quinta-feira, 7 de abril de 2011

Os alquimistas do lixo


Ainda há dois ou três dias eram notícia por serem considerados “lixo” pelas agências de rating, mas, hoje, no fecho da sessão em bolsa, as mesmas empresas, sem qualquer divulgação de resultados extraordinários mais do que a redistribuição de riqueza antecipada pelo anúncio de ontem, terminaram com valorizações espectaculares: os accionistas do BCP viram as suas acções valorizar 4,24%, os do BES 3,50% e os do BPI 3,48%. Efeitos da tal ajuda externa. A eles ajudou-os. Os restantes portugueses têm prometidos mais cortes salariais, mais instabilidade nos vínculos laborais, menos protecção em situações de vulnerabilidade, menores pensões, menores comparticipações na Saúde, desmantelamento de serviços públicos, desemprego, aumento de impostos e o que o diabo se venha a lembrar. Andam para aí uns alquimistas que juntam desgraça ao lixo para lhe fazer disparar o valor.


Naturalmente, todos aqueles que beneficiaram desta ajuda estarão satisfeitos. Fazem muito bem em votar nos partidos que lhes proporcionaram a rentabilização do tal “lixo”, que, como os números o demonstram, afinal, era conversa fiada. Os restantes, não seria má ideia de todo se direccionassem o poder dos seus votos para quem os represente tão bem como PS, PSD e CDS representam este enriquecimento agora revigorado. A cavalgada deles apenas acaba de recomeçar.

Baixar salários é absolutamente constitucional, mas...

Cavaco Silva requereu ao Tribunal Constitucional (TC) a fiscalização preventiva do diploma que suspendeu o modelo de avaliação de desempenho dos professores, de acordo com uma nota publicada no site oficial da Presidência da República.

A menos que isto mude


Os banqueiros exigiram-no. José Sócrates cedeu e anunciou a intervenção externa. Passos Coelho deu-lhe total apoio na decisão. E ambos falaram de “ajuda” externa em vez de “intervenção” externa. Medida da responsabilidade do acto, nenhum dos dois roçou sequer ao de leve quanto vai custar a sua “ajuda” ao povo que os mandatou pelo voto para representarem os seus interesses. E quem os elegeu não foram os bancos, nem tão-pouco existe coincidência entre os interesses do sector financeiro e o interesse comum. O que aconteceu ontem foi mais uma traição.

Para a maioria, "intervenção" será bem diferente de "ajuda". Aqui, lê-se sobre o ano de atrocidades que a “ajuda” externa custou aos gregos. E aqui, uma reportagem em áudio fala sobre o mesmo preço.

O passo seguinte será agora tentar vender uma brutalidade mais branda e passar para a opinião pública a mensagem de que o caso português nada terá que ver com o grego. A apresentação do total da factura vão guardá-la para depois do dia em que esperam garantir a tal “estabilidade para o país”. A deles, a dos amigos banqueiros e a de todos aqueles para quem a intervenção se revelará uma verdadeira ajuda. A menos que isto mude. E pode mudar. Tem que mudar. Porque já chega.

(editado)