Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Um dia inteiro à espera para nada

Esteve um gajo o dia inteiro à espera das oitimeia, a ver se o senhor presidente anunciava que tinha convencido os amigos do BPN a devolverem o que roubaram aos seus compatriotas, para nada! Só disse o que todos previamos: dissolução da AR e eleições antecipadas, que marcou para 5 de Junho. Ainda falou em responsabilização e em responsabilidade e disse que podemos todos contar com ele para ajudar a resolver os problemas do país, mas notícias dos amigos, nada. Paciência. Fica para a próxima. Um dia ele ainda os põe a todos na ordem. Ouvi dizer que o Dias Loureiro fugiu para Cabo Verde porque anda borradinho de medo deste Cavaco.

É a democracia a falar alto, pá!




“Não tratem as pessoas como números e os mercados como pessoas”. O Bloco de Esquerda fez a sua parte, dando voz aos votos das pessoas que os elegeram. Ler aqui sobre o projecto de resolução que apresentou. Sobre o uso que os outros partidos dão aos votos que lhes são confiados, fala o deputado João Semedo, no video junto.

Licenciado por convicção

Devo referir que sempre estive convencido que o meu percurso académico com 8 anos de frequência universitária e elevado número de cadeiras concluídas, em mais do que um plano de estudos curriculares, correspondesse a um curso superior à luz das equivalências automáticas do Processo de Bolonha. Solicitei, por isso, hoje ao ISEG a devida avaliação curricular”.


Como sempre pensou que era licenciado, Marcos Baptista, o agora ex-administrador da empresa pública CTT sentiu-se na necessidade de confirmar as suas mais vincadas convicções. Tudo bem que haja pessoas que possam sentir-se licenciadas desde sempre. E até é bom. Licenciar-se ao Domingo é ideia que jamais passaria pela cabeça de alguém que se sinta licenciado desde os 2 ou 3 anos de idade. Mas que alguém assim consiga convencer quem tem poder para nomeá-lo de que detém habilitações que apenas sente que detém, passar uns anos valentes a ganhar uma fortuna a ocupar um cargo para o qual não tem qualificações, descobrir, pelos jornais, que afinal não é licenciado, demitir-se por motivos pessoais que nada têm que ver com a descoberta, não ter que repor o que ganhou, não ter um processo crime pela fraude que o possibilitou e que o padrinho que o nomeou também saia ileso da história… é fenómeno que só acontece em países onde uma repetição infindável de histórias rocambolescas como esta não tem qualquer reflexo nos resultados eleitorais dos partidos que, por excesso de responsabilidade e sentido de Estado, até são chamados partidos do "arco governativo".


Actualização: O administrador dos CTT Marcos Batista “não é licenciado, faltando várias cadeiras para terminar o curso”, confirmou ao i o vice-presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) com a tutela dos assuntos académicos. Silva Ribeiro disse ainda que “a pessoa em causa não chegou a concluir cadeiras que lhe dariam equivalência à licenciatura no formato pós-Bolonha”. O i sabe que o que o ISEG está a ponderar entregar o caso ao Ministério Público, alegando falsas declarações prestadas pelo administrador dos CTT Marcos Batista. Ao contrário do que é afirmado pelo administrador da empresa pública, Batista não entrou em contacto com os serviços académicos da instituição de ensino para obter informações sobre a conclusão da licenciatura.

Estes não são os gémeos dos PEC


Legenda: se não comeres a papa toda como a mamã mandou, vem aí o papão.

O prémio da resignação

Quando o sistema de carreiras da função pública foi objecto da fúria reformista que se vivia então, para mitigar as reacções que seriam normais em face a uma nova realidade na qual, em média, cada trabalhador seria promovido apenas 3 vezes ao longo de toda a sua vida activa, ainda por cima com acréscimos remuneratórios ridículos, o Governo acenou com a cenourinha: a reforma condenava todos a auferir o mesmo vencimento durante toda a vida mas, em compensação, anualmente, os melhores receberiam prémios de desempenho. Um apertado sistema de quotas restringia à partida o número destes “melhores” a 5 por cento do total de efectivos. Depois, a não aplicação do sistema de avaliação de desempenho fez com que não houvesse sequer “melhores” em grande parte dos serviços públicos. Os prémios eram apenas uma miragem.


