Pinto Balsemão descobriu o esquerdismo tardio de paulo Portas e o conservadorismo de José Sócrates. O memorando que os três assinaram é o mesmo, mas há que descobrir-lhe diferenças para distrair das semelhanças. Os eleitores portam-se como tolos, tratam-nos como tolos. Tem lógica.
Terça-feira, 31 de Maio de 2011
Ler os outros: João Rodrigues
«Pedro Bingre tem estudado uma das mais importantes e menos conhecidas facetas da economia política que escavacou as nossas cidades e fragilizou financeiramente o país: as “fortunas trazidas pelo vento” que dão pelo nome de mais-valias urbanísticas. A poupança das famílias foi transformada em betão com preços elevados e a banca, o pilar deste processo, canalizou para aí, na ausência de uma política pública adequada, dez vezes mais crédito do que para a indústria e a agricultura.
Parece fácil a resposta à seguinte pergunta: “quando vinte famílias pagam 3.000.000 € por um conjunto de apartamentos que mais não custou a construir do que 1.000.000 €, quem embolsou dois milhões de euros em mais-valias urbanísticas criadas por uma decisão urbanística pública?” Uma coligação, bem almofadada politicamente, entre a banca, a construção e a especulação. Agora a banca prepara-se para receber apoios do Estado, sem contrapartidas de controlo e de gestão públicas, que podem chegar aos 27% do PIB. Que fazer para combater este improdutivo rentismo e toda a corrupção que lhe está associada, para combater este modelo guiado por sectores predadores e disfuncionais? Por exemplo, começar por seguir algumas das práticas mais avançadas, aliás como propõe ousadamente a esquerda socialista. Ainda Bingre:
“Contraste-se este nosso regime comercial com o dos Países Baixos; o mercado imobiliário holandês é dos que mais exemplarmente executa a retenção pública de mais-valias urbanísticas. Mesmo que se encontrem contíguos aos perímetros urbanos, os solos agrícolas holandeses são transaccionados a preço estritamente agrícola, posto que qualquer comprador privado sabe de antemão que futuros acréscimos de valor do solo, produzidos por via de loteamentos, reverterão para o erário público. Além de reter as mais-valias urbanísticas, o Estado Holandês oferece também para arrendamento público mais de 30% do parque habitacional do país — fórmula que além de facilitar a mobilidade laboral e assegurar residência a preço justo para toda a população, dificulta sobremaneira o crescimento de bolhas imobiliárias.”
É claro que nada disto está previsto nos programas das troikas interna e externa. Porque será?» - João Rodrigues
Mérito, produtividade e outras relatividades, a curto e a longo prazo
Pedro Passos Coelho defendeu esta terça-feira que o “factor produtividade” tenha, a prazo, maior peso nos aumentos salariais, incluindo na função pública. Mas deixou por explicar como quer fazer uma avaliação de desempenho aos funcionários públicos. E como medir a produtividade? Também não disse. Mas temos a certeza que nada tem que ver com lucros, senão víamo-lo a propor aumentos salariais na proporção do seu aumento.
A PT, por exemplo, recruta trabalhadores a empresas de trabalho temporário que pagam a 500 euros por cabeça e, em 2010, foi uma das 11 empresas do mundo que maiores dividendos distribuiu por euro
A prazo, viveremos num mundo feliz e quase sem funcionários públicos, essa praga improdutiva que não gera lucro. A prazo, apenas o mérito será premiado. Como as dívidas astronómicas que Pedro Santana Lopes sempre deixou atrás de si. Esta manhã, receberam o prémio do elogio do grande líder. A prazo, Passos Coelho falará do memorando que assinou para nos pôr a pagar estas e outras santanadas. No Domingo à noite. Até lá, sejamos felizes.
Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
Abaixo esta esquizofrenia!
Marcelo Rebelo de Sousa alvitrou, no seu tempo de antena semanal na TVI, que os indecisos poderiam optar por “um mal menor”, entre o PS e o PSD. Entre um mal e outro mal. Nisto estamos de acordo. Mas há outras opções, boas opções, e ninguém é obrigado a votar mal. Marcelo sugere que sim. Aqui começamos a divergir.
E continuamos na abordagem proposta. Marcelo coloca as suas verdades professorais ao serviço de um campeonato em que uns dizem que votarão Sócrates e outros Passos Coelho. É como se os primeiros estivessem recenseados
Para eles, é assim. É o campeonato que melhor os serve. Para eles e para a comunicação social para a qual também não importam os nomes, a sua competência, o trabalho que desenvolvem. É vota Sócrates, vota Passos Coelho ou, na pior das hipóteses, no outro troiko que escolheu esta campanha para estrear o peito com um cravo com a explicação da abolição das fronteiras entre a esquerda e a direita e a sua substituição pelos vales-mercearia que atestam a competência de quem compra submarinos muito bem comprados. Numa palavra: deseducação política. A mesma que depois os faz falar em aproximar eleitos de eleitores, de redução do número de deputados e de alteração do sistema eleitoral para outro que os sirva ainda melhor.
Faz-me impressão toda esta esquizofrenia. Obviamente, não votarei Louçã porque não concorre pelo meu círculo eleitoral. Votarei na lista encabeçada pelo José Manuel Pureza, a quem reconheço um excelente trabalho e que nunca esteve distante deste eleitor.
E o leitor? Vai votar em quem votará pela flexibilização do seu despedimento e pela privatização do Serviço Nacional de Saúde e da escola pública que pagou com os seus impostos? Vai eleger quem não quer uma auditoria a uma dívida que não é sua mas que será o leitor a pagar para que quem a fez aumentar não a pague? Em quem não hesitará em sacrificar a sua reforma para aumentar lucros e o justifica com a necessidade de aumentar uma competitividade que não consegue incentivar doutra forma? Faz mal. Não sou eu quem o diz. É o próprio Prof. Marcelo.
Farsa para já, tragédia para depois
Dramático, Passos Coelho diz que não quer para Portugal “a tragédia” que está a acontecer na Grécia. Mas, logo a seguir, explica a tragédia grega com um “por não ter conseguido cumprir o acordo com a troika da União Europeia, BCE e FMI”, como se políticas austeritárias tivessem alguma vez produzido outra coisa que não acrescentar crise à crise: para já, Passos Coelho quer farsa. A tragédia guarda-a para depois das eleições.
Domingo, 29 de Maio de 2011
Sobre a Saúde rosa-laranja
Sicko, de Michael Moore (2007), é um retrato do sistema de Saúde que os americanos não querem e que os portugueses que derem a força do seu voto aos três partidos que assinaram o memorando com a troika estão a pedir para Portugal. Para quem não viu ainda e para quem quer voltar a ver, a versão completa do filme, legendada em português, poderá ser descarregada aqui.
