domingo, 10 de abril de 2011

Pornografia

Quando, em política, ouço políticos a dizerem-se apolíticos, a encabeçarem candidaturas auto-intituladas de “cidadãs” e que tresandam a inconsistência e incoerência de ideias, estremeço e desconfio. Um dos últimos que por aí se passearam é um bom exemplo do cuidado a ter com esta sub-espécie de farsolas. Poucos meses depois de perder as presidenciais, Fernando Nobre despe-se diante dos ingénuos que lhe confiaram o voto. Para trás ficam as vestes de cordeiro humanista. É a hora de ser carrasco, empunhar o chicote do FMI e pôr-se ao serviço do PSD. Uma decisão difícil, longamente ponderada e tomada em nome da Pátria. O costume.


Fernando Nobre, presidente da AMI, será o cabeça-de-lista por Lisboa do PSD e será indigitado presidente da Assembleia da República se o partido ganhar as eleições.

E se Portugal reeditasse a revolução islandesa?

"Quanto maior for o desentendimento [em Portugal], mais rigorosos seremos na exigência de um compromisso firme entre os diferentes partidos para a aplicação rigorosa do programa" de ajustamento económico”. A ameaça saiu da boca de um eurocrata no final de uma reunião de dois dias dos ministros das finanças da União Europeia na qual, no maior secretismo, o Governo português foi negociar, entre outros, os nossos empregos, os nossos salários, os nossos direitos laborais e os nossos serviços públicos a troco da “ajuda” económica exigida pelo sector financeiro.


A pressão aumenta para que PS, PSD e CDS se ponham de acordo em suspender a nossa democracia pelos breves momentos que demoraria à legitimidade democrática que não têm assinar a capitulação ao cardápio de malvadezes que este poder não eleito nos quer impor. Trabalha-se para antecipar uma decisão que apenas a legitimidade que é dos portugueses pode tomar, pelo voto, em eleições que, entre ameaças, se esforçam para esvaziar de quaisquer consequências práticas. E entende-se por quê.


A contestação anda à solta na Europa. Meio milhão contra a austeridade em Londres, 200 mil "à rasca" em Lisboa e 80 mil no Porto, 50 mil a exigir uma Europa social em Budapeste, dezenas de milhar a reclamar o direito a um futuro em Espanha e em Itália, mais umas quantas dezenas de milhar contra o “pacto pro-euro” em Bruxelas. Mais pacíficas ou mais violentas, houve e haverá cada vez mais manifestações de desagrado. Mas há uma ameaça ainda mais terrível a fazer tremer as cadeiras dos eurocratas.


Refiro-me ao exemplo islandês, claro. Nada pior para um autocrata do que um protesto consequente e levado até ao fim. O seu maior pesadelo, as revoluções que também se fazem com votos, como vimos e como eles também viram. E voltaram a ver ontem. É que os islandeses bateram novamente o pé a uma solução que comprometeria irremediavelmente o seu futuro e votaram maioritariamente a rejeição da nacionalização dos custos da delinquência banqueira pela segunda vez.


É esta centelha de esperança que querem apagar. É esta reacção o que o directório europeu tenta a todo o custo evitar que alastre e aconteça pela primeira vez em Portugal. Há que decidir tudo antes de 5 de Junho e limitar as escolhas que os portugueses façam nesse dia à cor das gravatas dos candidatos e ao timbre da sua voz. Daí a ameaça reiterada. E daí o secretismo que envolve as negociações. A prioridade é evitar uma derrota nas urnas que poria tudo em causa e seria o rastilho de uma mudança que temem: a Europa devolvida aos cidadãos. Acontecerá, mais cedo ou mais tarde, com ou sem violência, dependendo do que a irresponsabilidade decida arriscar. Oxalá me engane, palpita-me que o processo será tudo menos pacífico.