Após verem desmantelada a carreira que lhes foi proposta quando ingressaram na função pública, com apenas um ano de tréguas por motivos eleitorais conhecidos, a regra dos congelamentos salariais sentou-se com violência sobre o poder de compra dos funcionários públicos. Como se não bastasse, este ano, para além de congelados, os salários foram ainda cortados. E os prémios? Também. Lê-se aqui que nem depois de cortada a verba prevista para prémios de desempenho foi executada. O valor total de prémios de mérito atribuídos não chegou a metade das dotações inicialmente previstas.


Não será difícil de imaginar os efeitos de toda esta longa sucessão de cortes e recortes sobre a motivação dos servidores do Estado. Ou sobre as facturações do restaurante do Sr. José, do pronto-a-vestir da D. Conceição e do cabeleireiro do Sr. Carlos, que tiveram que despedir pessoal. Fiquemo-nos pela constatação da regra do prémio da resignação. Quem se habitua a resignar-se e se dá a conhecer como sempre conformado, perde para continuar a perder. Esta, sim, é uma verdadeira inevitabilidade.

Quarta-feira, 30 de Março de 2011

Curioso diálogo entre os dois lados de uma mesma crise

A renegociação das dívidas soberanas começa a ser um cenário cada vez mais verosímil. Observar, aqui, algumas reacções. Mesmo sem conhecer nenhum dos nomes dos economistas convidados a dar a sua opinião, será fácil identificar duas perspectivas bem distintas, cada uma delas inserida no respectivo posicionamento ideológico. De um lado, os raciocínios desenvolvem-se em torno dos elementos “ser melhor para o sistema como um todo” e “ser melhor para Portugal e demais países em dificuldades”. Do outro, os elementos-chave “giram em torno de preocupações relacionadas com menores ganhos para especuladores” (aos quais a sua doutrina insiste em apelidar carinhosamente de “investidores”)) e sobre eventuais impactos de tal cenário sobre os ganhos dos bancos alemães, franceses e espanhóis. De um lado, um “já chega de perder”. Do outro, as preocupações suscitadas por uma decisão que poderá beliscar o seu “há que continuar a aproveitar os tempos de bonança”. De um lado, a exploração do caminho das alternativas. Do outro, a maximização da rentabilização da rota das inevitabilidades. Este curioso diálogo entre os dois lados de uma mesma crise tornou-se possível apenas graças à pluralidade do painel de convidados. Uma raridade. Há economistas e economistas. Gostei.

Coligação "negativa"

A comissão parlamentar de saúde aprovou, com os votos favoráveis de toda a oposição, a recolocação do preço de venda ao público nas embalagens dos medicamentos.

Desta vez

Há pouco, lia horrorizado o anúncio de venda de móveis que uma pessoa minha amiga pôs no facebook. Conhecem a história, com certeza. Vivia bem,Pprdeu o emprego, acabou o subsídio de desemprego, acabaram as poupanças, deixou de pagar as prestações da casa e é mais uma a somar às mais de 700 famílias postas a viver na rua. Serão muitas mais se formos intervencionados pelo FMI.


Mas tudo isto parecerá brincadeira aos olhos de quem assista ao espectáculo que monopoliza os tempos de antena. Sócrates acusa Passos Coelho de ter precipitado tudo, Passos Coelho responsabiliza Sócrates pela crise. A troca de galhardetes entre os sócios dos PEC prossegue a bom ritmo enquanto os juros da dívida soberana portuguesa vão conhecendo novos máximos. As agências de rating vão dando o seu melhor para empurrar Portugal para os braços do FMI e os média vão fazendo o que podem para que todos se habituem à ideia da ajuda externa. E dão-nos a escolher entre os sócios da crise: ou ajuda externa com Passos Coelho ou ajuda externa com Sócrates. Parece que todos eles trabalham para ver muitas mobílias à venda.


As próximas eleições têm esta importância acrescida. Por mais angustiante que seja a ideia, é bom que tomemos todos consciência de que Para muitos portugueses estas poderão ser as últimas antes de se tornarem vizinhos da minha amiga. Estamos todos nas mãos uns dos outros. As que se agarrem à continuidade de uma esperança defunta e as que votem pela mudança de vida. Desta vez, será mesmo a doer. Que ninguém duvide que sim.