Manuela às voltas com a inimiga democracia (II)
Manuela Ferreira Leite, que este sábado se juntou à caravana do PSD, em Barcelos, atacou violentamente o ainda primeiro-ministro e confessou que pessoalmente não ficará “tranquila” com José Sócrates na oposição. Outra lição de democracia daquela que gostaria de suspendê-la para “pôr tudo na ordem”. Manuela sentir-se-ia mais segura com Sócrates trancado na despensa lá de casa e, já que estamos nisto, quem sabe com Francisco louçã trancado na garagem e com Jerónimo de Sousa na arrecadação. É um perigo confiar o voto a quem depois não sabe o que fazer com o poder que lhe é dado pela democracia.
Sábado, 28 de Maio de 2011
O homem que sujava os joelhos
Passos foi hoje confrontado com a notícia do “Expresso” de que o Presidente da República terá dúvidas sobre o número de ministérios que o PSD necessitará para executar o plano de resgate assinado com a troika do FMI, BCE e União Europeia. Resposta do grande líder, adeus, Governo com dez ministérios: “Quando digo que estou preparado para construir um Governo com não mais do que 10 ministros, falo evidentemente da possibilidade do PSD ter uma maioria absoluta e poder responder por esse resultado. (…) Caso tal não aconteça, e essas “condições não existirem”, o PSD terá de “negociar um Governo que pode ter outras exigências”. Mais uma vez, o que ontem era uma verdade absoluta, hoje deixou de ser. Passos diz hoje para desdizer amanhã. E esta é uma das duas certezas que temos sobre Passos Coelho. A outra é a de que o instinto o manda ajoelhar-se sempre que é posto à prova por alguém que considera estar acima de si. Aconteceu com a troika, quando assinou de cruz um empréstimo sem saber a taxa de juro. Aconteceu quando Angela Merkel chamou preguiçosos aos portugueses e, em vez de defender os seus, Passos respondeu com a oferenda dos nossos feriados. Volta a ajoelhar-se hoje diante de um leve aceno de Cavaco, com uma questão tão simples como a do número de Ministérios.
Ler os outros - "O voto fútil"
“O PS é um case study. Faz campanha a comentar as escorregadelas dos seus adversários para não ter de discutir as suas propostas; chama "caloteira" à esquerda que propõe a auditoria e a – mais tarde ou mais cedo, inevitável – renegociação da dívida, acusando-a de não querer "honrar os compromissos" com a banca alemã; acena com o “perigo da direita” como se não tivesse sido o PS o principal promotor do programa de austeridade e desmantelamento do Estado social assumido no acordo com a troika; aliar-se-á com PSD ou ao CDS sem quaisquer problemas de consciência num futuro governo. O PS está no direito ser como é. Mas ter a lata de ainda assim apelar ao “voto útil” à esquerda, como o fez António José Seguro, ultrapassa os limites da decência. Será que não quereria dizer “voto fútil”?” – Miguel Cardina
Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
O herói de Chaves, ai quando o Portas souber
Embalado pelo banho de multidão numa arruada em Chaves, a maior de toda a campanha, Pedro Passos Coelho pediu hoje a maioria absoluta para o PSD nas legislativas de 5 de Junho e prometeu incluir o CDS, seu parceiro natural. Chaves, essa grande metrópolo, a terceira do país, logo a seguir a Lagares da Beira e Vale da Burra, ficará para todo o sempre na História de Portugal. Esta campanha está o máximo. Para o dia ficar completo, já só falta a sondagem da praxe.
E ela aí está! O PSD voltou a cair na sondagem da Intercampus para o PÚBLICO e TVI. Mas, atenção, muita atenção, senhoras e senhores. A sondagem decorreu ANTES da maior arruada de toda a campanha.
Há mundo a desaparecer no filtro
A cena repete-se. Crise social gera protesto pacífico em Barcelona, forças policiais transformam-no em tumulto e os média portugueses ocupados com a segunda laracha do dia de Passos Coelho sobre um negócio com uma universidade privada protegida do regime, para a qual, caso seja eleito, nem nos sonhos mais malucos deixaria de continuar a desviar o que quer cortar no orçamento das universidades públicas.
Em rodapé, muito menos importante do que mais um video com violência daquela que pode mostrar-se por não ter carga política, Louçã e os 10 mil milhões que o reinado socialista quis que fossem direitinhos para umas empresas-satélite do regime. Porém, tal como sobre o descontentamento que galopa sobre a Europa, Sobre este oitavo do negócio que os três sócios firmaram com a troika, nenhum deles disse uma palavra sequer. Os satélites são património da comunidade do arco do poder, não são para emagrecer. Toda a gente sabe que emagrecer escreve-se com E de Estado e não com E de empreendedorismo de gabinete. O resto é radicalismo.
As palavras proibidas
Hoje, é o afastamento de Pacheco Pereira das listas do PSD que serve para fugir às palavras proibidas: Grécia, renegociação da dívida, auditoria à dívida, desemprego, pobreza, falência geral. Ficam para depois do coma induzido, dia 6, logo pela manhã. As imagens do futuro que nos espera, no vídeo junto, são de ontem. Naturalmente, não passaram nos telejornais. Aconteça o que acontecer, reinará sempre a paz em Portugal.
Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
O amigo das bruxas
Leio aqui o eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes a defender que não vale a pena fazer uma auditoria à dívida portuguesa porque todos sabemos que o responsável pelo descalabro das contas públicas é José Sócrates e a auditoria seria uma caça às bruxas. Aqui está um exemplo de como o mundo pode ser tão simples. Basta substituir José Sócrates (sei lá, é só uma sugestão) por Passos Coelho, que depois não nos fará mal nenhum fazer sacrifícios para manter as bruxas bem gordinhas. Aliás, toda a gente sabe que o Estado é que é para emagrecer, não as bruxas. A austeridade não é para elas. Eu cá também não acredito em bruxas, mas que têm gente muito amiga a defendê-las nos jornais, disso não tenho dúvidas.
Manobras de diversão (continuação): Passos "pró-vida"
Manual "como manter a campanha fora da discussão da calamidade que a inconsciência dos portugueses se prepara para legitimar pelo voto": puxar um tema fracturante que, embora já resolvido, possa diferenciar dois ou três partidos com o mesmo programa económico de austeridade socialmente selectiva.
Aplicação prática: O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, quer rever a lei do aborto e admite um novo referendo sobre a matéria. Em declarações ontem à Rádio Renascença, Passos Coelho lembra que sempre defendeu a legalização do aborto mas frisa que é preciso, passados quatro anos, ver o que correu bem e o que correu mal. (de manhã). Passos Coelho diz que rejeita apresentar propostas de alteração à lei do aborto (à tarde). À noite, se já não havia o mais ligeiro vestígio da lei da IVG, do descalabro que resultará do malfadado pacote da troika ainda havia menos.
