quarta-feira, 11 de maio de 2011

O debate e as troikas de comentadores ao serviço da causa


Terminado o debate entre José Sócrates e Francisco Louçã, iniciou-se uma amena cavaqueira entre três embaixadores nos média das soluções FMI. Curiosamente, falaram mais tempo do que durou o objecto da sua prosápia. Depois deles, nova troika defendeu as mesmas cores. Estão no ar no preciso momento em que escrevo estas linhas, o programa também durará mais do que os 45 minutos do debate. E nova curiosidade: um dos elementos da segunda troika é irmão de um dos elementos da primeira. Acontecem coincidências do diabo entre 10 milhões de portugueses.


Sobre o debate, quer nas palavras destas duas troikas, quer na imprensa escrita que já o abordou, são facilmente identificáveis três prioridades na conversa destes senhores.


Primeiro, que o Bloco deveria ter esgalhado um programa eleitoral antes do debate deles, apesar da Convenção Nacional ter tido lugar há apenas três dias e, como todos tivemos oportunidade de não assistir, ter tido um destaque mediático menor do que o que hoje deram ao pretenso atraso.


A segunda, a renegociação da dívida defendida no debate por Francisco Louçã, é reveladora, simultaneamente, quer do atraso destas troikas de comentadores relativamente aos seus colegas da imprensa internacional, quer da estratégia do medo que estão incumbidos de incutir no público que os ouça: não caberá na cabeça de ninguém que venha miséria ao mundo por não pagarmos as dívidas contraídas em negócios que actualmente estão a ser julgados na Alemanha por corrupção e muito menos naqueles outros em que o Governo ofereceu 12 e 14 por cento de juros nas “parcerias” que firmou com as empresas mais próximas, ainda por cima pondo o Estado a assumir todo o risco do negócio. A postura despeitada e indignada sugere que o patrão seja o mesmo e também que, quando dá jeito, as propostas que o Bloco apresenta publicamente são para ignorar. Esta já é do conhecimento público há dois dias.


Finalmente, relacionada com a segunda, uma terceira: a da afirmação de que o problema de Portugal é a sua burguesia. Não é? Pendura-se no Estado sempre que pode, fala mal do Estado com a mesma frequência, quer emagrecer o Estado para se engordar a si própria e prefere pagar o pior possível e dar o mínimo de estabilidade que a oportunidade permita a quem trabalha do que arriscar em novos ramos de negócio e em aperfeiçoamento da organização e da gestão das suas empresas. Provavelmente, se assim não fosse, eles não seriam os comentadores de serviço. No seu lugar, com toda a certeza que também trataria de manifestar todo o meu desagrado.


A reter, no debate ficou bem claro que há uma agenda a implementar depois das eleições, bem distinta daquela que figura no programa eleitoral com que o PS partiu à conquista do seu eleitorado. Mas, disto, os senhores evitaram falar. Também muito graças a estes amansadores, a política portuguesa tem-se feito de uma sucessão de traições impunes. Depois, lá vem aquela do "os políticos são todos iguais". Esta noite, Louçã voltou a mostrar que não é assim.


Para quem não assistiu em directo, o video do frente-a-frente está disponível aqui.


(post republicado em virtude do apagamento verificado na plataforma blogger)

A coelhada do dia

A coelhada de hoje ensina como agradar a gregos e a troianos sem fechar a porta do voto a ninguém: Passos Coelho (putativo candidato a Sócrates) quer manter IVA intermédio, Catroga (putativo candidato a Teixeira dos Santos) admite que... não.

Justiça na economia #6



Há terrenos agrícolas que se valorizam astronomicamente apenas porque, por magia, um acto administrativo os transforma em terrenos onde passa a poder construir-se. As mais-valias assim geradas fazem pressão sobre os preços e a especulação urbanística que resulta desta realidade gera um endividamento desnecessário. Gera corrupção. Gera desordenamento do território. Gera custos com a construção de infra-estruturas que, de outra forma, nunca existiriam. Mais uma vez, o sistema proporciona o enriquecimento de alguns à custa do empobrecimento da esmagadora maioria.


A sexta proposta do Bloco visa precisamente corrigir estas distorções. Porque há quem ganhe, muito, e todos sabemos quem são e a força que têm, esta velha aspiração do Bloco tem vindo a ser sucessivamente rejeitada por quem – não vejo outra explicação – ou representa os interesses ou pertence ao grupo restrito daqueles que enriquecem através do esquema. Para PS, PSD e CDS o interesse nacional passa por manter nos bolsos de corruptos e especuladores um valor cheio de zeros que é gerado na penumbra e que pode e deve servir para financiar o interesse público e aliviar os contribuintes de outros impostos. Justiça na economia. Discorda quem perde e concorda quem ganha: os votos que o exprimam.


Sobre este assunto, recomendo vivamente a leitura desta entrevista do estudioso Pedro Bingre..