Terça-feira, 29 de Março de 2011

Toda a gente sabe

Toda a gente sabe que não há uma vez que Pedro Passos Coelho apareça em público sem que lhe saltem vários “toda a gente sabe”. A falácia até tem nome, Petitio Principi, mas não era sobre argumentação retórica que queria escrever. Leio aqui que Passos apresenta programa eleitoral de apoio às "vítimas” da austeridade. Toda a gente sabe que as soluções do PSD passam por austeridade. Assalta-me a dúvida: irão incendiar o país para depois besuntarem mortos e feridos com Queimax? Daqui a pouco, toda a gente vai ficar a saber. E amanhã toda a gente ouvirá que, pelo contrário, toda a gente sabe que Pedro Passos Coelho não disse nada daquilo que toda a gente vai ouvir hoje. Já toda a gente sabe do que é que a casa gasta.

Fazer acontecer o improvável


Por José Castro Caldas, no Ladrões de Bicicletas. A ler.

Manifesto pró-vida mansa


O próximo Governo tem que ser maioritário, querem os representantes de PS, PSD e CDS no Conselho de Estado. Trabalharam, trabalharam, trabalharam... e lá saiu a solução melhor para todos. Dever cumprido.

Segunda-feira, 28 de Março de 2011

E o povo, pá?


“Não importa quem somos, mas aquilo que nos junta. Somos gente farta da falta de oportunidades e cansada do discurso mentiroso que afirma «não há outro caminho». Somos gente cujo investimento e sacrifícios dos pais na nossa educação resultou em desemprego e precariedade e ofende-nos ouvir dizer que a culpa da nossa precariedade é dos direitos que a geração deles conquistou. Somos gente que defende o trabalho digno e com direitos, independemente da idade e habilitações literárias. Somos gente que está farta de ter a vida congelada e o futuro, nosso e dos nossos filhos, adiado. Porque não nos resignamos, protestamos. Exigimos respeito e reclamamos o direito à dignidade e ao futuro.” É o povo, pá! Arrancou, hoje, na rua (video) e na plataforma wordpress. O manifesto é para continuar a ler, aqui. Ao blogue, vamo-lo acompanhando na coluna da direita.

PEC, PEC, PEC, PEC, toca a mostrar o sapato

A questão nuclear dos guardiões das utopias do impossível


Os alemães correram com a CDU de Ângela Merkel de Baden-Württemberg, no poder há 58 anos, e confiaram o Governo daquele estado com 11 milhões de habitantes a uma coligação liderada pelos Verdes, que conquistam pela primeira vez o Governo de um estado federado na Alemanha. Os media atribuem a decisão dos eleitores quase exclusivamente à questão nuclear. Vamos, portanto, evitar a tentação de colocar sequer a possibilidade de que a regressão social e a austeridade, que também sentem na pele, tenha pesado alguma coisita nesta decisão de mudar de vida. Naaaaaaaaaada a ver.

Jogo viciado

Uma constatação do dia é que há quem queira “informar” que já não há partidos nem de direita, nem de centro, nem de esquerda. Agora há “os principais partidos” e há os “outros”. e há a autoridade do Presindente de todos os portugueses.

Domingo, 27 de Março de 2011

Orelhas de Burro

Corações de Atum – “Gosto de ti”

Sábado, 26 de Março de 2011

Olha! Aquele ali não é o Pedrito?

As tácticas parecem muito simples. O plano parece milimetricamente elaborado. A voz é forte e transborda confiança. Fala de mercados. A imagem é bastante cuidada. O sucesso é garantido. MAS não, não é o Pedro Passos Coelho.

As revoluções também se fazem com votos



Talvez não tenha havido país onde a crise financeira se tenha feito sentir de forma tão dramática como na Islândia. Com certeza todos se lembrarão da bancarrota que sucedeu à catadupa de bancos que faliram. Pois bem. Depois disso, não houve lá cantigas que falam de responsabilidade, sentido de Estado ou medo dos mercados que surtisse o efeito desejado por quem costuma usar esse expediente para se fazer eleger. Os islandeses souberam fazer uma autêntica revolução, absolutamente democrática, e tiveram a coragem de querer mudar de vida.