Isto é que é criatividade
Depois de Krugman, ontem, é hoje a vez do norte-americano Nouriel Roubini dizer que a estratégia da zona euro está condenada ao fracasso e que a Grécia deve fazer uma reestruturação da sua dívida. O Ministro das finanças alemão é contra esta última ideia e pede mais “criatividade” para enfrentar a recessão. A criatividade destes senhores não dá para mais do que o mix de sopa de austeridade e xarope de mercados que tem somado crise à crise, riqueza ao sector financeiro e pobreza a quem vive do seu trabalho. Uma criatividade que passa por admitir como verosímil que Portugal não repita o caminho percorrido pelos gregos: ao contrário de Krugman, Nouriel Roubini aponta como caminho da salvação portuguesa a mesma via dolorosa de austeridade que afundou de vez a Grécia. O alemão pediu criatividade. O americano não o deixou à espera.
Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Boicote
Há imenso tempo que não vejo notícias sobre o Bloco no Público on-line. Nem daquelas pequeninas, que aparecem por baixo das gordas. A campanha deve estar parada, só pode. No Jn, o mesmo nada. Espera lá. No DN, há uma cá em baixo, mesmo ao fundinho. Se alguém souber quando termina o boicote, por favor, avise. E quem queira ver que a campanha do Bloco está viva e bem viva, a agenda está aqui.
The sinking brothers, INC: "Yes, we ®sink!"
(editado)
Estes "socialistas"
“O alargamento da protecção social aos trabalhadores que passam recibo verde também está em estudo, desde que “estejam ao serviço regular de uma única empresa e que o desemprego tenha carácter involuntário”. A cenourinha foi deixada pela Ministra do Trabalho numa acção de campanha mediática. E eu que pensava que recibos verdes ao serviço regular de uma única empresa são trabalho subordinado mascarado e, como tal, correspondem a uma fraude tipificada e com sanções previstas pela lei. Ou será que o que esta sindicalista reformada quis foi anunciar que a legalização dos falsos recibos verdes também foi acordada com a troika?
A febre castanha
(…) Krugman diz que só há uma solução: "Como a fada da confiança até agora ainda não apareceu", a crise tem-se agravado, "tornando-se evidente que a Grécia, Irlanda e Portugal não serão capazes de pagar as suas dívidas na totalidade". "Se quiser ser realista, a Europa tem de se preparar para aceitar uma redução da dívida, o que poderá ser feito através da ajuda das economias mais fortes e de perdões parciais impostos aos credores privados, que terão de se contentar com receber menos em troca de receber alguma coisa. Só que realismo é coisa que não parece abundar", sublinha.
Alemanha e BCE têm-se oposto a esta reestruturação da dívida, pondo em causa o próprio euro."Se os bancos gregos caírem, a Grécia pode ser forçada a sair do euro - e é fácil ver como isto pode ser a primeira peça de um dominó que se estende a grande parte da Europa. Então que estará o BCE a pensar?", questiona Krugman.
O Nobel da economia termina o texto com mais uma pergunta: "Estou convencido que isto é apenas falta de coragem para enfrentar o fracasso de uma fantasia. Parece-lhe tolo? Quem é que lhe disse que era o bom senso que governava o mundo?" (ler na íntegra, aqui).
(editado)
Terça-feira, 24 de Maio de 2011
Uma genuína campanha negra que termina em plena campanha eleitoral
Actualização: imediatamente a seguir ao fim desta genuína campanha negra, Sócrates dá à luz a sua substituta. José Sócrates afirmou esta terça-feira que há "uma campanha pessoal" contra si, na tentativa de lhe colar "um rótulo".
Passos Coelho e o entusiasmo grego
Parece que, em Portalegre, o PSD já canta vitória. Num almoço-comício, Pedro Passos Coelho usou, por duas vezes, a expressão “quando tomarmos posse”. Quando tomarem posse, se tomarem posse, farão como fizeram na Grécia. “Reformas necessárias” que poupam os grandes interesses económicos e põem a população a pagar o que fazem o favor de lhes poupar: cortes salariais, desmantelamento de serviços públicos, privatizações em massa, terrorismo laboral, diminuição de pensões, etc. Passado um ano, como eles, neste preciso momento, estaremos a repetir o filme todo: dívida aumentada, novo empréstimo, nova crise política e o mistério sobre o que é que correu mal numa aventura que, à partida, todos sabiam que não terminaria bem. Hoje, confirmam-se as previsões mais pessimistas. Estão numa situação incomparavelmente pior a todos os níveis E a lamentarem-se que o tempo não volta para trás.
A Grécia, ainda assim, foi pioneira nos resgates. Os menos esclarecidos poderiam conceder o benefício da dúvida à solução que iria ser adoptada. Mas Portugal, pelo contrário, para além do seu próprio, tem os exemplos grego e irlandês a iluminar o caminho por onde não seguir.
E quem diria que não há por onde enganar-nos. Anda toda a gente muito entretida com o jogo das apostas sobre o vencedor do totobola de 5 de Junho e sobre as possíveis combinações de mesmos que possam nascer nesse dia, quando não é nem um jogo de sorte ou azar, nem a carreira política de algum Sebastião das vitórias a determinação mais importante do dia. A 5 de Junho, escolheremos se queremos um futuro igual a gregos e irlandeses. Depois, também por cá, o tempo não voltará para trás.
Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
O que faz falta é entreter a malta
Não será demasiado difícil entender a razão pela qual o PS e o PSD evitam criticar o programa eleitoral um do outro: ambos, expressa ou secretamente, mais malvadez, menos malvadez, no seu essencial, são cópias do memorando de capitulação que assinaram com a troika conjuntamente com o CDS. Como tal, na falta desse que seria “o” assunto, criam factos políticos. E a comunicação social vai atrás.
O que agendaram para hoje está relacionado com nomeações alegadamente secretas que um ou uma infiltrada do PSD terá descoberto à custa de mil perigos.
Alguém, algures no meio da multidão de jornalistas, poderia bem perguntar: logo os senhores, líderes dos dois partidos campeões da aparelhização da Administração Pública, que há 30 e tal anos a usam como agência de emprego dos servidores dos respectivos? O que é que pretendem? Apenas estardalhaço ou comprometerem-se com o que realmente interessa?
É que não seria nada má ideia que estes senhores aproveitassem a deixa para se comprometerem com medidas concretas no sentido de acabarem com o objecto do fogo cruzado dos discursos alucinados em que se envolveram. Por exemplo, limitar as nomeações políticas ao nível de Director-geral, deixando os níveis inferiores para profissionais de carreira. Já agora, centralizar as admissões na AP, criando uma central de recrutamento onde os candidatos prestem provas longe dos padrinhos e da porta do cavalo que a última “reforma necessária” da Administração Pública escancarou, em nome de um mérito esqusitíssimo e do tal combate aos “poderosos interesses corporativos” que se esqueceu das cúpulas.
Mas não. É pedir demais. tudo isto não interessa nem aos digníssimos candidatos a responsáveis, nem aos putativos jornalistas. Especializaram-se em poeiras e ruídos que turvam a percepção geral. E em vomitar sondagens. O que faz falta é animar a malta. Eles são a garantia do direito a um futuro da agência de empregos rosa-laranja.
