quinta-feira, 19 de maio de 2011

A calamidade bestial

O Banco de Portugal diz que o “acordo” que o PS, PSD e CDS assinaram de cruz com a troika provocará uma “recessão prolongada”, mas, ao mesmo tempo, diz que deverá “criar as bases para um crescimento económico sustentável no médio prazo”. Diz que a sua implementação “será acompanhada de uma contracção sem precedentes do rendimento disponível real das famílias e de novos aumentos da taxa de desemprego”, que “a exigência e o impacto económico e social do Programa no curto prazo são substanciais”, mas chama-lhe “equilibrado” e diz que mitiga o impacto “sobre os segmentos mais vulneráveis da população”.


O relatório anual hoje publicado pelo Banco de Portugal, que todos pagámos muito bem pago, é uma amálgama de contrários. Assim, é difícil errar. Talvez por esta razão nas notícias apareça como “Banco de Portugal elogia programa da troika”. Nada de pânicos, o chorrilho de contrários que leram acima era, afinal, uma sucessão de rasgados elogios. À inteligência de quem leia ou ouça.


Para que ninguém entre em stress, resumamos os elogios: vai ser uma calamidade bestial. Alegrem-se, por favor.

Ao ataque, meus piratas

Rei morto, rei posto. No dia imediatamente a seguir a Dominique Strauss-Kahn ter apresentado a sua demissão, uma aliança franco-alemã foi hoje selada informalmente entre os ministros dos dois países responsáveis pelos assuntos europeus. Os donos da Europa cobiçam o lugar deixado vazio pelo entretanto libertado francês que, dizem as más línguas, se levou à perdição por ser doido por empregadas de hotel. Não precisam de votos para nada, apenas de se fazerem escolher. E que ninguém lhes desobedeça ou levante questões desnecessárias à sua autoridade.

Votar no monopólio: quem vem mudar o cano?

A privatização parcial do grupo Águas de Portugal (AdP), que o PSD prevê no seu programa eleitoral e que José Sócrates qualificou no sábado como uma "aventura irresponsável", foi discutida e preparada pelo actual primeiro-ministro quando tutelava a pasta do Ambiente, em 2000 e 2001. Desde então, é bom recordá-lo, o Bloco denunciou a manobra, mas, como sempre acontece, a denúncia foi retratada pelos média como mais um delírio do radicalismo.


Hoje, fica o sinal de mais esta coincidência entre o programa do PSD e a agenda secreta do PS. Dar-lhe a força de um voto, tal como ao PSD ou ao CDS, é fortalecer uma solução que sobrecarrega o consumidor com a multiplicação do preço de um recurso que é de todos e desvia este prejuízo, transformado em renda, directamente para os bolsos dos felizes contemplados com a sua apropriação.


Será de realçar que a privatização da água tem custos económicos e sociais ainda maiores do que os da electricidade ou dos combustíveis, na medida em que, enquanto com a electricidade e com os combustíveis a concorrência é uma miragem, no caso da água ela é uma impossibilidade. Para percebê-lo, bastará vestir a pele do consumidor que se confronte com situações de deficiências na qualidade do serviço ou com abusos tarifários e que, por isso, queira mudar de fornecedor. Será difícil imaginar uma multiplicidade infinita de canos, pertencentes a outros tantos fornecedores concorrentes, a serpentearem por debaixo do asfalto das nossas ruas. E há ruas onde nem a imaginação torna rentável fazer passar um único cano. Pelo menos para mentes menos dotadas do que aquelas mais “de mercado”, dessas que as defendem mas não conseguem enumerar uma única vantagem para a economia portuguesa e para os consumidores da privatização da electricidade e dos combustíveis, é mesmo difícil. Mas eles são umas mentes abertas que primam pelo optimismo. É curioso como falam tanto em dinamizar o sector de bens transaccionáveis e como fomentam a constituição de monopólios e oligopólios de bens não transaccionáveis. O diabo é que, com a água nas mãos de um monopólio privado, se souber a raios ou o preço disparar, não nos valerá de nada chamá-los para mudar o cano..