Neste processo, os islandeses correram com a direita que então detinha o poder, esvaziaram a esquerda prostituída ao liberalismo que se propunha adoptar as mesmas soluções que os primeiros e fizeram das eleições a oportunidade para mudar de vida, pondo aos comandos do destino do país uma coligação de esquerda formada por social-democratas, feministas, ex-comunistas e Verdes. Em referendo, com aproximadamente 93 por cento dos votos, recusaram que fosse a sua sociedade a pagar o buraco financeiro gigantesco aberto pela ganância de banqueiros delinquentes. Prenderam quantos destes ladrões puderam. Asseguraram o controlo da sociedade sobre o sistema financeiro nacionalizando os três maiores bancos. Mandaram os credores externos esperar. E elegeram uma assembleia constituinte em 27 de Novembro de 2010 incumbida da redacção de uma nova Constituição capaz de limitar os excessos de um capitalismo que lhes provocou um sabor tão amargo e de catapultar de novo a Islândia para uma trajectória de progresso e de justiça social.


A actualidade política islandesa passou a ter tanto destaque como a da lua. Podem experimentar procurar por notícias sobre política islandesa no separador de notícias do Google que não encontrarão nada de nada. Na Europa e no mundo inteiro, manda um capitalismo que também se soube apropriar dos meios de comunicação social e que aponta o caminho da regressão social e da concentração de riqueza como o único possível para evitar um “ainda pior” sentido pela maioria, coincidente com o “ainda melhor” de uma elite, que, verifica-se, crescem a cada dia que passa. Há que limitar a possibilidade do surgimento de outras revoluções pelo voto inspiradas no caso islandês. E isto faz-se blindando a ideia de que é possível, como está a ser na Islândia, reconquistar democraticamente um poder político novamente posto ao serviço de todos.


A Islândia ainda atravessa grandes dificuldades, é verdade que sim. Mas já inverteu a rota descendente. Estão incomparavelmente melhor do que nós. A economia e o emprego dão bons sinais. E, sobretudo, regressou aquela energia para trabalhar que apenas a perspectiva de um futuro melhor para todos é capaz de gerar. A esperança voltou à ilha. Souberam obrigá-la a regressar. As revoluções também se fazem com votos.

Recapitalizá-los

Armando Vara, ex-administrador executivo e vice-presidente do BCP, encaixou 260 mil euros de remuneração fixa e um acerto de contas de 562.192 euros por ter saído antes do fim do mandato, num total de 882.192 euros. Isto em 2010, ano em que não exerceu funções por ter sido constituído arguido no processo Face Oculta. Repete-se para aí que é uma prioridade nacional a recapitalização do “nosso” sistema financeiro. Uns chamam-lhe “nosso” com toda a propriedade. Recapitalizam o sistema com, entre outros, um regime fiscal de favor. O sector, por sua vez, recapitaliza-os a eles. Depois, há os outros. Chamam-lhe “nosso” por mero patriotismo bacoco ou por estupidez natural. Recapitalizam-no perdendo salários, perdendo em impostos, perdendo direitos, perdendo serviços públicos, perdendo os empregos que se vão na torrente das perdas anteriores. Pagam taxas de juro e comissões bancárias que estão entre as mais altas de toda a Europa. Assistem impávidos à nacionalização da delinquência do sector que o país foi chamado a pagar. E ainda votam maioritariamente nos partidos que colocam esta malta toda a ser recapitalizada sem a necessidade sequer de fingirem que trabalham. Esta crise não é importada. Esta resignação e este alheamento são de produção exclusivamente nacional.

UE: uma panela de pressão em lume forte

Cenntenas de milhares de pessoas [mais de meio milhão ], vindas de todo o Reino Unido, desfilam em Londres, contra as medidas de austeridade do Governo, naquela que já está a ser anunciada como a maior manifestação da última década e que já originou conflitos entre manifestantes e polícia. A manifestação, marcada desde Outubro, acontece três dias depois de ter sido apresentado o orçamento de 2011 e é chamada “Marcha pela Alternativa”.

