Leio aqui o eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes a defender que não vale a pena fazer uma auditoria à dívida portuguesa porque todos sabemos que o responsável pelo descalabro das contas públicas é José Sócrates e a auditoria seria uma caça às bruxas. Aqui está um exemplo de como o mundo pode ser tão simples. Basta substituir José Sócrates (sei lá, é só uma sugestão) por Passos Coelho, que depois não nos fará mal nenhum fazer sacrifícios para manter as bruxas bem gordinhas. Aliás, toda a gente sabe que o Estado é que é para emagrecer, não as bruxas. A austeridade não é para elas. Eu cá também não acredito em bruxas, mas que têm gente muito amiga a defendê-las nos jornais, disso não tenho dúvidas.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Manobras de diversão (continuação): Passos "pró-vida"
Manual "como manter a campanha fora da discussão da calamidade que a inconsciência dos portugueses se prepara para legitimar pelo voto": puxar um tema fracturante que, embora já resolvido, possa diferenciar dois ou três partidos com o mesmo programa económico de austeridade socialmente selectiva.
Aplicação prática: O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, quer rever a lei do aborto e admite um novo referendo sobre a matéria. Em declarações ontem à Rádio Renascença, Passos Coelho lembra que sempre defendeu a legalização do aborto mas frisa que é preciso, passados quatro anos, ver o que correu bem e o que correu mal. (de manhã). Passos Coelho diz que rejeita apresentar propostas de alteração à lei do aborto (à tarde). À noite, se já não havia o mais ligeiro vestígio da lei da IVG, do descalabro que resultará do malfadado pacote da troika ainda havia menos.
Isto é que é criatividade
Depois de Krugman, ontem, é hoje a vez do norte-americano Nouriel Roubini dizer que a estratégia da zona euro está condenada ao fracasso e que a Grécia deve fazer uma reestruturação da sua dívida. O Ministro das finanças alemão é contra esta última ideia e pede mais “criatividade” para enfrentar a recessão. A criatividade destes senhores não dá para mais do que o mix de sopa de austeridade e xarope de mercados que tem somado crise à crise, riqueza ao sector financeiro e pobreza a quem vive do seu trabalho. Uma criatividade que passa por admitir como verosímil que Portugal não repita o caminho percorrido pelos gregos: ao contrário de Krugman, Nouriel Roubini aponta como caminho da salvação portuguesa a mesma via dolorosa de austeridade que afundou de vez a Grécia. O alemão pediu criatividade. O americano não o deixou à espera.
