quinta-feira, 26 de maio de 2011

O amigo das bruxas

Leio aqui o eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes a defender que não vale a pena fazer uma auditoria à dívida portuguesa porque todos sabemos que o responsável pelo descalabro das contas públicas é José Sócrates e a auditoria seria uma caça às bruxas. Aqui está um exemplo de como o mundo pode ser tão simples. Basta substituir José Sócrates (sei lá, é só uma sugestão) por Passos Coelho, que depois não nos fará mal nenhum fazer sacrifícios para manter as bruxas bem gordinhas. Aliás, toda a gente sabe que o Estado é que é para emagrecer, não as bruxas. A austeridade não é para elas. Eu cá também não acredito em bruxas, mas que têm gente muito amiga a defendê-las nos jornais, disso não tenho dúvidas.


Numa auditoria que está a fazer à gestão e regulação de Parcerias Público-Privadas (PPP) , o tribunal de Contas voltou a questionar a legalidade dos pagamentos extra que a Estradas de Portugal (EP) se comprometeu a fazer pelas cinco subconcessões que chegaram a ser chumbadas e, num relatório preliminar, escreve que a EP se comprometeu a fazer pagamentos "que carecem de fundamentação jurídica", quando assinou anexos ao contrato com um conjunto de pagamentos "contingentes". Estes pagamentos serviam alegadamente para compensar os custos financeiros adicionais sofridos pelas concessionárias durante a negociação das propostas. Neste contexto, não é de excluir que o Ministério Público venha a averiguar eventuais responsabilidades criminais por parte da EP e de quem se envolveu na assinatura deste tipo de contratos paralelos. O TC refere no relato preliminar que "estes acordos não integraram os documentos que instruíam o processo de visto" [prévio].

Manobras de diversão (continuação): Passos "pró-vida"

Manual "como manter a campanha fora da discussão da calamidade que a inconsciência dos portugueses se prepara para legitimar pelo voto": puxar um tema fracturante que, embora já resolvido, possa diferenciar dois ou três partidos com o mesmo programa económico de austeridade socialmente selectiva.


Aplicação prática: O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, quer rever a lei do aborto e admite um novo referendo sobre a matéria. Em declarações ontem à Rádio Renascença, Passos Coelho lembra que sempre defendeu a legalização do aborto mas frisa que é preciso, passados quatro anos, ver o que correu bem e o que correu mal. (de manhã). Passos Coelho diz que rejeita apresentar propostas de alteração à lei do aborto (à tarde). À noite, se já não havia o mais ligeiro vestígio da lei da IVG, do descalabro que resultará do malfadado pacote da troika ainda havia menos.

Isto é que é criatividade

Depois de Krugman, ontem, é hoje a vez do norte-americano Nouriel Roubini dizer que a estratégia da zona euro está condenada ao fracasso e que a Grécia deve fazer uma reestruturação da sua dívida. O Ministro das finanças alemão é contra esta última ideia e pede mais “criatividade” para enfrentar a recessão. A criatividade destes senhores não dá para mais do que o mix de sopa de austeridade e xarope de mercados que tem somado crise à crise, riqueza ao sector financeiro e pobreza a quem vive do seu trabalho. Uma criatividade que passa por admitir como verosímil que Portugal não repita o caminho percorrido pelos gregos: ao contrário de Krugman, Nouriel Roubini aponta como caminho da salvação portuguesa a mesma via dolorosa de austeridade que afundou de vez a Grécia. O alemão pediu criatividade. O americano não o deixou à espera.