Apesar da campanha eleitoral deplorável a que assistimos, ninguém poderá dizer que não sabia ao que ia quando hoje decidiu em quem votar ou não votar. Das cinco maiores forças partidárias, três ofereciam um prolongamento ainda mais penoso das dificuldades vividas nos últimos anos. As outras duas, outras tantas alternativas com o denominador comum do rompimento com um historial de 37 anos de apostas erradas, das quais resultaram ganhadores e perdedores bem definidos e uma série infindável de negócios muito pouco limpos.
E os portugueses não quiseram mudar de vida. Pelo contrário, a direita reforçou o seu score de 2009, com a nuance importante de uma substituição de José Sócrates por uma dupla formada por Passos Coelho e Paulo Portas. O PS, vítima de si próprio, sofreu uma pesada derrota. À esquerda, a CDU cresceu um pouco e o Bloco desceu imenso. Descida mais do que natural, todos vimos qual foi o inimigo público número 1 da preferência dos comentadores de serviço, qual foi a força partidária que menos tempo de antena teve nos noticiários e qual aparecia sempre em último na ordem dos alinhamentos.
Temos, assim, que não haverá auditoria à dívida, pelo que ficaremos sem saber quem gastou o quê e quem ficou a dever o quê. Mas sentiremos quem vai pagar e quanto. Vai ser muito mais fácil despedir, encolher salários, aumentar impostos, descapitalizar a Segurança Social, baixar pensões, manter o sector financeiro fora da crise, engrossar a classe de rendeiros do país, privatizar recursos que são de todos e desmantelar serviços públicos. Os portugueses quiseram assim. Amanhã, começaremos a falar disso. Amanhã, já se pode falar nisso. Os votos já lá moram. A partir de agora, será cada um por si. Salve-se quem puder.