Milhares de trabalhadores manifestaram-se esta Quinta-feira, em Bruxelas, contra as reformas económicas que os sindicatos dizem ser demasiado favoráveis às empresas. O centro da capital belga, onde estão sediadas as instituições europeias e onde esta tarde se reúnem os líderes da União Europeia, ficou completamente bloqueado. Convocada pela Confederação Europeia dos Sindicatos, a manifestação quer mostrar que os trabalhadores europeus estão juntos contra o “pacto para o euro”. Também houve confrontos.

Enquanto níveis extremos de radioactividade são detectados no mar de Fukushima, mais de 200 mil pessoas saíram à rua na Alemanha para exigir o desligamento imediato de reactores nucleares do país.

Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Um dia com muitos sorrisos e algumas trombas

A semana termina com um dia feliz nas escolas públicas portuguesas. No Parlamento, punha-se um fim a uma aberração. O sistema de avaliação de desempenho dos professores foi revogado. Comentaram comigo que, entre os sorrisos, viam-se “trombas”. Também nas escolas o socratismo foi capaz de fomentar os piores instintos e despertar o pidezeco que havia adormecido dentro de alguns. Aqueles que facilmente cederam aos apetites da ambição pessoal, os yes men and women e os lambe-botas não sorriam. Sentiam os poderzinhos que lhes foram dados pelo sistema a fugir-lhes da mão. E os olhares dos colegas que ficaram a saber quem eles são. Há sempre disto, assim reine a prepotência ou o totalitarismo. Às vezes esquece-se, outras, não. A maioria saberá recordar quem sempre foi contra o sistema hoje revogado e como se portou o PSD até saberem que há eleições para breve. Como diz um dos poucos adágios da minha predilecção, “quem queira ver o vilão, ponha-lhe o pau na mão”. Acrescentar-lhe-ia apenas um “ou fiquem quietinhos e deixem que outros lho ofereçam”.

E depois do responso da mamã...

Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, garantiu que Pedro Passos Coelho lhe jurou que as metas do programa de estabilidade acordado entre Portugal e a Zona Euro serão cumpridas caso o seu partido venha a liderar o próximo Governo. E parece que é esse o desejo dos portugueses. As políticas serão as mesmas. Os resultados serão os mesmos. As lamúrias serão as mesmas. Mudarão apenas os intérpretes. Queixas sobre José Sócrates já cansam. Os portugueses querem queixar-se de Passos Coelho.

/editado)

Quinta-feira, 24 de Março de 2011

Gostei de ler: "A esquerda que se sujeita e a direita que mente"

“A mentira mais bem sucedida dos nossos dias condensa-se numa frase: “o dinheiro não cai do céu”. É verdade que para as famílias e para cada um de nós “o dinheiro não cai do céu”, mas na realidade o dinheiro cai do céu para os bancos: ele é criado pelos bancos, em última análise pelos bancos centrais. Acontece que os tratados, contrariamente ao que sucede por exemplo nos EUA, impedem o Banco Central Europeu de financiar os estados directamente, deixando-os entregues às instituições financeiras que por sua vez são generosamente financiadas pelo BCE para adquirir títulos de dívida soberana que depois o BCE recompra (nos mercados secundários) ou aceita como garantia de novos créditos. A ideia é simples: sujeitar os estados à “disciplina dos mercados” que é o mesmo que dizer impedir os estados de disciplinar os mercados.”

Este é apenas Um excerto de um texto notável de José Castro Caldas. A ler, na íntegra e com toda a atenção, no Ladrões de Bicicletas: “A esquerda que se sujeita e a direita que mente”. Gostei mesmo muito.

Última hora: a mamã NÃO dá licença

Se o anterior regente cumpria todas as ordens sem regatear, para quê arriscar noutro que não tem experiência nem sequer como Presidente de Junta de Freguesia? É a própria Angela Merkel que se manifesta quanto ao seu pajem favorito. Diferenças ideológicas? Descubram-nas os portugueses que ainda sonham que o PS é um partido de esquerda.

Mamã dá licença? Quantos Passos?

Como vimos e ouvimos, ontem, Passos Coelho deixou a dúvida ao prometer uma “estratégia verdadeiramente nacional”. E não perdeu tempo. Hoje, foi dia de ir a correr encontrar-se com Angela Merkel. Dúvida tonta. “Verdadeiramente nacional”… nacional da Alemanha.

Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Descalço vai para o pote, Passos pela verdura

Conforme o guião, pelas razões e motivações mais diversas, o PEC IV foi rejeitado. José Sócrates anunciou a demissão. Vamos a votos. Imediatamente a seguir, falou Jerónimo de Sousa. Depois dele, falava Francisco Louçã. Nisto, ouve-se “vamos ter que interrompê-lo, Pedro Passos Coelho iniciou a sua declaração ao país”. Não esperou. Começamos bem. E lá ficámos a saber que os mercados o preferem a Sócrates. Importante, sem dúvida alguma, ver a vaidade tão bem realçada. Agora, é repetir quantas vezes for necessário que as políticas seguidas até aqui por Sócrates eram boas… e que não resultaram porque era ele e não Passos Coelho o Primeiro-Ministro. E continuar a abafar quem responda a este favoritismo com propostas de mudança que invertam a trajectória de crise profunda que tem como únicos responsáveis os dois amigos que combinaram brincar aos mercados. Preparemo-nos para ver Passos Coelho a ser levado ao colo até ao seu desejado “pote”. O combate será bastante desigual. Desta vez, porém, os portugueses conhecem bem cada candidato e cada projecto, só se deixará enganar uma outra vez quem se deixe novamente embalar. O que será uma "estratégia verdadeiramente nacional"?

Cantigas do dia

Há muito, muito, muito tempo, os três porquinhos aprenderam que só fugindo do lobo mau evitariam que os seus belos presuntos fossem parar à sua pança . O tempo passou e essa táctica entrou em desuso. Hoje, os três porquinhos – e continuam a ser três - convenceram-se de que, fazendo-lhe todas as vontades, o lobo tornar-se-á bom e de forma alguma se lembraria de comer meninos porcos tão lindos e doces como só eles. O lobo também se adaptou aos novos tempos. Come, vai comendo tudo, mas aos bocadinhos. Para que os porquinhos acreditem que o convenceram a ser um lobo bonzinho. Ao menos para porquinhos tão servis como eles. Porcos... Viciados em obedecer.

Terça-feira, 22 de Março de 2011

E assim estamos todos, à espera do fim do mundo

“Uma crise política com consequências de máxima gravidade”. “Uma crise política com consequências imprevisíveis”. Não há jornal onde não se leiam ou ouçam expressões semelhantes. O alarmismo instalou-se para não deixar ninguém escapar ao dramatismo proposto. Ricardo Salgado foi uma das vozes que se ouviram na defesa de um Governo de “salvação” nacional composto pelos três partidos do pomposamente chamado, expressão condicionadora de escolhas, “arco governativo”. De Bruxelas chegou o recado de que não há motivo algum para questionar o PEC IV, que, dizem, não pode ser alterado. Será austeridade ou austeridade. Tem sido austeridade. É uma crise de regime. É uma crise de políticas com consequências que, desde o início, apenas para todos estes senhores – e vamos deixar de lado os enriquecimentos astronómicos que proporcionaram por mera casualidade – tem tido resultados imprevistos.

E aqui estamos nós, à espera do dia anunciado para a queda do Governo. De um lado, o PS, propõe mais austeridade. De outro, o PSD, aponta para mais austeridade. Entre ambos, o partido dos submarinos coloca-se a postos para fazer de muleta a qualquer um dos dois. E, lá no alto, o directório europeu, ao qual todos eles se propõem obedecer com toda a responsabilidade, governabilidade, estabilidade, sentido de Estado e outras expressões despojadas de substrato, observa a encenação. Disputa-se quem será o locutor de serviço do que quer que venha a ser ditado por eles para acalmar mercados antropomorfizados numa crise de nervos bastante bem remunerada com salários e direitos que vão sucessivamente, a pouco e pouco para conter reacções violentas, retirando às classes populares.

Será indiferente quem destes três venha a vencer a disputa. Recorde-se que foram eles quem subjugou o processo de decisão política em Portugal aos plenos poderes conferidos pelo Tratado de Lisboa, que fizeram aprovar sem referendo. Nenhum deles terá autonomia para decidir o que quer que seja, quase 40 anos chegam para demonstrar o que cada um deles vale e a austeridade que trazem na boca chega para avaliar o destino que reservam ao povo que se propõem “salvar”. E todos sabemos que nunca dizem tudo, sobretudo quando há eleições para breve.