Do Portugal fantástico

Há fenómenos absolutamente fantásticos a registar neste período pré-eleitoral. Se, por exemplo, o Bloco de Esquerda inscrevesse no seu programa eleitoral um pacote de relançamento da nossa economia de, vamos supor, 2,15 mil milhões de euros, cairia o Carmo e a Trindade: “demagogos”, “extremistas”, “irresponsáveis” e o diabo a quatro.


Mas tudo muda quando são os ditos “partidos responsáveis”que, sem sequer saberem quanto nos iriam cobrar, assinaram de cruz um acordo, segundo eles, “muito positivo”, com uma trupe de piratas que, soube-se apenas ontem (1), nos vai cobrar uma taxa superior à que cobram à Grécia. Vão pôr-nos a pagar 4,3 mil milhões em juros por ano. O dobro do valor do exemplo que utilizei no início deste texto, mas sem nenhum investimento e com zero de ganhos no que quer que seja.


E o que é que transpira a este respeito do tal arco de responsabilidade? Do PSD, que o PS quer livrar-se de Sócrates, mas precisa de perder as eleições. Grande boca. Do PS, que será um perigo que o PSD vença as eleições e que só o PS garante o Estado social. Outra grande boca. O PS é incomparavelmente melhor do que o PSD e, por sua vez, o PSD é incomparavelmente melhor do que o PS. E assim andamos. São ambos bons. Tão bons que, juntamente com o CDS, puseram-se de acordo em pôr-nos a pagar a falência de um BPN por ano. Investir ma criação de emprego é radicalismo de esquerda. Torrar o mesmo em juros é uma opção responsável.


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(*) Alguém ainda se lembra das tais “negociações” nas quais o Bloco e o PCP se negaram a participar por serem uma encenação onde não se negociava coisa nenhuma? Por que é que a taxa de juro do empréstimo continua uma indeterminação tantos dias depois do anúncio do tal "acordo" "positivo"?

Gostei de ler

«Um exemplo do comportamento religioso e dogmático dos "economistas" neoliberais é o que sucedeu Joseph Stiglitz.


Stiglitz, neo-keynesiano, foi membro do conselho económico de Clinton e vice-presidente do Banco Mundial entre 1997 e 2000. Em 2001 recebeu o prémio Nobel da Economia.Como responsável do Banco Mundial, tornou-se num grande crítico do estilo neo-liberal de globalização. Criticou as instituições internacionais por pressionarem o sentido de evolução dos países de Leste e imporem-lhes soluções liberais, e atacou o comportamento do FMI na crise asiática.Recusou a estratégia económica do FMI baseada na estabilidade de preços e na liberalização dos mercados e trocas internacionais. Criticou o efeito desestabilizador, nestas economias fragilizadas, da liberalização dos capitais.


Devido a estas críticas, o Secretário do Tesouro exigiu a sua demissão, e ele acabou por demitir-se em 1999, mantendo um lugar de conselheiro especial.


Em 2000, publicou um feroz ataque ao FMI e à sua alergia à democracia: "Dizem que o FMI não ouve os países em desenvolvimento que devia ajudar. Dizem que o FMI se isola da prestação democrática de contas. Dizem que o FMI propõe remédios que pioram a situação - transformando desacelerações em recessões e recessões em depressões. E terão alguma razão. Eu fui economista-chefe do Banco Mundial de 1996 até Novembro de 1999, durante a mais grave crise do último meio século. Vi como o FMI respondeu, em acordo com o Departamento de Tesouro dos EUA. E fiquei aterrado." O lugar de Stiglitz como conselheiro especial do FMI foi então abolido.


Em 2002, publicou: "O FMI errou em todas as áreas da sua actuação: desenvolvimento, gestão das crises e nos países em transição do comunismo para o capitalismo. Os programas de ajustamento estrutural não criaram crescimento sustentável nem sequer para os países como a Bolívia, que aderiram estritamente às suas regras: em muitos países, a austeridade excessiva limitou o crescimento; um programa económico bem sucedido exige extremos cuidados quanto à ordem em que a reforma ocorre, e erros quanto a essa sequência conduzem a pobreza acrescida."


A partir daí, Stiglitz tem defendido maior intervenção pública nas políticas orçamentais e monetárias expansionistas, regulação do sistema financeiro e promoção e protecção de indústrias nascentes, ao contrário do FMI.Note-se que Stitgliz não virou socialista, continuou um capitalista, mas com consciência.


E faço notar que a rejeição da democracia pelo FMI é típica dos banqueiros e seus agentes: a banca funciona em estilo ditatorial e numa luta selvagem e assassina entre os seus membros, pelo poleiro do momento. O seu comportamento equivale à selvajaria dos piratas, aliada a tretas paternalistas típicas da máfia e outros despotismos iluminados.Não houve debate da opinião de Stiglitz. Houve apenas: "Não gosto. Não quero saber. Eliminem-no, despeçam-no, tirem-mo da frente."


E veja-se o que nos está reservado se não corrermos com o FMI, como já fez a Bolívia.



NOTA: texto adaptado e com observações minhas de Economia(s), Francisco Louçã e José Castro Caldas, pág. 215» - Nuno Miranda