terça-feira, 3 de maio de 2011

Gostei de ler: "usar a justiça contra a justiça"

«O PSD não pode dizer que quer um sistema de saúde caro (não necessariamente bom) para quem pode pagar e um sistema de saúde barato e mau, para quem não pode. Se dissesse a maioria das pessoas que quer viver numa sociedade decente nunca votaria no PSD. A justiça social é um valor importante para (quase) todos.


Como não pode dizer o que quer e o que pensa, o PSD diz coisas como: “A filha do homem mais rico de Portugal não pode pagar por uma consulta num hospital o mesmo que um desempregado”.


A isto chama-se usar a justiça contra a justiça. Explico porquê:



1º Não vejo por que é que a filha do homem mais rico de Portugal haveria de pagar o tratamento no hospital. Se o homem mais rico de Portugal pagar impostos e se estes impostos forem progressivos o tratamento no sistema de saúde já foi pago.


2º Se a filha do homem rico tiver de pagar a consulta pelo seu custo no SNS não se vê por que razão irá recorrer ao SNS e não à medicina privada.


3º Se a dita filha passar a recorrer à medicina privada não se vê por que há-de continuar a contribuir para o SNS.


4º Se ela deixar de contribuir para o SNS, o sistema público passará a ser financiado apenas com as contribuições dos que não são ricos.



Em suma: com a saída do homem rico do SNS e depois do menos rico e ainda do remediado cria-se um mercado para a medicina privada; o que fica é um sistema público sub-financiado e mau para pobres.



O PSD sabe isto tudo tão bem como eu. Sabe também, por simples observação de outras experiências, que o sistema privado é mais caro para todos os que terão de o pagar e pode ser pior que o público. Mas o privado convém aos grupos financeiros. Nos últimos anos, em cooperação com um governo que jura a sete pés defender o SNS, os grupos financeiros construíram os alicerces. Falta agora o resto. Melhor que o sector da saúde, disse uma vez uma senhora de um destes grupos, só o tráfico de armas.» - José M. Castro Caldas, Bloco Coimbra 2011.

Para inglês ver

1. O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, assina hoje um artigo de opinião no Financial Times (FT). O pacote de ajuda que está a ser negociado com a troika é "um passo vital" mas "deprimente", escreve Coelho. “Mudar esta situação é difícil, mas não impossível, se Portugal focar a sua energia no crescimento” (…) os problemas nacionais surgiram por se ter gasto de mais durante vários anos, em que se ganhou muito pouco, provocando um défice orçamental de 10 por cento do Produto Interno Bruto (PIB). (hoje)



2. Observa-se que os três períodos com maiores contributos para o aumento do peso da despesa pública no PIB foram os da Aliança Democrática (+4,4), os governos de Cavaco Silva (+4,3) e os governos PSD-CDS (+3,4). Em conjunto, estes três períodos governativos deram um contributo acumulado de crescimento de 12,1 pontos percentuais do total de 16,3 p.p. de aumento do peso da despesa pública verificado nas últimas três décadas. O contributo líquido dado pelos governos liderados pelo PS foi muito menor - apenas 4,2 pontos percentuais (2,2 +3,0 +0,8 -1,8 = 4,2), cerca de ¼ do total. (Jornal de Negócios, 5 de Abril de 2011).

Justiça na economia #1


Cortes nas pensões, baixa de salários, cortes nas prestações sociais, subida de impostos, despedimentos em massa na Administração Pública, privatização de serviços de saúde e de educação. Não há dia em que não tropecemos numa notícia deste tipo. A estratégia é conhecida: pintar o cenário do negro mais negro para que depois, quando o negro final sair menos negro do que o inicialmente pintado, as reacções sejam de alívio. “A tua mãe morreu”, num primeiro momento, e, num segundo, “afinal não morreu, mas partiu os dois braços e as duas pernas”. Que bom!


Mas será que é mesmo inevitável haver tantos braços e pernas partidas? O estardalhaço mediático a que assistimos todos os dias tem trabalhado arduamente para que se instalasse a ideia da sua “inevitabilidade”. E, como podemos ver pela proposta do vídeo junto, a primeira de vinte que serão apresentadas nos próximos vinte dias, se houver braços, pernas ou qualquer outro osso que venha a ser partido, tal não resultará de nenhuma inevitabilidade e sim de uma escolha política daqueles a quem os portugueses venham a dar esse poder no dia 5 de Junho. Vamos todos ser chamados a escolher uma de duas soluções. Uma que agrava a factura dos que sempre pagaram e outra que tenta aliviá-la pondo a pagar quem nunca pagou. Aqueles a quem os portugueses têm confiado maioritariamente os seus votos preferem retirar o abono de família a mais de 600 mil crianças e limitar as prestações sociais no desemprego a cobrar anualmente 600 milhões de euros a quem, utilizando aquele poder que lhes é dado pelos eleitores, vão permitindo que se mantenham à margem de qualquer crise. Não há inevitabilidade que não se mude com votos. Justiça na economia.