O “memorando de entendimento” foi conhecido hoje, às pinguinhas. O programa do PSD apenas será apresentado no Domingo. As fotocopiadoras do partido hão-de ser mesmo lentas.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Quem quer gás e electricidade muito mais caros?
Já conhecemos sobejamente bem qual é o resultado da liberalização de um monopólio natural. Os preços dos combustíveis, que tardam ou não descem quando a cotação do petróleo baixa e que aumentam imediatamente quando a mesma cotação sobe, são apenas o exemplo mais conhecido de uma fórmula de enriquecimento que, simultaneamente, penaliza fortemente a competitividade da nossa economia, sobrecarrega os consumidores e permanece um mistério apenas para o regulador.
O “acordo” entre as troikas BCE-CE-FMI e PS-PSD-CDS prepara-se para reeditá-la nos mercados do gás e da electricidade. Com uma agravante: a taxa de IVA aplicável subirá dos 6 para os 23 por cento. O preço subirá, assim, quer pela via da nova Primavera da velha fórmula rentista de enriquecimento, quer pela via fiscal. A compensação da perda de competitividade da economia querem fazê-la através do congelamento dos salários, incluindo o salário mínimo, e de despedimentos mais fáceis. No próximo mês, há eleições. Veremos se os portugueses são da mesma opinião.
Se um Pinóquio incomoda muita gente, três Pinóquios é um luxo
Aqui, lê-se sobre a redução de serviços do Estado que, ontem, José Sócrates preferiu não anunciar e, já hoje, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas deixaram de fora dos seus momentos de glória. Só na Educação, tal redução tem um impacto orçamental projectado de 195 milhões, mas o total apresentado é de 500 milhões, com a Administração Local e a Administração Fiscal ao seu lado, à boca da trituradora. Ontem, Sócrates garantiu que não haverá despedimentos. Hoje, nenhum dos dois sócios da troika nacional o desmentiu. Será que haverá funcionários que manterão o emprego apesar de ficarem sem trabalho atribuído nos serviços a desmantelar?
Justiça na economia #2
Um país que quer promover a racionalização de recursos não pode fomentar a construção desenfreada e deixar apodrecer o parque imobiliário existente. Um país que se quer destino turístico não pode mostrar a quem o visita centros de cidades desertos e a cair aos bocados, nem oferecer-lhes um território cada vez mais desordenado. Um país que quer diminuir a dependência energética do petróleo não pode permitir que a especulação imobiliária empurre os seus cidadãos para as periferias das cidades, obrigando-os a trajectos diários em que se gastam anualmente milhões de minutos e de barris de petróleo. Um país que tem sol não pode desaproveitar esse recurso. Um país que se respeite não pode deixar 180 mil velhos em fila de espera sem um lar que preste os cuidados de que necessitam. Principalmente quando as políticas que corrigem todas estas ineficiências, ao mesmo tempo que maximizam o aproveitamento dos recursos existentes, criam emprego. Mais de 80 mil. E, se há 557 milhões para dar a empresas amigas do regime, não nos venham com a cantiga de que não há dinheiro. Não, não é facilitando os despedimentos que se combate o desemprego.
A mamã não morreu
O guião que aqui deixei, ontem pela manhã, foi seguido à risca, umas horas mais tarde. “A vossa mãe não morreu, mas partiu os braços, as pernas e algumas costelas”. À hora marcada, ontem à noite, José Sócrates leu ao país o teleponto com as excelentes notícias. Não disse que a mãe ficará paraplégica por muitos anos, demasiados mesmo, mas isso pouco importa. O mais importante é que não morreu, e todos a davam como morta.
O pai pensionista, que andou uma vida inteira a descontar para ter direito a uma velhice decente, vai pagar pelas parcerias público-privadas que, ao engordarem longe da sua vista a um ritmo alucinante, deixaram e continuarão a deixar a mãe impossibilitada de andar. A filha, que não andou a saquear o tal banco que deu o estouro por tanta rapina, vai ser castigada com três anos de congelamento do seu salário , cortado no episódio anterior desta morte anunciada. O filho, que pagava a protecção social para prevenir situações de desemprego involuntárias, vai ver essa protecção diminuída no valor e na duração, apesar de continuar a descontar o mesmo. E os bancos, esses velhos amigos, cujo aumento da mesada produziu a péssima notícia ontem tão felizmente desmentida, vão vê-la aumentada ainda mais, em muitos milhões. Os encargos são ainda desconhecidos, mas já se sabe que são para distribuir por toda a família. Entre todos, não custa nada.
Mais imposto, menos direitos, mais taxa, menos salários, até 5 de Junho, ficaremos assim. Depois, haverá total liberdade para tratar da saúde à mamã. Ai, se a tivéssemos amputado a tempo de pernas e braços, não teria partido um único osso. Pelo menos, não morreu. Já sabiam?