Mas, e então? Não há alternativas? Haver, há. Ler, por exemplo, aqui e aqui. O que acontece é que, neste simulacro de democracia em que vivemos, os meios de comunicação social pertencem ou são controlados por quem não tem interesse em que se perspectivem alternativas às suas pseudo-inevitabilidades. A sua divulgação, para que sejam discutidas, é dever de todos os cidadãos que recusem ser o factor de ajustamento de uma crise que continua a premiar quem a causou. Eu sou um deles.

Os problemas matam-se à nascença

Os dados recolhidos em qualquer recenseamento da população são o instrumento mais relevante para a concepção de políticas públicas capazes de corrigir realidades indesejáveis. Não parece ser o caso dos falsos recibos verdes. Alda de Caetano Carvalho, Presidente do INE, argumenta que "os Censos não foram considerados a sede adequada" para conhecer o número de falsos recibos verdes no país. Problemas inexistentes não se corrigem, simplesmente não existem. Pensar que o analfabetismo podia ter sido varrido da realidade portuguesa há décadas. Bastaria eliminar a resposta na pergunta respectiva e obrigar todos os analfabetos a mentir sobre a sua situação. Andamos há décadas a desperdiçar milhões em campanhas de alfabetização completamente desnecessárias.

Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Dia mundial da poesia

-se o amador na coisa amada, com seu

feroz sorriso, os dentes,

as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído

e silêncio. Traz o barulho das ondas frias

e das ardentes pedras que tem dentro de si.

E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado

silêncio da sua última vida.

O amador transforma-se de instante para instante,

e sente-se o espírito imortal do amor

criando a carne em extremas atmosferas, acima

de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.

E a coisa amada é uma baía estanque.

É o espaço de um castiçal,

a coluna vertebral e o espírito

das mulheres sentadas.

Transforma-se na noite extintora.

Porque o amador é tudo, e a coisa amada

é uma cortina

onde o vento do amador bate no alto da janela

aberta. O amador entra

por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.

O amador é um martelo que esmaga.

Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher

que escuta

fica com aquele grito para sempre na cabeça

a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve

e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito

do amador.

Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,

dá-lhe o grito dele.

E o amador e a coisa amada são um único grito

anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito

de amador. E ela é batida, e bate-lhe

com o seu espírito de amada.

Então o mundo transforma-se neste ruído áspero

do amor. Enquanto em cima

o silêncio do amador e da amada alimentam

o imprevisto silêncio do mundo e do amor.

[Herberto Hélder – roubado do blogue da Aldina Duarte. Gostei e recomendo.]

Sábado, 19 de Março de 2011

Orelhas de Burro

Clã – “Vamos esta noite”

Sexta-feira, 18 de Março de 2011

Condenado a benfeitor

A condenação a Uma pena suspensa de quatro anos e sete meses, apenas menos cinco meses do que os cinco anos que corresponderiam obrigatoriamente a uma pena efectiva, pela prática de um crime continuado de corrupção passiva para acto ilícito e um de abuso de poder já seria uma grande habilidade. Mas a requalificação jurídica, feita pelo Tribunal, de oito crimes de corrupção para crime "continuado", para fazer com que um arguido apenas seja condenado por um único crime, já assume contornos de magistratura artística.

Mas pode ir-se sempre ainda mais longe. Uma sentença pode ter o seu lado humanitário. E suspender uma pena na condição de o arguido se tornar um benemérito da sociedade e entregar 30 mil euros a duas instituições de solidariedade social no prazo de um ano poderá ser lido como um esforço nesse sentido. Ainda que nenhuma IPSS tenha sido lesada. E ainda que tenha sido o Estado o lesado, ou seja, todos nós. Será desse dinheiro, que o Tribunal deu como provado ter sido subtraído a toda a sociedade, que serão retirados os 30 mil euros da condenação a benfeitor de que vos falo. Quanto ao restante, alguém foi condenado a ficar com ele. O tribunal considerou que seria um custo "demasiado severo" ter que devolvê-lo integralmente.

A corrupção passiva para acto ilícito tem uma moldura penal que vai até aos oito anos de prisão. Não esquecer que as decisões judiciais não se comentam. É demagogia. Ou lá o que é que os domesticadores de serviço dizem que é.

