quinta-feira, 14 de abril de 2011

Bem vistas as coisas, isto tudo não passa de uma faca de dois legumes

O Benfica vai a Braga e o Braga vai a Lisboa nas meias finais da Liga Europa. São duas viagens para o estrangeiro que se poupam. Cada um fez o que lhe competia no esforço nacional de contenção que nos é imposto-recomendado. Estarão, portanto, mais do que explicadas a subida de rating e a consequente descida de juros da dívida portuguesa que, sem margem para dúvidas, ocorrerão amanhã. Sim, que não me acredito que os mercados não estejam atentos ao feito e não saibam recompensá-lo, ainda mais agora que no Estádio da Luz começou um rigoroso plano de poupança de energia. Poupa-se, logo, é bom para o país.


Bem sei que esta conversa dos mercados e da poupança remelosa é uma faca de dois legumes, mas não custa nada fazer um esforço para ajudar o país. Se roubarmos um legume à faca, podemos esquecer que a TAP vai poupar em bilhetes vendidos e em pessoal, os restaurantes em comida e em pessoal, os bares em bebida e em pessoal, os hotéis em dormidas e em pessoal, só para dar três exemplos, e já estou a poupar um, se repararem bem. É bom nem mencionar mais nenhum, o país está bem lançado num consenso alargado em redor das receitas poupadinhas dos mágicos do FMI, é proibido destoar. Temos todos que acreditar com muita força que vão tirar o país da crise. Quando ficarmos todos em casa sem o trabalho gerado pelos gastadores da Nação, também havemos de fartar-nos de poupar. Ninguém vai dar conta que andaram a cortar os legumes à má fila a toda a gente. Estava tudo a dormir.

Esta espécie de política

A REFER anuncia que vai despedir 500 trabalhadores em dois anos, mas nada diz sobre a manutenção dos modelos de recrutamento partidário e remuneração e demais mordomias dos seus administradores. Pedro Passos Coelho diz que quer os encargos das parcerias público privadas a contar para o défice, mas nada diz sobre a sua renegociação . O mesmo PPC fala em “défice tarifário” que há que pagar, mas nada diz sobre os preços e crescimento dos lucros do sector da energia, dos mais elevados de todo o mundo. Os juros da dívida pública portuguesa continuam a bater recordes, mas PS e PSD continuam apostados na estratégia comprovadamente fracassada de “acalmar” o Deus dos mercados sacrificando mais ovelhas do rebanho, sem querer falar sequer na renegociação da dívida, fazer o uso devido ao banco público ou dar outra abordagem à integração europeia que não a de pobrezinho agradecido. O mesmo clientelismo, o mesmo rentismo, a mesma subserviência e a mesma austeridade selectiva.


Será para manter os factores que a foram cavando e para prolongar a sucessão de estratégias erradas que precipitaram toda a crise que necessitamos de uma “maioria alargada” capaz de reunir “consensos”? Esta seria a questão que ocuparia um debate político que se quisesse minimamente útil na formulação de escolhas. Na sua vez, servem-nos a disputa da paternidade e da maternidade da crise. O PS diz que o PSD é o pai. O PSD diz que o PS é a mãe. A órfã é que não quer saber da disputa. Cresce a olhos vistos. Que linda que está.


Nota: se achar que o PS é o pai, ligue 67020111. Se achar que o PSD é a mãe, ligue 67020112. Promoção válida apenas no dia 5 de Junho. Concurso restrito a assalariados e reformados que aceitem sacrificar-se para que tudo fique cada vez mais na mesma.