quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sangrar alegremente "pela Pátria"


Cavaco Silva disse hoje esperar que os portugueses queiram ser “curados” e que sejam capazes de responder aos desafios que foram colocados pela comunidade internacional. Quando o interrogaram sobre o que quis dizer com a expressão “não há cura para aquele que não quer ser curado”, utilizada por si de manhã num discurso, Cavaco esclareceu tratar-se de uma frase de um médico célebre do século XVI, João Rodrigues de Castelo Branco, o Amato Lusitano. Naquele tempo, utilizava-se a sangria como terapia e era preciso convencer os pacientes a deixarem-se sangrar, muitas vezes até à morte. Não confundir, portanto, “curados” com a prisão de quem afundou o BPN, com a renegociação das PPP, com a investigação criminal de tantos e tantos negócios escandalosos, onde, naturalmente, se incluem também estas últimas, ou curados através de uma redistribuição mais justa do rendimento e de mais justiça na economia. Era mesmo sangria que Cavaco quis dizer. Espera que os portugueses queiram ser sangrados. Com todo o gosto, senhor Presidente, como vimos no Domingo passado.

O PS às nhenhas



António José Seguro anunciou a sua candidatura diante de uma multidão de militantes de base, deputados, ex-deputados e autarcas do PS. No dia anterior, no mesmo local, Francisco Assis fez o mesmo, mas apenas diante de jornalistas. Seguro há-de ser bem mais bonito ou simpático do que Assis. É que nenhum dos dois disso o que quer fazer do partido e Seguro vai à frente na corrida. Aqueles apoiantes apoiarão o quê?

Dúvida

Leio para aí que o grande erro do PS foi ter-se afastado tanto da esquerda que deixou de distinguir-se do PSD. E leio também que o grande erro do Bloco foi não se ter aproximado desse PS. Ter-se negado a formar uma grande aliança com essa esquerda que decreta despedimentos tendencialmente gratuitos e tem alergia à ideia de pôr quem nunca pagou a pagar a crise que cavou. A ideia há-de ser fazer com que o bloco se confunda com quem se confunde com o PSD. E ganhar com isso. Há quem não tenha aprendido nada com a experiência Alegre ou estarão só a disfarçar que foi uma aposta que teve custos demasiado elevados?

Os papagaios da dívida

Bem me parecia que se passava alguma coisa. Os papagaios da rádio, que antes das eleições diziam que renegociar a dívida portuguesa nem pensar, estavam hoje a dizer que renegociar a dívida é inevitável. Angela Merkel atirou-se à Comissão e ao BCE e exige a reestruturação imediata da dívida grega. Estes papagaios de fila, que empurram eleitores, também pesam na nossa dívida. Rentabilizam-na nas contas que prestam aos seus patrões e estes, por sua vez, rentabilizam-nos com o que cai do pacote daquilo a que chamam de "ajuda", com toda a propriedade. É negócio.

Travão nesses umbigos

Depois da derrota de Domingo passado, anda para aí uma histeria colectiva a gritar pelo rolamento de cabeças no Bloco de Esquerda. É muito fácil partilhar as vitórias. Quando se ganha, ganhamos todos. Saber lidar com as derrotas é que não é para todos. E esta, que não é apenas do Bloco, é de todos a quem farão falta os deputados que o Bloco perdeu, começou quando a crítica deixou de ter utilidade construtiva e passou a servir apenas para fazer inchar umbigos que cresciam ao ritmo das palmas que iam arrancando os comentários de finíssimo recorte técnico dos seus portadores.


E não é que tenha alguma coisa contra o debate de ideias. Pelo contrário. Entre o que mais gosto no Bloco está a sua tradição de debate. Mas o debate tem locais próprios para ser feito. Por sinal, o último grande debate até ocorreu pouco antes das eleições e dele saiu uma liderança com uma legitimidade inquestionável.


Porém, saber-se-á como e pelas mãos de quem, o certo é que a imagem que passou na comunicação social foi a de uma liderança fragilizada e de um partido dividido. E o que é que fizeram aqueles bloquistas mais mediáticos? Não trataram de afastar essa imagem. Não somos todos obrigados a pensar da mesma maneira, pois não. Mas usaram daquele silêncio que também fala sem destruir? Não. Juntaram-se à tarefa de desgaste dos outros.


Ficou bem à vista que o bloco está incomparavelmente melhor servido de liderança do que de comentadores nos média. Todos vemos os dos outros partidos a fazerem o seu trabalho e, se discordam, fazem-no com o recato devido. Não estou a pedir cabeças. Apenas o respeito que merece quem tanto trabalhou, mais do que todos, por um bom resultado, se pedir o apoio que sempre fizeram por merecer for pedir demasiado.


O Bloco sofreu uma pesada derrota, é verdade. Mas entre as suas causas não estão nem um mau programa, nem propostas incoerentes ou de qualidade duvidosa, nem uma campanha mal feita, nem um trabalho deficiente dos seus deputados, muito menos falta de capacidades ou de competência. Isto é que deveria valer. Não valeu e perdemos. Agora, vamos assumi-lo, reflecti-lo, digeri-lo. Há muito tempo. E Seria tão bom se não continuássemos a perder oferecendo aos adversários o espectáculo que se vê por aí. Travão nesses umbigos. E deixemos as chicotadas psicológicas para o futebol.