Quarta-feira, 16 de Março de 2011

Governabilidade, responsabilidade, estabilidade. E as clientelas

O Governo recuou na decisão anunciada há apenas duas semanas de descer o preço de muitos medicamentos já a partir do dia 1 de Abril, o que permitiria reduzir a factura para o utente e para o Estado, e assinou hoje um protocolo com a indústria farmacêutica que permitirá – dizem eles - uma poupança para as contas públicas de 100 milhões de euros já este ano – mas que nada muda para o utente.

Todos os anos é feita uma revisão dos preços dos medicamentos, através de um mecanismo de comparação dos preços praticados em Portugal com os que existem nos quatro países que nos servem de referência: Espanha, França, Itália e Grécia. Quando o preço português é mais elevado é feita uma redução. Se o preço em Portugal for mais baixo mantém-se, não sofrendo qualquer aumento.

Era ao abrigo deste princípio, publicado em decreto-lei pelo Governo em 2007, que 190 medicamentos sofreriam uma redução já em Abril. Com o “Protocolo para a Sustentabilidade e Acesso ao Medicamento” hoje assinado entre o Governo e a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) este mecanismo de revisão de preços é suspenso por dois anos, o que dá mais estabilidade aos laboratórios depois de um ano com várias alterações na política do medicamento, segundo explicou o presidente da Apifarma, João Almeida Lopes, numa conferência de imprensa que decorreu no Ministério da Saúde.

O botas de Boliqueime

"Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar". Cavaco Silva voltou a transpirar salazarismo. A guerra fratircida do seu ídolo era contra os “turras”. A sua é entre “tugas”. Entre aqueles que se resignam e colaboram na tarefa de empobrecer e despojar de direitos compatriotas seus e todos aqueles que vêem nesta guerra a mesma inutilidade e o mesmo desfecho da outra. Combater para nada, ser carne para canhão, enquanto eles brincam às guerras. E nesta há quem enriqueça a bom enriquecer. É este o desafio daquele que os portugueses deixaram que fosse eleito Presidente da República. Tantos anos de democracia para voltar a ouvir que os superiores interesses do país passam por destinos ceifados em vão.

Terça-feira, 15 de Março de 2011

A luta é alegria

Foi bonito. Nem apenas novos, nem apenas velhos, nem apenas trabalhadores do público, nem apenas trabalhadores do privado, nem apenas precários, nem apenas empregados, nem apenas desempregados, nem apenas do partido A, nem apenas do partido B. Havia de tudo. Por um dia, a propaganda da situação que coloca uns contra os outros para neutralizar reacções demonstrou-se impotente para desunir uma multidão de centenas de milhares que se manifestaram por todo o país. Todos em protesto contra a reconcentração de poderes que a democracia desconcentrou, contra a reconcentração de riqueza que o Estado social redistribuiu, contra os direitos laborais que, em nome de uma escravatura a que chama de progresso, a ditadura das inevitabilidades continua a alienar, reconcentrando uma prepotência que passou a pertencer ao passado graças a lutas sociais mais antigas.

Apenas Dois dias antes, no Parlamento, recorde-se, prova de que o poder político e os partidos não andam todos cegos e surdos ao povo que representam, o Bloco de Esquerda havia apresentado uma moção de censura às políticas contra as quais a multidão saiu à rua. Criticaram-na os mesmos agentes da situação que tentaram ridicularizar o protesto histórico de Sábado. E chumbaram-na o partido do Governo e a abstenção dos seus aliados. Um Governo que, no dia seguinte, anunciou http://www.publico.pt/Política/socrates-admite-demitirse-em-caso-de-chumbo-do-pec_1485005novos desenvolvimentos ao plano de austeridade que concertou com os candidatos a seus sucessores no poder de fazer tão mau ou pior, dos quais, tal como fizeram no Parlamento quando se abstiveram, imediatamente se demarcaram, criticando, com um palavreado de bom recorte técnico, políticas que até aí sempre apoiaram.

Depois, soube-se de um equívoco lamentável. O IVA sobre o golfe, essa necessidade básica dos mais ricos, subiu para 23 por cento. Um jornal garantiu que o erro será corrigido e o golfe será tributado à mesma taxa do pão e do leite. Reagiu quem reagiu e calou-se quem se calou, consoante o lado que representam. A luta é alegria.