terça-feira, 22 de março de 2011

E assim estamos todos, à espera do fim do mundo

“Uma crise política com consequências de máxima gravidade”. “Uma crise política com consequências imprevisíveis”. Não há jornal onde não se leiam ou ouçam expressões semelhantes. O alarmismo instalou-se para não deixar ninguém escapar ao dramatismo proposto. Ricardo Salgado foi uma das vozes que se ouviram na defesa de um Governo de “salvação” nacional composto pelos três partidos do pomposamente chamado, expressão condicionadora de escolhas, “arco governativo”. De Bruxelas chegou o recado de que não há motivo algum para questionar o PEC IV, que, dizem, não pode ser alterado. Será austeridade ou austeridade. Tem sido austeridade. É uma crise de regime. É uma crise de políticas com consequências que, desde o início, apenas para todos estes senhores – e vamos deixar de lado os enriquecimentos astronómicos que proporcionaram por mera casualidade – tem tido resultados imprevistos.

E aqui estamos nós, à espera do dia anunciado para a queda do Governo. De um lado, o PS, propõe mais austeridade. De outro, o PSD, aponta para mais austeridade. Entre ambos, o partido dos submarinos coloca-se a postos para fazer de muleta a qualquer um dos dois. E, lá no alto, o directório europeu, ao qual todos eles se propõem obedecer com toda a responsabilidade, governabilidade, estabilidade, sentido de Estado e outras expressões despojadas de substrato, observa a encenação. Disputa-se quem será o locutor de serviço do que quer que venha a ser ditado por eles para acalmar mercados antropomorfizados numa crise de nervos bastante bem remunerada com salários e direitos que vão sucessivamente, a pouco e pouco para conter reacções violentas, retirando às classes populares.

Será indiferente quem destes três venha a vencer a disputa. Recorde-se que foram eles quem subjugou o processo de decisão política em Portugal aos plenos poderes conferidos pelo Tratado de Lisboa, que fizeram aprovar sem referendo. Nenhum deles terá autonomia para decidir o que quer que seja, quase 40 anos chegam para demonstrar o que cada um deles vale e a austeridade que trazem na boca chega para avaliar o destino que reservam ao povo que se propõem “salvar”. E todos sabemos que nunca dizem tudo, sobretudo quando há eleições para breve.

Mas, e então? Não há alternativas? Haver, há. Ler, por exemplo, aqui e aqui. O que acontece é que, neste simulacro de democracia em que vivemos, os meios de comunicação social pertencem ou são controlados por quem não tem interesse em que se perspectivem alternativas às suas pseudo-inevitabilidades. A sua divulgação, para que sejam discutidas, é dever de todos os cidadãos que recusem ser o factor de ajustamento de uma crise que continua a premiar quem a causou. Eu sou um deles.

Os problemas matam-se à nascença

Os dados recolhidos em qualquer recenseamento da população são o instrumento mais relevante para a concepção de políticas públicas capazes de corrigir realidades indesejáveis. Não parece ser o caso dos falsos recibos verdes. Alda de Caetano Carvalho, Presidente do INE, argumenta que "os Censos não foram considerados a sede adequada" para conhecer o número de falsos recibos verdes no país. Problemas inexistentes não se corrigem, simplesmente não existem. Pensar que o analfabetismo podia ter sido varrido da realidade portuguesa há décadas. Bastaria eliminar a resposta na pergunta respectiva e obrigar todos os analfabetos a mentir sobre a sua situação. Andamos há décadas a desperdiçar milhões em campanhas de alfabetização completamente desnecessárias.