A esquerda destes camaradas
Vitória da direita sobre a direita
Uma esquerda sem palavra, prostituta do poder económico e travestida de políticas de direita não faz sentido. Para comprová-lo, os espanhóis preferiram o original à má qualidade da cópia: o PSOE alcançou uma das suas maiores derrotas de sempre em eleições regionais e municipais. Com a derrocada do PSOE, do bipartidarismo resultante de um sistema eleitoral que abafa qualquer alternativa não podia esperar-se outro cenário que não o de uma vitória retumbante do PP. E assim foi. Mas, por toda a Espanha, milhares e milhares de espanhóis protestaram e continuam a protestar contra o afunilamento da sua democracia. Até há algum tempo atrás, estavam condenados a ser governados ou pelo PSOE ou pelo PP, mas havia esquerda e havia direita. Hoje, não é assim. Assim andaríamos em Portugal, a comemorar vitórias sucessivas da direita sobre a direita, caso o número de deputados do nosso Parlamento fosse reduzido. E andam para aí movimentações nesse sentido.(editado)
Domingo, 22 de Maio de 2011
Assim, não há pai para o Porto
O FC Porto selou uma época extraordinária com um expressivo 6-2 na final contra o V. Guimarães. Parabéns ao campeão e que vendam muitos jogadores. O país precisa de equilibrar as contas externas.
O "estadista" dos joelhos sujos
Podia ter-se calado, e já seria mau. Podia ter protestado, devia. Podia ter dito bem alto que os 22 dias de férias a que os portugueses ganham direito depois de um ano inteiro de árduo trabalho está numa vizinhança muito próxima dos 21,5 dias da média europeia e muito distante dos 30 dias que a maioria dos alemães goza anualmente, apesar do mínimo legal ser de 20. Podia ter dito que é mentira que os portugueses se aposentam mais cedo do que os alemães, porque a idade de reforma é actualmente exactamente a mesma nos dois países. Angela Merkel lembrou-se de tentar ganhar uns votos mandando umas bocas xenófobas que alimentam o mito do latino preguiçoso, que insulta todos os portugueses. E Passos Coelho, em vez de defender os seus, reitera o insulto e volta a mostrar que a sua estatura política é a de um homem de joelhos, um baixinho para quem a identidade cultural do seu povo não vale um caracol. Hoje, o seu joelho direito disse o que se lê abaixo. Amanhã, não sabemos o que dirá o esquerdo. Teimam em contradizer-se, é o que vale.
A proposta e o comentário respectivo estão aqui.
A Europa muda à margem da agenda mediática
“As eleições que hoje se celebram em 13 das 17 comunidades autónomas espanholas e em 8115 municípios do país têm, como verdadeiro horizonte, as gerais de Março do próximo ano, que decidirão quem vai governar a Espanha. Por ser a primeira consulta de âmbito nacional com a crise económica, têm um indisfarçável sabor e odor a primárias”, dizem eles, com uma breve alusão de fundo de página ao que se vai passando na Puerta del Sol e um pouco por toda a Espanha, que é para não dizer Europa.
Contudo, à margem das notícias, o descontentamento alastra, numa reedição do que aconteceu e vai acontecendo no mundo árabe, quer das reivindicações do direito a um futuro que passa por mais justiça na economia, quer na multiplicação das manifestações de protesto, também elas proibidas e convocadas através das redes sociais. Em simultâneo, do outro lado da trincheira, concertadamente, os media trabalham afincadamente na defesa do regime que sustentam e que os detém. Vão mostrando como, em democracia, a censura é dispensável, pelo menos nos moldes tradicionais.
E são cada vez mais os que se dão conta desta realidade. À medida que aumenta o descontentamento e, com ele, o número dos que o manifestam, aumenta também o grupo dos que despertam para a sua captura pelo mesmo poder que os quer continuar a espoliar de todas as conquistas sociais de mais de um século.
Por que é que, por maiores que sejam, os protestos não têm a devida cobertura mediática ou, pura e simplesmente, não aparecem nas notícias? Por que é que a versão dos acontecimentos que os média oferecem é invariavelmente a mesma em todos eles? Por que é que, aumente o desemprego e a austeridade selectiva o que aumentar, os partidos que não hesitam em assumir-se como carrascos do povo que supostamente representam continuam a reunir as suas preferências nas intenções de voto? E por que é que as alternativas são tão marginalizadas e alvo preferencial de descredibilização pelos comentadores de serviço?
É cada vez maior o número dos que se apercebem do descaramento. A função de informar de televisões, rádios e jornais, os meios de comunicação social convencionais, foi substituída pelo condicionamento da percepção geral da realidade e, nessa medida, também das escolhas de quem os utiliza como única fonte de informação. E isto é lenha para mais dozes de Março e quinzes de Maio. Venham eles, pacíficos, como até aqui.
Sábado, 21 de Maio de 2011
Sexta-feira, 20 de Maio de 2011
Duponpsd VS Dupontps
Era uma tarefa difícil. Os dois camaradas dos PEC I, II e III, que se separaram no IV mas que, pouquíssimo tempo depois, não tardaram a juntar-se novamente no V triunfal da troika, partiram para o espectáculo da noite com o firme propósito partilhado de mostrarem como são diferentes. Mas foram iguais.
Ambos sugeriram ter negociado o empréstimo que todos sabemos assinaram sem sequer conhecer a taxa de juro que dizem ter negociado. Ambos se referiram ao memorando que assinaram como uma alavanca de crescimento económico que não ocorrerá. Ambos se assumiram defensores do Estado social que assinaram desmantelar. E ambos os sócios apostaram em demonstrar que as propostas de cada um são melhores do que as do outro e que as responsabilidades próprias pela situação a que o país chegou são incomparavelmente menores do que as do camarada da frente.
Houve diferenças no estilo, é certo. Sócrates com rábulas mais conseguidas, Passos Coelho mais engasgado mas com um ar melhor cuidado de grande governante que nunca foi, nem numa Junta de Freguesia. Achei-o melhor penteado do que Sócrates, embora a gravata deste fosse bastante mais gira do que a de Passos Coelho. Mas estas diferenças que as discutam os tontos que se resignam a escolher entre o mau e o pior, que, como tal, viram o debate com olhos de quem não vê os actuais líderes dos dois partidos que nos desgovernam há 37 anos a disputar o voto de quem assinaram apertar como nunca antes em democracia. Dispenso-lhes a honra de escolher o vencedor do frente-a-frente.
Domingho há missa, Sexta há sondagem
Nova Sexta-feira, nova sondagem. E novamente a proposta de um Benfica-FC Porto, com um Sporting mais pequenino atrás da porta, prontinho para ajudar qualquer um dos seus “rivais” colegas de memorando. O resto é o resto. Não tem futebol. A sondagem que interessa é no dia 5 de Junho, mas a rapaziada vai treinando. E pagando sondagens, diz que resulta para ganhar adeptos e desencorajar resistências e apostas noutros futebóis..
