quarta-feira, 30 de março de 2011

Curioso diálogo entre os dois lados de uma mesma crise

A renegociação das dívidas soberanas começa a ser um cenário cada vez mais verosímil. Observar, aqui, algumas reacções. Mesmo sem conhecer nenhum dos nomes dos economistas convidados a dar a sua opinião, será fácil identificar duas perspectivas bem distintas, cada uma delas inserida no respectivo posicionamento ideológico. De um lado, os raciocínios desenvolvem-se em torno dos elementos “ser melhor para o sistema como um todo” e “ser melhor para Portugal e demais países em dificuldades”. Do outro, os elementos-chave “giram em torno de preocupações relacionadas com menores ganhos para especuladores” (aos quais a sua doutrina insiste em apelidar carinhosamente de “investidores”)) e sobre eventuais impactos de tal cenário sobre os ganhos dos bancos alemães, franceses e espanhóis. De um lado, um “já chega de perder”. Do outro, as preocupações suscitadas por uma decisão que poderá beliscar o seu “há que continuar a aproveitar os tempos de bonança”. De um lado, a exploração do caminho das alternativas. Do outro, a maximização da rentabilização da rota das inevitabilidades. Este curioso diálogo entre os dois lados de uma mesma crise tornou-se possível apenas graças à pluralidade do painel de convidados. Uma raridade. Há economistas e economistas. Gostei.

Coligação "negativa"

A comissão parlamentar de saúde aprovou, com os votos favoráveis de toda a oposição, a recolocação do preço de venda ao público nas embalagens dos medicamentos.

Desta vez

Há pouco, lia horrorizado o anúncio de venda de móveis que uma pessoa minha amiga pôs no facebook. Conhecem a história, com certeza. Vivia bem,Pprdeu o emprego, acabou o subsídio de desemprego, acabaram as poupanças, deixou de pagar as prestações da casa e é mais uma a somar às mais de 700 famílias postas a viver na rua. Serão muitas mais se formos intervencionados pelo FMI.


Mas tudo isto parecerá brincadeira aos olhos de quem assista ao espectáculo que monopoliza os tempos de antena. Sócrates acusa Passos Coelho de ter precipitado tudo, Passos Coelho responsabiliza Sócrates pela crise. A troca de galhardetes entre os sócios dos PEC prossegue a bom ritmo enquanto os juros da dívida soberana portuguesa vão conhecendo novos máximos. As agências de rating vão dando o seu melhor para empurrar Portugal para os braços do FMI e os média vão fazendo o que podem para que todos se habituem à ideia da ajuda externa. E dão-nos a escolher entre os sócios da crise: ou ajuda externa com Passos Coelho ou ajuda externa com Sócrates. Parece que todos eles trabalham para ver muitas mobílias à venda.


As próximas eleições têm esta importância acrescida. Por mais angustiante que seja a ideia, é bom que tomemos todos consciência de que Para muitos portugueses estas poderão ser as últimas antes de se tornarem vizinhos da minha amiga. Estamos todos nas mãos uns dos outros. As que se agarrem à continuidade de uma esperança defunta e as que votem pela mudança de vida. Desta vez, será mesmo a doer. Que ninguém duvide que sim.