o grupo é "uma accionista proeminente do controlo simultaneamente em vários países", concluem Glattfelder e Battiston. O ‘ranking' feito pelos investigadores pode ser encarado como "uma medida de controlo e de poder potencial (nomeadamente, a probabilidade de determinada entidade conseguir atingir os seus próprios interesses em oposição a outros actores). Dadas estas premissas, não podemos excluir que os maiores accionistas com vasto poder potencial global não exerçam esse poder".


O montante canalizado para dívida nacional por dois dos veículos geridos pela Capital World Investors, o American Capital World Bond Fund e o American Funds Insurance - Global Bond Fund, ficava-se pelos 19,5 milhões de euros no final de 2010, aplicados em Obrigações do Tesouro que vencem em 2020, segundo a Bloomberg.

No entanto, os investimentos do Capital Group em Portugal não se ficam pela dívida. Uma outra empresa pertencente ao universo da sociedade de investimento mais influente do mundo, a Capital Research & Management, detém 10,09% da Portugal Telecom, posição avaliada em perto de 600 milhões de euros aos preços actuais da operadora liderada por Zeinal Bava transacciona em bolsa. É mesmo o maior accionista da operadora portuguesa.

Os fundos geridos pela Capital Research & Management construíram uma participação qualificada na PT, isto é, acima de 2%, a 12 de Agosto, já depois da empresa nacional ter decidido vender a posição que detinha na brasileira Vivo à Telefónica. No final desse mês, a Capital Research reforçou a posição 5,07% e a última posição conhecida era de 10,09%, podendo ser superior sem que tenha de ser comunicada.

Poder de fogo do Capital Group é igual ao do mega-fundo da UE

Em Maio, a União Europeia, em conjunto com o FMI, tentou impressionar o mercado, com a criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira com um poder de fogo de 750 mil milhões de euros. Mas o arsenal financeiro do Capital Group não fica atrás do valor astronómico colocado à disposição por Bruxelas. As estimativas apontam que a sociedade financeira sediada na Califórnia tenha activos sob gestão superiores a um bilião de dólares (mais de 743 mil milhões de euros). O número é quase cinco vezes superior à riqueza produzida anualmente em Portugal.» - Rui Barroso

Ler os outros: "Carlos Moedas, ao seu dispor"


«Aos 42 anos, ainda vai um burocrata na sua primeira juventude. Carlos Moedas é o mais jovem entre os juvenis homens de confiança de Passos Coelho. Um Secretário de Estado adjunto do Primeiro-Ministro na primeira e ascendente curva da vida política que vale a pena conhecer.
Diz que os melhores anos da sua vida foram passados na Harvard Business School, o ninho dos gestores de elite da economia mundial, para onde foi depois de uma passagem pela gigante francesa Suez-Lyonnaise des Eaux, empresa que abocanhou boa parte das privatizações de águas públicas na Europa, sudeste asiático e América latina. A passagem por Boston rendeu-lhe as boas graças da Goldman Sachs, sim a mesma Goldman Sachs que já nessa altura emitia lixo financeiro a partir da especulação imobiliária, contribuindo com a sua parcela da crise financeira de 2007/2008, Carlos Moedas rumou a Londres para trabalhar em… “aquisições e fusões na área imobiliária”, António Borges foi seu conselheiro e companheiro de jornada. O bom trabalho valeu-lhe a transferência para o Eurohypo Investment Bank (Grupo Deutsche Bank), onde contribuiu com o seu saber na aquisição da imobiliária sueca Tornet pelo Grupo Lehman Brothers, sim esse mesmo.
Um fôlego para recuperar e continuemos a jornada do Moedas. Em 2004 volta a Portugal e aqui ocupa o cargo de director geral da Aguirre Newman, empresa de consultoria imobiliária que determina boa parte do mercado português. O futuro Secretário de Estado aprende rápido e o seu conhecimento da mecânica imobiliária vale-lhe nada mais que um padrinho chamado Grupo Carlyle, o império do armamento e petróleo (o mesmo grupo a quem Durão Barroso ofereceu 45% da Galp em 2004), que fez a Moedas uma proposta que ele não pôde recusar. Sai da Aguirre Newman e lança, em Novembro de 2008, o Crimson Investment Management, com a ajuda e participação dos seus amigos Miguel Pais do Amaral, João Brion Sanches (Norfin), Filipe de Button (Logoplaste) e o agora Ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas. Segundo o próprio Moedas, a aventura começou quando o Grupo Carlyle “decidiu assinar connosco um contrato de exclusividade para procedermos à procura e à gestão dos activos que eles futuramente irão deter em Portugal através do seu fundo número 3”. E o Grupo Carlyle confirma, lembrando que já possui parte do Freeport em Alcochete.
Depois desta odisseia pelos mares do capital mundial, Carlos Moedas julgou que era altura de dispor o seu saber ao serviço do país. Filiou-se no PSD assim que soou a derrota de Manuela Ferreira Leite e se ouviu o afiar das facas, apostou num cavalo errado chamado Paulo Rangel mas rapidamente percebeu que o Passos é que era.
Passado pouco mais de um ano, Carlos Moedas decide, sentado a uma mesa com a Troika, a nossa vida.» -Adriano Campos, no Adeus Lenine.

Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Trabalhos preparatórios do ataque da finança ao filão da Saúde

Coincidências do diabo

Os três gestores alemães acusados de burla qualificada e falsificação de documentos no negócio dos submarinos poderão ver extinta a sua responsabilidade penal se, entretanto, for reparada a totalidade dos prejuízos ao Estado português e este concordar em desistir do caso. Tudo graças a uma nova lei aprovada no Parlamento em 2007 pelos partidos preferidos dos portugueses. O negócio em causa, recorde-se, é anterior.

Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Crescer é aprender

Em pequeninos, dizem aos portugueses que, se não se portarem bem, depois o Pai Natal não dá prendinhas. O Pai Natal é amigo, mas só se souberem comportar-se. Em grandinhos, dizem aos portugueses que basta portarem-se bem e os mercados depois recompensam esse esforço. Os mercados são amigos, mas só se souberem aguentar caladinhos os sacrifícios que quem manda decida por bem colocar-lhes no sapatinho. Em pequeninos, quando chega o dia da descoberta de que o Pai Natal não existe, é um berreiro desgraçado. Mas a choradeira logo acalma quando é dada a parte boa da notícia: vai continuar a haver prendas mesmo sem Pai Natal. Em grandinhos, chegado o dia que poderia ser da descoberta de que a fábula dos mercados é uma treta de todo o tamanho, é um berreiro desgraçado. Neste preciso momento, estamos na fase da ressaca. Os crescidinhos vão acalmar apenas quando o Pai Natal dos sacrifícios voltar a recarregar-lhes os sapatinhos. Se continuarem a portar-se bem, um dia, quem sabe… os mercados hão-de mesmo recompensá-los.