Escrevo estas linhas antes da entrada para o relvado dos dois primeiros, que têm direito a mais 15 minutos de frente-a-frente que os demais. A esta hora e a este minuto, isto das sondagens tem a uma precisão ao pentelho, os garantes de novo agravamento da austeridade selectiva que acordaram implementar somam 82,6 por cento nas intenções de voto dos seleccionados para o apertão. Muitas linhas abaixo nas notícias sobre este espectáculo, as alternativas, que os voluntários atrás referidos rejeitam, somam 14,3 por cento. E continua a haver um grupo com 23,1 que está indeciso entre resistir ou oferecer-se ao sacrifício e outro com 17,5 que advoga não ter nada a ver com o assunto.
Bem sei que não tem nada, rigorosamente nada, nadinha que ver com o assunto acima, mas... Em 1998, no último estudo sobre literacia de adultos em que Portugal participou, 80 por cento dos avaliados não chegaram ao nível dois. Existem cinco. Considera-se que o limiar mínimo para a participação na sociedade e o desenvolvimento económico é o nível 3.
Bom, os candidatos a regente da colónia estão quase a entrar em campo. Vou ver como se combinam para mostrar que são diferentes.
Esta é para quando os ouvirem falar nos salários e na estabilidade dos outros
Como é bom de ver, administram que se fartam. Depois, dizem umas coisas sobre a estabilidade e os salários dos outros, sobre trabalhos forçados para desempregados e vales-mercearia para os mais pobres, porque Portugal precisa de ética e moralidade. E de sacrifícios "necessários".
O rei vai bêbedo
Uma magistrada do Ministério Público foi detida em Cascais por um agente da Polícia Municipal por estar a conduzir em contramão e com uma taxa de alcoolemia de 3,08g/litro de sangue, o que constitui crime. No entanto, mais tarde foi libertada por um procurador seu colega, noticia o Correio da Manhã. Lacuna imperdoável, não apuraram se o colega também estava a cair de bêbedo. E era importante sabê-lo.
Debate com O-dos-submarinos
Não assisti ao frente-a-frente entre Francisco Louçà e Paulo Portas de ontem à noite, mas, pelo que vejo no resumo junto, o CDS acentuou a aposta no discurso incendiário que coloca pobres contra pobres para os desviar do essencial. Esta demagogia moralista que trata a pobreza como uma malandragem que merece um castigo é um vómito. Comprometem-se com políticas que agravam drasticamente a situação dos mais pobres para, depois, SE lançarem na tarefa de moralizar essa pobreza que ajudam a criar, por exemplo, propondo que parte do RSI seja pago em vales de mercearia. Portas diz que prefere contratos definitivos a contratos a prazo, contratos a prazo a recibos verdes e estes a desemprego. Também será preferível um salário pago em malgas de arroz, como acontece na China, a não ter qualquer salário: Portas tem imensas alternativas para completar as suas lengalengas. O certo é que o resultado do capitalismo defendido por esta direita mais trauliteira, onde também cabe o PSD, não anda muito longe do DO comunismo que diz estar nos seus antípodas.
Preparativos para a subida das taxas moderadoras
A ministra da Saúde afirmou esta quinta-feira na Lourinhã que os portugueses recorrem a “demasiadas consultas médicas”, o que agrava o consumismo no Sistema Nacional de Saúde. Os portugueses devem mentalizar-se de uma vez por todas que, com governos PS-PSD-CDS, os impostos que pagam não são para financiar serviços públicos de qualidade. Os acordos firmados de cruz com troikas predadoras, as PPP, os negócios submarinos, os estudos e os pareceres manhosos fazem de qualquer canceroso um hipocondríaco em potência.
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
A calamidade bestial
O Banco de Portugal diz que o “acordo” que o PS, PSD e CDS assinaram de cruz com a troika provocará uma “recessão prolongada”, mas, ao mesmo tempo, diz que deverá “criar as bases para um crescimento económico sustentável no médio prazo”. Diz que a sua implementação “será acompanhada de uma contracção sem precedentes do rendimento disponível real das famílias e de novos aumentos da taxa de desemprego”, que “a exigência e o impacto económico e social do Programa no curto prazo são substanciais”, mas chama-lhe “equilibrado” e diz que mitiga o impacto “sobre os segmentos mais vulneráveis da população”.
O relatório anual hoje publicado pelo Banco de Portugal, que todos pagámos muito bem pago, é uma amálgama de contrários. Assim, é difícil errar. Talvez por esta razão nas notícias apareça como “Banco de Portugal elogia programa da troika”. Nada de pânicos, o chorrilho de contrários que leram acima era, afinal, uma sucessão de rasgados elogios. À inteligência de quem leia ou ouça.
Para que ninguém entre em stress, resumamos os elogios: vai ser uma calamidade bestial. Alegrem-se, por favor.
Ao ataque, meus piratas
Rei morto, rei posto. No dia imediatamente a seguir a Dominique Strauss-Kahn ter apresentado a sua demissão, uma aliança franco-alemã foi hoje selada informalmente entre os ministros dos dois países responsáveis pelos assuntos europeus. Os donos da Europa cobiçam o lugar deixado vazio pelo entretanto libertado francês que, dizem as más línguas, se levou à perdição por ser doido por empregadas de hotel. Não precisam de votos para nada, apenas de se fazerem escolher. E que ninguém lhes desobedeça ou levante questões desnecessárias à sua autoridade.
Votar no monopólio: quem vem mudar o cano?
A privatização parcial do grupo Águas de Portugal (AdP), que o PSD prevê no seu programa eleitoral e que José Sócrates qualificou no sábado como uma "aventura irresponsável", foi discutida e preparada pelo actual primeiro-ministro quando tutelava a pasta do Ambiente, em 2000 e 2001. Desde então, é bom recordá-lo, o Bloco denunciou a manobra, mas, como sempre acontece, a denúncia foi retratada pelos média como mais um delírio do radicalismo.
Hoje, fica o sinal de mais esta coincidência entre o programa do PSD e a agenda secreta do PS. Dar-lhe a força de um voto, tal como ao PSD ou ao CDS, é fortalecer uma solução que sobrecarrega o consumidor com a multiplicação do preço de um recurso que é de todos e desvia este prejuízo, transformado em renda, directamente para os bolsos dos felizes contemplados com a sua apropriação.
Será de realçar que a privatização da água tem custos económicos e sociais ainda maiores do que os da electricidade ou dos combustíveis, na medida em que, enquanto com a electricidade e com os combustíveis a concorrência é uma miragem, no caso da água ela é uma impossibilidade. Para percebê-lo, bastará vestir a pele do consumidor que se confronte com situações de deficiências na qualidade do serviço ou com abusos tarifários e que, por isso, queira mudar de fornecedor. Será difícil imaginar uma multiplicidade infinita de canos, pertencentes a outros tantos fornecedores concorrentes, a serpentearem por debaixo do asfalto das nossas ruas. E há ruas onde nem a imaginação torna rentável fazer passar um único cano. Pelo menos para mentes menos dotadas do que aquelas mais “de mercado”, dessas que as defendem mas não conseguem enumerar uma única vantagem para a economia portuguesa e para os consumidores da privatização da electricidade e dos combustíveis, é mesmo difícil. Mas eles são umas mentes abertas que primam pelo optimismo. É curioso como falam tanto em dinamizar o sector de bens transaccionáveis e como fomentam a constituição de monopólios e oligopólios de bens não transaccionáveis. O diabo é que, com a água nas mãos de um monopólio privado, se souber a raios ou o preço disparar, não nos valerá de nada chamá-los para mudar o cano..
Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
Aqui ao lado, com proibição e sem resgate
Milhares de pessoas desafiaram a proibição dos protestos decretada pela Junta Eleitoral de Madrid e voltaram a juntar-se nesta quarta-feira ao final da tarde nas Portas do Sol, em Madrid. Mais de 500 polícias foram mobilizados para o local. A chuva prometia cair esta noite na Porta do Sol em Madrid. E cumpriu o prometido. Mas apesar do mau tempo e da ordem de ontem da Junta Eleitoral de Madrid, que o proibiu, para que este movimento 15M, de protesto, dispersasse, os manifestantes voltaram a dormir na rua. E já pensam em prolongar para além do dia 22 o protesto.
Banco de Portugal deixa recado ao eleitorado da troika nacional
Este é um aperitivo para o poder absoluto que aí vem depois das eleições. Os bancos podem, a partir de hoje, agravar as taxas de juro e outros encargos dos empréstimos sempre que identifiquem "razão atendível" ou "variações de mercado" que o justifiquem, desde que cumpram um “código de boas práticas” da autoria do Banco de Portugal. Nestas “boas práticas”, já se vê, está incluída a liberalização da alteração unilateral dos spreads dos contratos de crédito. A autorização do abuso supra tem a mesma proveniência.
(editado)
O Estado destes amigos
No meio da troca de bocas entre Sócrates e Passos Coelho sobre o novas oportunidades, ficamos a saber que o Estado tem pago uma auditoria externa ao programa que se limitou a avaliar a qualidade da percepção das pessoas envolvidas. Seja lá o que isso for, de fora ficou a aferição da qualidade da formação ministrada. Pergunta inevitável: para que raio serve uma avaliação que se fica pelo embrulho e não contempla o conteúdo, a qualidade e o rigor do processo de certificação? Deixo uma pista: a tal avaliação externa que todos pagámos foi confiada a uma equipa da Universidade Católica dirigida pelo ex-ministro da Educação do Governo PSD (1987-1991) Roberto Carneiro. Gostava mesmo de saber quanto pagámos. Temos que emagrecer o Estado, temos, temos.
E há quem vá votar numa subida ainda maior
Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego entre janeiro e março aumentou 1,3 pontos percentuais face ao último trimestre de 2010, quando a taxa de desemprego se situou nos 11,1 por cento. Em termos homólogos, a taxa de desemprego aumentou 1,8 pontos percentuais. No primeiro trimestre de 2010, esta foi de 10,6 por cento. "Querido desemprego", dirão todos aqueles que vão dar a força do seu voto à renovação de subidas cada vez mais vigorosas. Há gostos para tudo.
Um teste simples à nossa democracia representativa
Angela Merkel voltou a chamar preguiçosos a portugueses, gregos e espanhóis. “Todos temos de fazer um esforço, isso é importante, não podemos ter a mesma moeda e uns terem muitas férias e outros poucas” disse, quando na Alemanha a lei consagra 20 dias como período mínimo de férias, apenas menos 2 que em Portugal, e grande parte das empresas concede mais de 30 dias. E “Não se trata só de não contrair dívidas. Em países como a Grécia, Espanha e Portugal, as pessoas não devem poder ir para a reforma mais cedo do que na Alemanha”, quando, actualmente, a idade de reforma é igual nos dois países. Tudo num comício do seu partido. A oposição alemã já reagiu. Vamos esperar para ver que partidos portugueses se vão calar e que partidos vão reagir à utilização deste discurso xenófobo inaceitável e humilhante. Elegemo-los para que nos representem. Essa é a razão pela qual existem. Uns fazem-no bem. Mas outros há que apenas sabem gastar os joelhos. Para ganhar credibilidade, argumentam. Aí está o resultado. Este é um teste simples à nossa democracia representativa. Portugal ainda é um país soberano.
Actualizações:
Passos e a incoerência congénita
Tal como havia sucedido no debate com José Sócrates, esta noite, Francisco Louçã voltou a cilindrar no frente-a-frente com Passos Coelho. Louçã jogou na incoerência do seu oponente. São muitas, pelo que apenas teve que ir esperando pela oportunidade de as expor. Elas foram aparecendo, com naturalidade, como teria que acontecer. Ia falar-se de política.
Pedro Passos Coelho bem tentou afastar o debate para os terrenos da mera aritmética, com frases lapidares como “temos a obrigação de vencer”, e para comparações com o PS que há-de julgar abonatórias para o seu partido. O Coordenador do BE não aproveitou a oportunidade para dizer que ser melhor do que é mau não faz do PSD nem melhor, nem pior. Não se podem ganhar todas. Mas Louçã soube tirá-lo rapidamente dali, bombardeando-o com argumentos e com os números que realmente interessam, os do descalabro provocado pelos PEC aprovados pela aliança PS-PSD.
Foi assim que, paulatinamente, uma a seguir à outra, as incoerências foram aparecendo. Cito de memória, Passos Coelho foi exposto como o candidato a governante mais “responsável” que assinou de cruz um empréstimo de 78 mil milhões sem conhecer a taxa de juro; como a única alternativa a um Governo liderado por José Sócrates que anda com ele de braço dado desde que assumiu a liderança do PSD; como o homem de convicções que há um par de dias dizia que renegociar a dívida é um impossível típico do radicalismo de esquerda e que hoje também já o defende; como o grande homem dos mercados, que quer emagrecer o Estado, que emudece quando o confrontam com a gordura e os negócios escuros dos 35 anos no poder de Alberto João Jardim; como o homem de projectos grandiosos para o país que defende políticas que, porque agravam decisivamente a nossa situação económica, comprometem, nessa mesma medida, a nossa capacidade de pagar o empréstimo que firmou de cruz. Neste último ponto, Passos ainda balbuciou para ali uma conversa de recuperar a credibilidade externa para ganhar poder negocial, mas não soube dizer como, com políticas que acrescentam profundidade ao buraco em que nos encontramos.
Passos Coelho abanou quando Louçã o confrontou com os insultos que dispensou aos alunos do Novas Oportunidades e aos desempregados que quer pôr a trabalhos forçados para terem direito ao subsídio que os próprios pagaram. E ainda houve tempo para o golpe de misericórdia. Louçã relembrou que a política não faz sentido se a sua prioridade das prioridades não for a de servir as pessoas. Passos, aí, acabou.
Gostei particularmente do minuto final de Louçã. 60 segundos muito bem utilizados para resumir o tanto que está em jogo nas próximas eleições e as escolhas alternativas que são colocadas aos eleitores. Espero poder publicá-lo aqui.
