quarta-feira, 20 de abril de 2011

Finalmente, a ERC dá sinais de vida

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) quer tempo de antena igual em debates e entrevista para todos os candidatos às legislativas de 5 de Junho, numa altura em que as televisões já acordaram debates apenas com os partidos com assento parlamentar. Nada mau. Sem dúvida alguma, é uma excelente notícia para a democracia. Mas o equilíbrio, ainda assim, fica bem longe de ser uma garantia.



Desde logo, a capacidade de atenção de quem assista a um telejornal não é constante. Vai decrescendo e, como sabemos, o alinhamento das reportagens tem sempre a mesma ordem: primeiro PS ou PSD, que beneficiam ainda da percepção de um grau de importância que está implícito, e só depois os outros, quase sempre com peças de duração inferior. Haveria que assegurar que a ordem não seja sempre a mesma e que os tempos das reportagens se equiparem.



Depois, temos os “auxiliares de digestão” das mensagens de cada candidatura. Refiro-me, obviamente, aos comentadores de serviço, quase todos homens da situação que ganham a vida vendendo opiniões formatadas com a ideologia dominante, encostando-se o mais possível ao poder e trabalhando em coro na descredibilização de qualquer alternativa que surja fora do tom. Para que houvesse mais equilíbrio, haveria também que contrariar esta realidade.


Para já, temos apenas que a ERC finalmente deu sinais de vida. Mas nada garante. É notar que nada é dito sobre o que acontecerá a quem não cumpra com a recomendação. É esperar para ver.

Ler os outros - "A economia moral da dívida"

«Os portugueses vivem acima das suas possibilidades”. É uma proposição moralista vinda de quem gosta de dizer que a economia é amoral.



Em Portugal o saldo da conta corrente tem sido negativo, isto é, a balança de pagamentos é equilibrada com empréstimos contraídos no exterior pela banca, o estado e as grandes empresas públicas e privadas. Este saldo negativo acentuou-se desde a entrada no Euro. Portugal viveu a crédito e isso só é possível durante algum tempo. O moralista pergunta: quem é responsável? E responde: “Todos”.



Não, não somos todos responsáveis.



A história dos países periféricos da Europa reproduz em escala macro o drama do “subprime”. Um pobre endivida-se quando lhe oferecem crédito ao preço da chuva e acredita que poderá pagar porque a coisa que adquire com o dinheiro emprestado se está a valorizar e se irá continuar a valorizar no futuro. O dinheiro emprestado irá torná-lo mais rico e sendo rico pagará com facilidade. O usurário por acaso até sabe que o pobre irá explodir um dia e por isso mesmo passa a batata quente da dívida a outros pobres (e ricos) impingindo-lhes produtos “derivados” recheados de hipotecas duvidosas. Quem é responsável? O pobre ou o usurário?



Como é esta história na versão macro? Os bancos e outras instituições financeiras tendo em mãos recursos financeiros abundantes, cujos donos não querem, ou não podem, canalizar para a “esfera real”, emprestam-nos aos estados, aos bancos e às grandes empresas das economias deficitárias a juro baixo. Estas economias esperam crescer com o investimento privado e público e a expansão da procura interna. Essa era a promessa da convergência na UE. Crescendo poderão fazer face à divida. Os credores por acaso até sabem, ou suspeitam, que o crescimento não é garantido e que o processo de endividamento não se pode prolongar indefinidamente. Mas isso não lhes interessa nada porque no fundo acreditam que se a coisa não correr bem lá estarão as instituições internacionais para garantir que os Estados dos países endividados obrigam os pobres desses países a pagar a dívida privada e pública. Quem é responsável?» - José Castro Caldas, no Ladrões de Bicicletas.

Francisco Louçã, sobre a tal "negociação"

««Alguns dos comentários aqui publicados insistem neste apelo ao Bloco de Esquerda: por favor, vão depressa ter com o FMI e negociar com eles o pacote da intervenção externa. Representem-nos, dizem os mais aterrorizados, sejam amigos uns dos outros.


Venho aqui responder directamente a este apelo: representar quem nos elegeu e quem quer uma alternativa para o país começa por esse elemento mínimo de decência e de respeito pelas pessoas que é não as enganar. Exige a capacidade de alternativas e nunca promover uma fraude sem soluções.


Por isso, escrevo com toda a clareza: os partidos que fingem que estão a “negociar” estão a enganar os portugueses. É uma desonestidade e uma baixeza. E isso é lastimável e condenável, porque substitui a política séria por uma farsa para mesquinhos efeitos eleitorais. No momento mais difícil, esses partidos – o PSD e o CDS – estão a fugir à responsabilidade e a propor uma encenação.


Perguntemos-lhe por isso que “negociação” é esta que anunciam com fanfarra.


Tiveram uma reunião. Vão ter mais alguma? Não.


Sabe-se o que propuseram? Não.


Sabe-se o que o FMI respondeu? Nada, presume-se: tomaram nota e despediram-se educadamente.


Esperam alguma resposta? Não.


Vão fazer novas propostas, procurar entendimentos? Não.


Há então três negociações paralelas em curso, uma de Sócrates, outra de Passos Coelho, outra de Portas? Cada uma dela com resultados, com um contrato final, com um acordo, com conclusões? Não há.


A negociação não existe nem podia existir.


Chamam a isto “sentido de Estado”, falando de si próprios. É simplesmente uma aldrabice. Esqueceram-se todos do mais importante: há eleições e é a democracia que vai decidir: ou aceitar o governo FMI e portanto desistir do país, ou levantar o povo por uma economia em que todos pagam o que devem. É no dia 5 de Junho que se decide, não é nesta operação de chantagem.




E a pergunta essencial é esta: havia alguma coisa para negociar entre cada partido e o FMI com a Comissão Europeia?»



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