Terça-feira, 17 de Maio de 2011
Justiça na economia (#7), (#8) e (#9)
Salvar o SNS (#7), combater a corrupção e criminalizar o enriquecimento ilícito (#8), tributação de todas as transacções com paraísos fiscais (#9). Uma por dia, o Bloco vai dando a conhecer vinte propostas para o resgate do futuro do país.
Sobre a proposta mais difícil de todas, a renegociação da dívida para proteger a nossa economia, Francisco Louçã elencou quatro razões que fundamentam a importância desta proposta: capitalizar os ensinamentos do caso grego, uma auditoria à dívida que permita saber quem deve e quanto, para que cada um pague a sua parte e não a dos outros, a prioridade social de não sobrecarregar os salários e os serviços públicos, e a promoção da sensatez no nosso sistema financeiro.
Coincidem com as razões que provocam a cólera de quem, porque tem prioridades que passam bem longe, se exaspera só de pensar em proteger salários, salvar os serviços públicos e promover uma economia com uma cultura de responsabilidade. Na sua vez, impõem o secretismo sobre a dívida que nos querem pôr a pagar e fixam o juro que lhe está associado. “Saber o que vamos pagar? Nunca. Pagamos e não perguntamos o que vamos pagar. Pagamos tudo o que nos disserem, com os juros que nos impuserem”.
Pen telho mix
Segunda-feira, 16 de Maio de 2011
O carnaval do disparate
A guerra das sondagens anda realmente entretida. Temos quase uma por dia. Ora aparece o PS em primeiro, ora aparece o PSD, para logo aparecer o PS novamente. A seguir, a subir e a descer, vai aparecendo o CDS. E no fundo da tabela da I Liga aparecem invariavelmente os partidos da esquerda. Estas sondagens são a prova de que quase ninguém gosta deles. São feios e cheiram mal.
O desafio é, pois, convencer os portugueses de que toda a gente está doidinha com a ideia de ver novamente no poder os três partidos que, com apostas erradas, negociatas obscenas e um exercício do poder em proveito restrito, afundaram Portugal ao longo dos últimos 37 anos. Agora, com políticas ditadas externamente, só mesmo eles para nos regenerarem. Acabaram de tornar pública a dívida de mais de 5 mil milhões do BPN, mas Eles próprios já se regeneraram, merecem novo voto de confiança patriótica.
A comunicação social repete que não há outra solução que não a de reconduzir no poder estes três grupos de artistas do amontoado que resultou na maior crise do pós-revolução, as contrapartidas do resgate financeiro vão-nos afundar ainda mais e mais rapidamente, mas temos que avançar todos juntos, de mãos dadas, para que os senhores da Europa e dos mercados não nos castiguem pelo erro reiterado de os termos vindo a eleger. É o Carnaval do disparate, reedição de todos os anteriores.
Eu só acredito na sondagem de 5 de Junho.
Acordar o povo, pá!
“Não aceitamos que [os centros de emprego] sejam locais onde somos ameaçados, vigiados e fiscalizados como se não ter emprego fosse um crime que nos devesse ser imputado”. Higiénica, salutar, cidadã. A segunda iniciativa dos “É o povo, pá!” teve como objectivo dar a conhecer a quem nunca esteve desempregado como funcionam actualmente os centros de emprego. Esta seria, já foi, uma missão a desempenhar pelos média. O termo “ataca”, emoldurado por um par de aspas cobardes, que encontramos no título «Movimento É o povo, pá! “ataca” centros de emprego», acrescenta um inesperado segundo objectivo cumprido a esta que foi uma iniciativa absolutamente pacífica: o de sublinhar as tendências da informação que actualmente se faz em Portugal.
"(...) Actualmente, num Centro de Emprego não se encontra emprego. Encontram-se fiscalizações sucessivas, propostas formativas muitas vezes desajustadas, encontra-se trabalho quase gratuito através dos contratos de emprego-inserção, encontram-se ameaças constantes de cortes nos subsídios. Mas não se encontra emprego. (...)" (o texto integral do manifesto da iniciativa pode ser lido aqui.
Domingo, 15 de Maio de 2011
À bruta, como com os nossos salários e direitos
O director-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), o francês Dominique Strauss-Kahn, foi detido sábado à noite em Nova Iorque, acusado de agressão sexual a uma empregada de um hotel. Se as agressões sobre os salários e os direitos de quem trabalha e a sementeira de miséria que o FMI vem desenvolvendo em todo o mundo desde a sua criação fossem finalmente criminalizadas, também as empregadas de hotel estariam mais seguras. A confirmar-se este é um crime que seria evitável, mas habituaram-se a fazer tudo à bruta. Nada escapa à sua brutalidade. Agora, nem os pentelhos temos a salvo.
Sábado, 14 de Maio de 2011
O moralismo à solta
Sexta-feira, 13 de Maio de 2011
Diz que são uma espécie de agências de rating
As sondagens voltam a insistir na ideia dos partidos da troika a subir nas intenções de voto e na descida dos partidos da esquerda. Publicidade agressiva. Uma avaliação por objectivos daqueles senhores que comentam nos média poderia bem passar por aqui.
A blogger à procura do fim
Como hão-de reparar os leitores mais atentos, os posts publicados entre Quarta-feira à noite e a manhã de hoje desapareceram. Não tenho cópias. Em cima disso, durante toda esta Sexta-feira, os utilizadores da plataforma blogger não puderam publicar nada. Talvez não seja mal pensado começar a procurar outro estábulo para o burro.
Actualização: o meu agradecimento a todos os leitores que se ofereceram e me fizeram chegar as cópias dos feeds com os textos dos posts desaparecidos. Lá estão eles outra vez.
Sentido de Estado: uns têm-no, outros dizem-se
A propósito do conceito de sentido de Estado, uma expressão utilizada por tudo e por nada pelos partidos da nossa troika doméstica, registe-se como foi alguém tão distante politicamente de Cavaco Silva a defendê-lo. É que não foi a Cavaco Silva a quem o comissário finlandês faltou ao respeito. Não é preciso ser detentor de um sentido de Estado particularmente apurado para perceber que Foi ao Presidente da República Portuguesa. Mas aos três patriotas do tal sentido de Estado mais apurado da galáxia não lhes ouvimos uma palavra sequer. Quando algum eurocrata lhes levanta a voz, a sua reacção é invariavelmente aquele ajoelhar compulsivo de lacaio do império. Não abdicam daquela subserviência colonial, nem que, como neste episódio lamentável, o eurocrata trate a mais alta figura do Estado português como um qualquer labrego a quem se sinta no direito, que ninguém lhe deu, de repreender por ter falado com a boca cheia de bolo rei.
Um projecto grandioso
O PSD diz que afinal quer baixar a TSU, não 4, mas 8 por cento. Não vejo por que não aboli-la de uma vez por todas. Se é para dar cabo da Segurança Social, se a opção é transferir as reformas dos portugueses para os activos dos balanços das empresas, uma redução para zero da Taxa Social Única evitaria uma longa e indesejável agonia, com a vantagem acrescida de abrir mercado para uma espécie de Segurança Social com aquela racionalidade que apenas se encontra no ADN das empresas privadas. Depois, temos umas contas a ajustar com a burocracia dos contratos de trabalho escritos e com tempo indeterminado e, então, finalmente, estaremos em condições de pensar seriamente em livrar a nossa competitividade do fardo que as empresas carregam aos ombros de serem obrigadas a pagar uma contra-prestação pelo trabalho dos seus “colaboradores”. As empresas a lucrar , o pessoal a trabalhar e o país a ir para a frente. O nosso destino sempre foi o Oceano. Dizem que o fundo do mar é lindo.
Quinta-feira, 12 de Maio de 2011
Crise à moda da casa
O Público reproduz a explicação oficial da duplicação em apenas um mês e novo record do valor dos resgates de certificados de aforro, 737 milhões de euros em Abril: revela o receio das famílias portuguesas face à situação financeira do Estado, que levou ao pedido de ajuda externa, e à “ameaça” de reestruturação da dívida portuguesa. Nada a ver com as dificuldades sentidas pelas famílias portuguesas - a maior quebra de poder de compra em 27 anos ocorreu precisamente em Abril - e nada a ver com a taxa de juro do título, de 1,3 por cento, não cobrir sequer a inflação, de 4,1 por cento. Longe e esquecido está o favorzinho que o Governo fez à banca em 2008 de alterar as condições remuneratórias dos certificados de aforro: os seus produtos ficaram mais atractivos sem terem que fazer absolutamente nada. Concorrência pura e perfeita. Desde então, nem as dificuldades na obtenção de liquidez sentidas pelo Estado português fizeram o Governo recuar na sorte grande do sector financeiro. Perderam os aforradores, perdeu o Tesouro e ganharam os predestinados da fortuna. Aliás, os mercados poderiam ter reagido mal. Assim, ninguém se aborreceu.
(Post recuperado)
A alternativa ao desemprego, ao declínio da economia e à regressão social existe
E eis que, saído das catacumbas do inferno para pôr os cabelos em pé a rendeiros do reino, especuladores imobiliários, especuladores bolsistas e radicais da evasão fiscal, os eternamente poupados por todas as crises, foi tornado público o programa eleitoral do Bloco de Esquerda. Funcionários públicos, velhinhos, reformados, classe média, remediados, pobres, utentes do SNS, candidatos a desempregados e demais escolhidos para pagar a crise pelos três partidos que nos governam há 37 anos, sintam-se à vontade para se solidarizarem com os extremistas do enriquecimento fácil que se arrepiarem com as propostas bloquistas. Urrem, gritem, extravasem a vossa compaixão por estes camaradas. Antes, porém, façam-se o favor de ler o programa e comprovem que a alternativa existe. Agora, já só faltam os votos. É a vossa, é a nossa parte nesta tarefa de ganhar um futuro.
(republicado, apagamento blogger)Estes radicais
Os aditamentos feitos aos contratos das SCUT onde foram ou vão ainda ser introduzidas portagens representaram para o Estado encargos adicionais de dez mil milhões de euros. Os engarrafamentos nas estradas secundárias foram, afinal, um excelente negócio para as concessionárias. O utilizador passa a pagar o que antes não pagava e o Estado ainda aumenta os incentivos ao seu empreendedorismo. Um negócio como este deveria ter impactos eleitorais mas, por tradição, é deste radicalismo que o meu povo gosta. Buzinam, buzinam, e deixam chamar-lhe "reformas necessárias".
(post republicado em virtude do apagamento verificado na plataforma blogger)A reter: o PS tem uma agenda secreta para implmentar depois das eleições
Quarta-feira, 11 de Maio de 2011
O debate e as troikas de comentadores ao serviço da causa
Terminado o debate entre José Sócrates e Francisco Louçã, iniciou-se uma amena cavaqueira entre três embaixadores nos média das soluções FMI. Curiosamente, falaram mais tempo do que durou o objecto da sua prosápia. Depois deles, nova troika defendeu as mesmas cores. Estão no ar no preciso momento em que escrevo estas linhas, o programa também durará mais do que os 45 minutos do debate. E nova curiosidade: um dos elementos da segunda troika é irmão de um dos elementos da primeira. Acontecem coincidências do diabo entre 10 milhões de portugueses.
Sobre o debate, quer nas palavras destas duas troikas, quer na imprensa escrita que já o abordou, são facilmente identificáveis três prioridades na conversa destes senhores.
Primeiro, que o Bloco deveria ter esgalhado um programa eleitoral antes do debate deles, apesar da Convenção Nacional ter tido lugar há apenas três dias e, como todos tivemos oportunidade de não assistir, ter tido um destaque mediático menor do que o que hoje deram ao pretenso atraso.
A segunda, a renegociação da dívida defendida no debate por Francisco Louçã, é reveladora, simultaneamente, quer do atraso destas troikas de comentadores relativamente aos seus colegas da imprensa internacional, quer da estratégia do medo que estão incumbidos de incutir no público que os ouça: não caberá na cabeça de ninguém que venha miséria ao mundo por não pagarmos as dívidas contraídas em negócios que actualmente estão a ser julgados na Alemanha por corrupção e muito menos naqueles outros em que o Governo ofereceu 12 e 14 por cento de juros nas “parcerias” que firmou com as empresas mais próximas, ainda por cima pondo o Estado a assumir todo o risco do negócio. A postura despeitada e indignada sugere que o patrão seja o mesmo e também que, quando dá jeito, as propostas que o Bloco apresenta publicamente são para ignorar. Esta já é do conhecimento público há dois dias.
Finalmente, relacionada com a segunda, uma terceira: a da afirmação de que o problema de Portugal é a sua burguesia. Não é? Pendura-se no Estado sempre que pode, fala mal do Estado com a mesma frequência, quer emagrecer o Estado para se engordar a si própria e prefere pagar o pior possível e dar o mínimo de estabilidade que a oportunidade permita a quem trabalha do que arriscar em novos ramos de negócio e em aperfeiçoamento da organização e da gestão das suas empresas. Provavelmente, se assim não fosse, eles não seriam os comentadores de serviço. No seu lugar, com toda a certeza que também trataria de manifestar todo o meu desagrado.
A reter, no debate ficou bem claro que há uma agenda a implementar depois das eleições, bem distinta daquela que figura no programa eleitoral com que o PS partiu à conquista do seu eleitorado. Mas, disto, os senhores evitaram falar. Também muito graças a estes amansadores, a política portuguesa tem-se feito de uma sucessão de traições impunes. Depois, lá vem aquela do "os políticos são todos iguais". Esta noite, Louçã voltou a mostrar que não é assim.
Para quem não assistiu em directo, o video do frente-a-frente está disponível aqui.
(post republicado em virtude do apagamento verificado na plataforma blogger)

